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5.3 Performance evaluation

Toda enunciação monológica, inclusive uma inscrição num monumento, constitui um elemento inalienável da comunicação verbal. Toda enunciação, mesmo na forma imobilizada da escrita, é uma resposta a alguma coisa e é construída como tal. Não passa de um elo da cadeia dos atos de fala. Toda inscrição prolonga aquelas que a antecederam, trava uma polêmica com elas, conta com as reações ativas da compreensão, antecipa-as. (VOLOSHINOV-BAKHTIN, 2002, p. 98).

Nas palavras acima, Volochinov-Bakhtin (2002) abordam a natureza dialógica das situações monológicas e, principalmente, destacam sua natureza dialética (polêmica), abordando que as enunciações se constituem pela atividade responsiva (avaliativa), ativa entre o que a antecede e o que a precede, o que permite a constituição de um elo. Especificamente, mesmo as situações solitárias, como a escrita e a leitura, pelo menos do ponto de vista de um observador externo, por serem, em geral, realizadas individualmente, são constituídas dialogicamente propiciadas pela emergência de vozes dialógicas que se

polemizam dentro do paradigma do dialogismo. A concepção de compreensão textual na situação de leitura da presente investigação é formada pelas vozes dialógicas que permeiam todo esse processo, havendo um elo na cadeia dialógica que permite ao leitor voltar ao texto, procurar subsídios na situação contextual e realizar antecipações (hipotetizar) acerca da continuação do texto.

Volochinov-Bakhtin (2002) enfatizam a natureza do discurso escrito com seu status socioideológico, que reflete as situações particulares nas quais foi produzido pelos seus autores e se configura dentro de uma esfera da atividade humana particular. Diante disso, eles defendem que o discurso escrito faz parte de uma discussão ideológica em grande escala: responde, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais e procura apoio.

Sendo assim, o discurso escrito é apresentado ao seu leitor, que faz parte de uma esfera da atividade humana com toda carga ideológica, com objetivos, contradições implicitamente estabelecidas pelos integrantes dessa atividade comunicativa. Os gêneros discursivos (como a história) são, portanto, gerados em esferas específicas e com objetivos específicos; há a partir da sua “ida ao mundo”, o estabelecimento de diálogos com as diversas vozes (heteroglossia) para que os leitores elaborem hipóteses, que posteriormente serão confirmadas ou refutadas, concordando, ativa e responsivamente, com as idéias ali expostas ou discordando delas. Há, assim, uma compreensão ativa dos enunciados apresentados no discurso escrito pelo leitor.

Mesmo não se preocupando especificamente com a atividade de leitura, Volochinov-Bakhtin (2002) afirmam que a “compreensão passiva” não é capaz de comportar nem o esboço de uma resposta, como seria exigido por qualquer

espécie autêntica de compreensão, por estar impregnada da compreensão da palavra em sua abstração; daí não seria possível se estabelecer como compreensão propriamente. Para eles, o que interessa é a compreensão ideológica ativa dos enunciados, a qual é uma tomada de posição ativa sobre o que é dito e o que é compreendido.

Volochinov-Bakhtin (2002) apontam que, na compreensão (ativa), os contextos possíveis de uma única palavra são freqüentemente opostos – determina-se pelo contexto situacional. Dessa forma, toda enunciação efetiva contém sempre a indicação de uma contradição com algo, possibilitando um conflito tenso e ininterrupto. Eles destacam que qualquer tipo de compreensão dos mais diversos gêneros discursivos é ativo e contém sempre o germe de uma resposta. Sendo assim, compreender a enunciação de outrem implica orientação relacionada a essa enunciação, que se relacionará com outras enunciações como réplicas. Em suma, segundo o círculo de Bakhtin, compreender é opor à enunciação do locutor uma contrapalavra, pois toda enunciação tem um acento de valor ou apreciativo.

Geralmente, o autor do texto espera uma resposta (considerada ativa) do seu interlocutor/leitor, e não só uma reprodução de ponto de vista (reprodução literal do texto). Essa resposta é o que caracteriza a leitura como enunciação (compartilhada, única e jamais repetida). Na leitura dialógica, é permitida a reflexão do leitor, que avalia o ponto de vista do autor e expõe seu ponto de vista (uma contrapalavra), construindo os sentidos do texto e não apenas reproduzindo literalmente o texto.

Fazendo uma transposição para o presente estudo, o processo de compreensão textual de natureza dialógica ocorre pela apropriação dos enunciados dos

OUTROS mediante apreciação (dimensão avaliativa) do discurso escrito lido. Assim, segundo discute Faraco (2003), a compreensão não é mera experienciação psicológica da ação dos outros, mas atividade dialógica que, diante de um texto, gera outros textos. Compreender não é ato passivo (mero reconhecimento), mas uma réplica, uma resposta, uma tomada de posição diante do texto. A atividade de leitura, enquanto enunciado, é um elo complexo na cadeia, em que diferentes enunciados se inter-relacionam para constituir a compreensão.

Ao compreender o texto, o leitor está sempre realizando inferências; é nesse processo que ele elabora hipóteses, ponderando as possibilidades de compreensão textual para escolha da alternativa mais coerente. Nesse processo, existem diversas vozes dialógicas exprimindo idéias sobre o texto que, necessariamente, precisam ser negociadas, pois nem sempre elas convergem (atitude responsiva). As ações discursivas realizadas durante a situação de leitura remetem ao emaranhado de vozes que estão “em jogo” no desencadeamento de inferências essenciais à compreensão textual. Assim, o presente estudo, apresenta como hipótese que o processo de geração de inferência de predição aqui estudado parece ser constituído por essa tomada de posição, em que o leitor elabora suas hipóteses (predições) sobre a continuidade do texto. Há, então, a produção de sentidos do texto de um leitor específico, situados historicamente. O sujeito, durante o processo de compreensão, produz sentidos ao texto de acordo com sua unicidade, considerando o momento histórico, as situações específicas, o que faz elaborar inferências únicas na leitura, que provavelmente não seriam geradas por outro leitor. Isso confere à leitura caráter essencialmente dialógico,

em que a produção de sentidos depende unicamente da historicidade e unicidade de um leitor específico.

Entende-se, aqui, que a compreensão de texto (inferenciação) se estabelece processualmente, a partir de avaliações do leitor acerca do texto, do autor do texto e do conhecimento prévio do leitor. Com isso, a compreensão dependerá, sobretudo, de um processo contínuo construído interativamente em um momento e situação específicos. Assim, o sentido do texto é construído em contexto situado mediado semioticamente, adquirindostatus de realidade social compartilhada.

Na leitura de um texto, por exemplo, existe um emaranhado de vozes dando-lhe sentido. É esse emaranhado de vozes que constitui o processo de significação enunciativa, que é eminentemente sociohistórico. Nessa direção, Barros (2003) propõe que o texto deve ser considerado “tecido” organizado e estruturado culturalmente, cujo sentido depende do contexto sociohistórico. No dialogismo, o texto é constituído como espaço dialógico, de onde diferentes perspectivas emergem para constituição dos sentidos a partir da intertextualidade. Para Fiorin (2003), a intertextualidade é um processo de incorporação de um texto em outro, seja para construir sentido, reproduzir sentidos incorporados ou transformá-los. Considera-se, neste estudo, que a compreensão textual, em suas particularidades, pode ser entendida como atividade essencialmente dialógica, na qual existe uma tomada de posição por parte do leitor, gerada a partir de outros textos. Segundo Faraco (2003), a compreensão aponta para o possível, porque é uma operação sobre o significado que, sendo em grande parte realizado na interação, no encontro de cosmovisões e orientações axiológicas, envolve uma dimensão de pluralidade.

A atitude avaliativo-axiológica (compreensão responsiva) do enunciado na relação eu-outro (negociativa) do discurso social, constituindo a unicidade do ser social (constituição da consciência), é o pressuposto do círculo de Bakhtin de suma importância para o presente estudo, porque se levanta aqui a hipótese de que os processos inferenciais preditivos possuem natureza argumentativa. Na inferência de predição, por exemplo, o leitor parece se deparar com alternativas para a continuidade do texto; precisa, então, escolher uma delas. Para realizar tal escolha, o leitor precisa estabelecer uma atividade de negociação, para a qual entra em jogo todo o seu conhecimento de mundo: gêneros lidos, crenças, experiências pessoais, dentre outros. Supõe-se que essa escolha dentre uma das alternativas de compreensão textual, realizada na compreensão on-line, seja inerentemente argumentativa. Parece existir um movimento dialético-dialógico na seleção das alternativas, já que há várias possibilidades para a continuação textual. Na atividade de compreensãoon-line, realizada na presente investigação, espera-se que, além da emergência dos pontos de vista, as justificativas a estes sejam verbalizadas, reforçando a natureza argumentativa do processo inferencial.

Em contrapartida, os estudos de natureza monológica vêem a compreensão de texto na leitura como atividade que permite acessar as “capacidades” dos leitores, caracterizando-os como imaturos ou proficientes (Oakhill e Yuill, 1996; Perfetti, Marron e Foltz, 1996). Para essas investigações, a “habilidade” de fazer inferências pelo leitor é um dos principais fatores necessários à compreensão. A realização desse tipo de estudo que analisa PRODUTO pode ser exemplificada pelo estudo de Perfetti, Marron e Foltz (1996). Eles constataram que os maus compreendedores criam modelos situacionais fracos (representação mental do leitor na construção da compreensão via inferência) e apresentam compreensão

incompleta do texto. Assim, concluíram que a inabilidade de fazer inferências pode levar a falhas na compreensão textual.

Grande parte dos estudos empíricos descritos na literatura propõe-se acessar, por meio de atividades lingüísticas, as habilidades necessárias à compreensão textual. Conforme exposto acima, realizar inferência é um dos principais fatores de alto nível necessário à compreensão. Todavia, como se constitui a inferência e quais os processos cognitivo-discursivos envolvidos na realização dela não são questões prementes nas pesquisas de base cognitiva de caráter monológico.

Na perspectiva dialógica adotada neste estudo, a leitura é uma ação inerentemente dialógica da atividade humana, construída por vários interlocutores sociais.