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O objetivo da presente pesquisa é investigar o processo geração de inferências, com a hipótese de que esse processo possui natureza essencialmente
argumentativa. Sugere-se que, durante o processo inferencial, o leitor precisa negociar para escolha de uma das diversas possibilidades de fazer sentido a um determinado texto, utilizando-se para isso de movimentos retrospectivos e prospectivos que lhe permitem integrar o conteúdo textual já lido, não lido e seu conhecimento de mundo.
Definir a unidade de análise constitui-se em uma etapa crucial na validação de uma pesquisa científica de caráter sociohistórico-cultural que pretende realizar uma investigação no plano processual. A definição da unidade de análise é constituída pelos elementos imprescindíveis que permitem capturar o fenômeno investigado. No caso da presente investigação, o fenômeno é o processo de geração de inferências de predição. Para definir a unidade de análise deste estudo, serão retomados alguns conceitos importantes que ajudaram na sua constituição, como os conceitos de inferência e argumentação e a relação aqui proposta entre inferência e argumentação (constituição argumentativa das inferências de predição).
O presente estudo concebe a inferência como um processo cognitivo-discursivo gerado a partir da integração de informações textuais com a situação contextual do leitor (conhecimentos de mundo), favorecendo a construção da significação (compreensão textual). Essa integração é realizada, de forma retrospectiva e prospectiva, pela apreciação (avaliativa) dos leitores. Sugere-se aqui que, durante o processo de inferenciação preditiva (necessário à compreensão textual), várias possibilidades de fazer sentido ao texto emergem, desencadeando-se um processo dialógico-dialético de negociação e escolha o qual é carregado de argumentatividade. Nessa negociação, durante a atividade de leitura, acredita-se
que os leitores precisam dialogar com diferentes vozes sociais que polemizam a escolha de uma das alternativas de fazer sentido ao texto e estabelecer a sua continuidade.
Esta investigação se configura, portanto, dentro de uma perspectiva dialógica da atividade de leitura e tem como objetivo analisar em detalhes o processo argumentativo de inferenciação. Desse modo, é a necessidade de apreciação dos leitores que possivelmente gera o processo argumentativo, o qual pode ser identificado pela emergência de operações argumentativas, que são: argumento (ponto de vista e justificativa) e movimentos opositivos. No presente estudo, o movimento de oposição consiste na presença da oposição nas verbalizações das participantes, seja no formato explícito de um contra-argumento, seja na presença de elementos lexicais que indiquem a presença de oposição. Um modalizador que ajuda a marcar os movimentos opositivos é o indicador modal provavelmente, pois sugere que o leitor não assume a total responsabilidade sobre os seus enunciados.
Enfatiza-se que essas operações argumentativas podem aparecer, nas verbalizações das participantes, em diferentes níveis de completude: mais especificamente, pode-se observar a presença de um ponto de vista, justificativa e movimentos opositivos em algumas verbalizações e a presença apenas de um argumento (ponto de vista e justificativa) em outras– há variedade no surgimento dessas operações argumentativas.
Considera-se que as operações argumentativas transitam na situação de leitura, para a constituiçãoon-line da compreensão, a partir da geração de inferências de predição. De acordo com a literatura, essas inferências são geradas comumente
pelos leitores, nos quais ocorre a elaboração de hipóteses sobre a continuação textual durante o processo de leitura (OAKHILL; GARNHAM, 1988). Então, supõe- se que as participantes elaboraram conscientemente hipóteses sobre a continuidade do texto que poderiam ser confirmadas ou refutadas, a partir de uma atividade de negociação.
Serra e Oller (2003) defendem que o leitor precisa antecipar ou imaginar como o texto vai prosseguir e ir comparando suas previsões, se estão corretas para poder modificá-las, se necessário, e fazer outras. Essas inferências são consideradas pelos autores como estratégias, e elas é que permitem ao leitor avançar no sentido da auto-regulação da própria leitura; podem ser, portanto, utilizadas conscientemente. As inferências de predição de natureza consciente é que serao o foco desta análise.
Diante do exposto, a unidade de análise da presente investigação constitui-se de cinco elementos discursivos, que, conjuntamente, permitem capturar a construção da inferência de predição, conforme descritos abaixo.
O elemento A, o conteúdo textual (CT), é deflagrador de todo o processo por causa da própria natureza da situação de leitura; permite ao leitor se deparar com um texto específico, com objetivos definidos pelo seu autor, na tentativa de explicitar suas idéias sobre uma determinada temática. Neste estudo, o conteúdo textual aparece em partes: há uma parte do texto em cada slide apresentado às participantes.
O elemento B consiste na pergunta P-1 apresentada ao leitor após cada slide com conteúdo textual. A pergunta 1 (Qual será a continuação do texto?) é
necessária para que haja a geração verbalizada da inferência de predição. Essa pergunta 1 poderá ter sido lida em voz alta pelas participantes ou não.
O elemento C (IP) é constituído pela própria inferência de predição. Essas inferências constituem-se em antecipações do leitor realizadas, freqüentemente, no processo de compreensão textual, que lhes permitem testar suas hipóteses acerca da continuidade do texto.
Oelemento D P-2 é constituído pela pergunta “Como você chegou a essa idéia?” e/ou pela pergunta 3, “O que você está pensando?”. Essas perguntas permitem a explicitação das bases geradoras das inferências de predição.
O elemento E é constituído pela explicitação das bases geradoras das inferências de predição, permitida pelas perguntas 2 e ou 3. Assim, ao elaborarem as suas inferências preditivas, as participantes foram solicitadas (pelo elemento D) a verbalizar as bases geradoras dessas inferências.
O conhecimento de mundo do leitor é crucial, pois ele favorece a realização de apreciações necessárias para a constituição das inferenciações. No caso das inferências de predição, o conhecimento de mundo permite que o leitor elabore hipóteses para a continuação do texto, pela avaliação e seleção de uma alternativa dentre as de continuidade textual. O conhecimento de mundo consiste nas experiências pessoais, crenças e conhecimentos prévios do leitor, que está inserido em um grupo sociocultural particular, ocupando papéis sociais específicos. Além disso, interlocutores diversos lêem um texto específico com objetivos diferentes ou de diferentes lugares sociais, fazendo um delineamento da leitura. Sendo assim, nenhum texto pode ser lido da mesma forma, pois os leitores possuem conhecimentos de mundo diferentes, o que permite fazerem
apreciações específicas para constituição do sentido do texto, sobretudo em razão de suas funções socioculturais, dos lugares institucionais e das suas ideologias.
A partir dos cinco elementos, conceituados acima, da unidade de análise, os processos inferenciais de natureza argumentativa podem ser capturados. O Quadro 2 apresenta, de forma esquemática, como esses elementos podem contribuir na investigação dos processos inferenciais de natureza argumentativa.
QUADRO 2: Esquema representativo dos movimentos realizadas para constituição das inferências de predição na situação de leitura on-line.
CONHECIMENTO DE MUNDO