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Performance environnementale : gestion de l’eau, gestion des

Dans le document Ville de Chartres. Plan Local d Urbanisme (Page 57-61)

IV. Analyse des incidences du PLU sur l’environnement et le paysage

3. Performance environnementale : gestion de l’eau, gestion des

Um dos escritores mais importantes e instigantes do século XX, Ítalo Calvino, escreveu As cidades invisíveis (1990). Nesta obra, a cidade deixa de ser um conceito geográfico para se tornar o símbolo complexo e inesgotável da existência humana, ou seja, em nós habitam cidades invisíveis. Manguel e Guadalupi (2003), a partir da suposição de que ficção é realidade, escreveram Dicionário de lugares imaginários, um guia de lugares que gostariam de visitar, escolhidos porque eles provocam em nós aquela emoção indescritível, a verdadeira proeza da ficção.

A literatura abre espaços para o leitor imaginar lugares, criar a sua própria cidade, fundar atos de leitura no mundo inventado. Esse universo imaginário, oferecido pela literatura, provoca a escrita de textos ficcionais de riqueza e de diversidade espantosa. Mundos criados para satisfazer desejos, sem os quais a existência humana seria muito pobre.

No trabalho de campo vão surgindo esses lugares. Laura, de leitora, revela- se escritora. Para o encontro de campo, realizado na escola em 16/11/2014, ela trouxe um texto, intitulado "Cidade do nada" e, com isso, cria um universo literário novo. Segundo Queirós, "[...] cada palavra descortina um horizonte, cada frase anuncia outra estação. E os olhos, tomando das rédeas, abrem caminhos, entre linhas, para a viagem do pensamento". (QUEIRÓS, 1999, s/p).

O texto de Laura gera dúvidas, e a dúvida provoca criação literária inédita. A escrita surge das provocações que o grupo da pesquisa vai experienciando. Um mapa imaginário, o qual tem espaço para mais uma cidade, uma praça ou um país.

A cidade do nada

Então cheguei naquela cidade, pensando encontrar várias coisas diferentes. Porém fui entrando de mansinho e não consegui ver ninguém nem nada. Pensei: como assim, não tem ninguém? ... Olhei ao meu redor e observei que havia alguns prédios vazios, uma pracinha com alguns bancos de madeira. Na calçada e nos bancos havia muito pó, que mais se parecia com cinza. Uau! Começou a me dar medo, aquela cidade estava parecendo com o cenário de filme. De repente escutei o barulho de galhos se quebrando, pensei em me mandar embora daquela cidade que não tinha ninguém, sem verde, sem nada, a não ser o pó. Bem devagar fui me afastando daquele nada. No dia seguinte fiquei pensando: a cidade do nada teria sido um sonho? (Diário de campo, 16/11/2014).

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Nessa experiência ficcional, Laura passa da oralidade e da imaginação para a escrita. E o ato de escrever torna-se uma prática nova para o sujeito. Certeau (1994) designa por escritura a atividade concreta sobre um espaço próprio, a página, e que consiste em elaborar um texto com poder sobre a exterioridade. Assim, o texto é um artefato de outro mundo, não recebido, mas fabricado. Essa construção textual não é apenas um jogo de palavras, ela abre a possibilidade para agir sobre o indivíduo e sobre o meio e transformá-lo. Nas palavras de Certeau (1994), uma maquinaria que transforma os corpos individuais em corpo social.

O texto literário de Laura não está acabado. Há perguntas que convidam o leitor a fabricar continuidades. "No dia seguinte, fiquei pensando: a cidade do nada teria sido um sonho?". Para Certeau (1994, p. 243), "essas produções têm um ar fantástico, não pela indecisão de um real que mostraria nas fronteiras da linguagem, mas pela relação entre os dispositivos produtores de simulacros e a ausência de outra coisa".

No contexto da produção escrita individual dos participantes da pesquisa, emergem outras histórias. Henrique escreve,

Depois de tanto andar por este velho mundo de Deus, resolvi fazer uma viagem para um país ainda desconhecido. Saí no dia 7 de julho de 1977, às 7 horas. Embarquei para o estado de Assombração, que fica no país do Terror. A primeira parada fiz foi na cidade de Fantasma, que embora sendo uma cidade pequena, com apenas 7.777 habitantes, é muito desenvolvida. A população trabalha nas fábricas e tem boa renda. Porém, o grande chefe da cidade importa de tudo, desde cachaça e fumo até armas de grande poder de destruição. Na política, a cidade tem só 2 partidos: SQV e TQC. As eleições são realizadas de 7 em 7 anos. Votam todos os cidadãos acima de 16 anos de idade. Na área da saúde não há médicos, pois o curador é o próprio chefão da cidade. Na praça da cidade há plantas de espinho e outras plantas exóticas: urtiga, carrapicho, pimenta. Há flores e vegetação de enfeite e medicinal: unha-de-gato, mamica-de-cadela - planta brasileira que se assemelha à mama de uma cadela e é usada no tratamento do vitiligo. Para proteger essas plantas são feitas cercas com caraguatá. Sentado na praça encontrei uma garota, que me chamou pelo nome. Conversamos, fomos a uma boate dançar. Namoramos. Passeamos pela cidade, conhecemos lugares incríveis, fomos ao motel, à Praia da Solidão, nos entregamos um para o outro. Daí o telefone tocou. Acordei assustado, eram 7h27 de uma segunda-feira, hora de ir para o trabalho. Minha viagem de 7 dias ao país desconhecido acabou. Acabou também o sonho". (Henrique, 16/11/2014).

A escrita de Henrique é significativa. O que ele diz tem relação com a obra Um camponês na capital, de Miguel Sanches Neto, leitura oportunizada pela pesquisa de campo. O conhecimento popular que Henrique dispõe sobre as plantas

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exóticas e a terminologia indicam suas origens, homem que viveu boa parte de sua vida no campo. Em cada palavra e expressão do texto há uma lembrança, e por meio desse processo, o autor leitor vai se constituindo.

Nas últimas décadas, a concepção de leitura tem sido repensada a partir de uma série de debates e trabalhos acadêmicos que a concebem como uma questão ao mesmo tempo pedagógica, linguística e social (ORLANDI, 1988). Autores como Zilberman, Lajolo e Soares desenvolveram trabalhos, que defendem a leitura como atividade humana que implica algo mais que a decodificação e a compreensão de um sentido que está dado no próprio texto. Nessa concepção, a leitura implica também produção e construção de sentidos, processo no qual o sujeito se constrói como leitor em interação com o texto, com outros textos, a partir de sua própria história de leitor e de suas experiências de vida. Desta forma, o acesso a bens culturais é condição fundamental no processo de constituição do leitor, ao mesmo tempo em que é essencial realizar um tipo de trabalho com a leitura que permita reflexionar acerca dessas relações, dos sentidos apreendidos a partir do texto e dos sentidos produzidos e reconstruídos pelo leitor.

Optei por apenas dois textos, entre vários, que os sujeitos da pesquisa-ação produziram, pois mostram a relação entre saber informal e formal do universo cultural, acionado pela pesquisa-ação. As produções dos dois alunos comprovam que não há dificuldade para ler e escrever na escola, basta ação pedagógica para ativar o potencial de criatividade.

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