Acentada na biotipologia, a ortogenese dirigiria os passos dos médicos em sua tarefa corretora normalizando o presente e melhorando o futuro constitucional humano. A educação, a investigação e a planificação seriam os três níveis epistemológicos, e a eugenia o braço armado na guerra científica contra as falhas da evolução humana, interpretada como um curso de progresso e perfeição. Um verdadeiro modelo de seleção artificial da raça humana baseado na endocrinologia.
Frente aos erros o programa eugênico tem um sentido coercitivo diluído. O objetivo não é melhorar a raça mediante cruzamentos seletivos corretores da endogamia, e inabilitar cirurgi- camente aos portadores de enfermidades hereditárias impedindo a propagação sexual; a planificação se baseia em vigiar para prevenir a forma e a função desde o neonatal até o adulto corrigindo as disfunções que possam manifestar- se no processo de gestação e desenvolvimento individual. A dimensão genética do problema não exige a castração, basta impedir a reprodução entre indivíduos portadores para, baseando-se no
76 Do latim dux, líder, referência a Benito Amilcare Andrea Mussolini (1883-1945), Primeiro- Ministro da Itália, entre 1922 e 1943.
princípio de dominância e recessividade estabelecido pela genética mendeliana, evitar a expressão genética da enfermidade permitindo que permaneça latente a mudança de diminuição dos efeitos da repressão biológica. Questão de graus de liberdade (GALERA, 2007, p. 6).
Como visto, a Europa produziu distintas alternativas eugênicas, e esta, italiana, adquiriu fortes particularidades, vinculadas a sua capacidade articuladora de experiências internacionais, dos países que compartilhavam o mesmo mito de origem assinalado pela “latinidade”. Em suma, após a Grande Guerra, na Itália, a biotipologia surgiu como disciplina encarregada de levar a cabo no mundo latino o que seria entendido como uma instrumentalização prática da eugenia galtoniana (VALLEJO, 2004, p. 220).
Uma nova dimensão foi dada a estas ideias pela criação do dispositivo físico-institucional, o Instituto de Biotipologia. Consistia em um verdadeiro observatório de todos os comportamentos humanos situado em um âmbito capaz de exercer coações através do espaço e de protagonismo do inquisidor olhar científico. Já não se tratava do tradicional procedimento higienista de ilhar o anormal para encerrá-lo em locais que deixavam, a salvo o universo da normalidade, os Institutos foram hierárquicos pontos de vigilância dirigidos a todos os indivíduos.
A biotipologia modernizou o panóptico, apro- fundando os alcances de um espaço de vigilância para carceres, hospitais e escolas no que o poder se exercia por transparência e o submetimento se obtinha pela projeção de claridade. Na biotipologia a transparência se obtinha dos diversos estudos sobre o corpo e a alma aos que eram submetidos cada indivíduo dentro de um espaço do saber e a projeçção de claridade aportava o inquestionável diagnóstico científico (VALLEJO, 2004, p. 221).
Com a criação de Pende nascia um mecanismo que tinha seu fundamento na detenção de anormalidades físicas, psíquicas e morais não visíveis, que antecipassem a ação de atos perturbadores de ordem pública.
A ciência de Pende, introduzindo-se no profundo do ser, através de um deslocamento da antropologia física à antropologia endócrina, que era inclusivo a sua vez aos aportes que provia a unidade substancial entre corpo e alma, sustentada pelo pensamento aristotélico-tomista, nasceu para detectar alterações individuais de tipo hormonal e moral capazes de transmitir-se a esfera social (VALLEJO, 2004, p. 223). A biotipologia materializou a ilusão de fazer visível, de transparecer o mais íntimo do indivíduo, o que ocultavam os corpos, chegando em definitivo a encontrar o patológico no profundo da alma.
Pende ofereceu explicitamente sua ciência ao poder, assegurando- lhe resultados de sumo interesse que transcendiam as esferas particularizadas do médico, do higienista, do educador, do antropólogo e do biólogo, embora estas esferas ficassem envolvidas. O fato de que este novo saber se fundara em fornecer conhecimento de homens, no corpo e na mente, para varolá-los, melhorá-los e utilizá-los em prol do máximo rendimento da coletividade, se fazia central para a direção política. Para o penalista e eugenista espanhol, Mariano Ruiz Funes, a biotipologia já era em fins da década de 1920, um qualificado ponto de interseção entre a doutrina positiva e o “evangelho de Mussolini” (FUNES, 1929, p. 290). O próprio Pende enfatizava ao descrever sua criação como um saber de utilidade para os que “estudam os problemas da herança e dos melhoramentos da raça”, quer seja o criminalista filantrópico “que almeja a redenção dos imorais e dos candidatos ao delito”, ou o filósofo que persegue a “eterna questão das relações entre personalidade física e personalidade psíquica”. E fundamentalmente para que “o homem político e o diretor de povos, logre a instauração de uma “política nova”, que deveria chamar-se “política biológica”” (PENDE, 1932, p. 86).
A relação de Pende com o poder havia sido favorecida anos antes quando sua perícia profissional havia servido para curar a filha do rei Vitor Emanuel III da Itália (1869-1947), da anorexia que padecia, com a ascensão de Benito Mussolini suas ideias encontraram inusitadas possibilidades de canalização. De fato, em 1925 sua biotipologia recebeu a explicitação pública do reconhecimento do Estado, quando ao mesmo tempo que o Duce ficava consagrado oficialmente como ditador da Itália, este decidia iniciar a construção, na Universidade de Gênova, de um estabelecimento, médico para dar começo a propagação capitular de uma rede de dispositivos similares em todo o território italiano (VALLEJO, 2004, p. 226). Os colaboradores de Pende, Giuseppe Vidoni e Mario Barbára descreveram a experiência como
uma clínica onde os supostamente sãos podiam cientificamente serem examinados com os mais perfeitos meios de indagação médica moderna a fim de desvendar diversas predisposições mórbidas, hereditárias ou adquiridas e os temperamentos mórbidos e submórbidos, que põe em evidência aquela série infinita de anomalias e anormalidades, de debilidades e erros da constituição do corpo e daquela mente existente ou em estado latente (BARBÁRA, 1933, p. 5-6).
Predisposições que “a modo de inimigos internos insidiosamente se ocultam nos esconderijos de nossos órgãos e em nosso sangue, ameaçando a saúde e a miúdo a existência mesma” (BARBÁRA, 1933, p. 6). A nova instituição foi resumida como sendo uma “clínica de são”. Importante seria o exame, em especial de adolescentes, futuros cidadãos, nos que deveriam detectar as capacidades de acordo com a organização científica e do trabalho estabelecida pelo Estado fascista e dos trabalhadores, de quem os industriais que sustentavam ao regime esperavam uma escrupulosa avaliação que permitisse selecionar-los de acordo com o estado físico e seu disciplinamento. “Muitos e bons, fortes de número, mas também de cabeça, de coração e de músculos”, seria a meta ideal (BARBÁRA, 1933, p. 11).
“Biologia política ou política sobre bases biológicas”, o programa idealizado por Pende, nos Institutos biotipológicos constavam de seis seções. “Seção de medicina e de higiene individualizada”, que era um centro de observações periódicas dos “anormais” e de “cura dos débeis de corpo e de mente”. “Seção de biologia da raça e de eugenia”, ocupada do “estudo da herança, para a higiene pré-matrimonial e pré- natal”. “Seção de pedagogia”, organizada “sobre bases ortogenéticas, constitucionalísticas”, onde médicos e psicólogos formavam os “registros da personalidade” do escolar. “Seção de antropopsicologia criminal”, desenhada para a avaliação “médico-jurídica, justa e moderna, do delinquente e dos imorais ou amorais”. “Seção de orientação e de seleção profissional e de taylorismo”, gestada para a “preparação científica dos trabalhadores”, tendo como principal finalidade lograr “uma seleção e uma valorização racional dos dedicados aos vários oficios e profissões estatais”. “Seção de política biológica”, pensada para a “organização do Estado sobre bases biopsicológicas, naturais e seguras, originarias da verdadeira competência e das diferentes necessidades das várias categorias de indivíduos” (EUGENÉTICA, 1923, p. 1037).
Em 7 de dezembro de 1926 o ministro da Instrução Pública, Pietro Fedele, inaugurou o primeiro Instituto de Biotipologia em Gênova, colocando nesta iniciativa a “correspondência plena com a direção adotada pelo governo fascista” em matéria racial. Apresentado ante a sociedade como um “templo dedicado a arte da ciência médica e ao sentimento de humanidade” (BARBÁRA, 1933, p. 13).
Em seu interior, inequívocos sinais afiançaram os objetivos perseguidos. Com um esquema tipicamente hospitalar permitia distribuir as salas dos sucessivos exames a ambos lados de um amplo corredor, uma sala central condensava expressamente a direção e finalidades do Instituto que ficavam resumidas na figura vigilante do grande retrato do Duce junto a seguinte frase gravada “Conhece-te a ti mesmo e aos outros. Só assim poderás compreender-te e compreender. Melhorar-te e melhorar. Dominar-te e dominar”. Outra sala do Instituto abrigava imagens que buscavam dar conta do direto paralelismo que a teoria de Pende assinalava a perduração da concepção clássica da medicina em suas inovações científicas. Junto a reprodução do quadro de Alberto Durero (1471-1528) que representava os quatro temperamentos concordantes com os quatro corpos simples (água, ar, fogo, terra) e das quatro propriedades fundamentais (úmido, seco, quente, frio), se situavam as quatro variedades biotipológicas (dinâmico-humoral) individualizadas por Pende. A biotipologia era então a síntese de ambas representações, a dos quatro temperamentos da antiguidade e a dos quatro biotipos da escola genovesa (VALLEJO, 2004, p. 229).
A insistência da questão numérica remetia, por sua vez, a lei pitagórica do número e da harmonia, canon matemático invocado para explicar as proporções recíprocas que dão beleza ideal ao corpo e suas correlações harmônicas que resultam o estado ótimo de saúde. A verdadeira obsessão assinalada pelo número quatro se desdobrou a uma ampliação da matriz científica que somou aos quatro biotipos a teoria das quatro harmonias biológicas que deveriam perseguir-se para alcançar a eugênica perfeição humana: a beleza que era a harmonia das
formas; a saúde que era a harmonia das funções; a bondade que era a harmonia dos sentimentos; e a sabedoria que era a harmonia do intelecto. A síntese gráfica desta enunciação estava dada por um quadrado cujas quatro caras tendiam a confluir harmonicamente, feito que ao produzir-se gerava a forma de uma pirâmide com seu vértice que sintetizava o ponto culminante da perfeição humana, síntese vital de todos os processos biológicos (ver figura 15, pirâmide de Pende) (VALLEJO, 2004, p. 230).
Pende visitou a Argentina convidado pelo Instituto Argentino de Cultura Itálica e pela cátedra de clínica médica da Universidade de Buenos Aires que estava a cargo do doutor Manuel Castex, prestigioso médico que uns meses mais tarde seria reitor dessa Universidade. Pende ditou em Buenos Aires um curso intensivo de aperfeiçoamento em endocrinologia, e imediatamente depois, os argentinos Octavio López e Arturo Rossi partiram com ele à Itália para cumprir uma missão oficial encomendada pelo governo do general Uriburu77, consistente com a análise e estudo comparativo dos avanços internacionais em matéria de eugenia e medicina social, pondo especial ênfase em aprofundar o conhecimento do Instituto que Pende havia criado em Gênova (VALLEJO, 2004, p. 234). Em seu regresso, Rossi ajudou a criar a Associação Argentina de Biotipologia, Eugenia e Medicina Social, seu primeiro presidente foi Mariano Castex.
Em Pende, a biotipologia que lançara em 1922, apareceria a partir da década seguinte imersa nas mais amplas ideias italiana de “bonificação humana” (VALLEJO, 2004, p. 236). A raiz deste conceito está nos usos publicitários que o fascismo deu a “Bonifica”, isto é bonificação entendida como saneamento em um sentido amplo (STEPAN, 2005, p. 154). Sua doutrina foi relançada na publicação de 1933, na obra “Bonifica humana racional y biologia politica”, que dedicou à Benito Mussolini, por dar com seus “princípios sãos da política biológica um hábito físico, moral e intelectual novo para uma nova grande Pátria”. Para Pende, Mussolini era “mas que qualquer outro homem antigo e moderno, quem há compreendido que a organização estatal não é só um grande organismo de células-indivíduos, o qual deve viver segundo as leis naturais da biologia”. E a Itália do Duce era a primeira nação em acolher “com simpatia o primeiro ensaio desta ciência eminentemente prática e de pura marca italiana, que olha por uma parte a bonificação humana racional e por outra a construção de um
77 General José Félix Benito Uriburu y Uriburu (1868-1932).
Estado perfeitamente harmônico e robusto, moral e materialmente” (PENDE, 1933, p. 5).
Os homens são vistos como células de um grande organismo social, Pende destacava a necessária supremacia do todo sobre as partes, que em biologia encontrava seu fundamento na lei do “altruísmo celular”. Lei que demonstraria como o instinto egoísta de conservação de cada ser vivente, devia se subordinar àquele da associação altruísta, baseado na renuncia da liberdade dos indivíduos e da seção dos produtos do próprio trabalho em benefício da utilidade coletiva. Era aí onde Pende encontrava o profundo arraigo biológico do grande princípio do regime fascista: “aquele em que a liberdade individual fica condicionada pela liberdade e interesse coletivo” (PENDE, 1933, p. 12).
Precisamente esta divisão corporativa ao complementar-se com o rol harmonizador de um Estado forte “unitário e unificador”, terminava de conformar o que Pende via como a direta contraparte social da biologia totalizadora do indivíduo. Durante o transcurso da década de 1930, as atividades de Pende foram enraizando-se cada vez mas com o fascismo e com a centralidade histórica e cultural que o regime italiano conferia a Roma em suas crescentes vocações imperiais.
Na Exposição Universal de Roma, de 1937, começou-se a preparar a “Mostra Decenal da Revolução Fascista”, que seria realizada em 1942, chamada de E42. Em um colossal complexo, ficou a “Mostra di Ortogenesis Fascista de la Estiurpe”. A proposta de Pende para a Mostra, que tanto entusiasmou ao Duce, contemplava a divisão da Muestra em cinco partes: “Seção doutrinária”, que ilustrava por meio de quadros a ortogenesis das novas gerações; “Seção instrumental”, onde se expunham as formas de indagação biométrica, psicotécnica, psicológica, química, radiológica, acompanhadas de um modelo de exame biotipológico; “Seção documental dos resultados ortogenéticos”, com uma mostra fotográfica dos êxitos nas curas; “Seção de meio e cura ortogenética”, que conteria a alimentação individualizada para as crianças, os instrumentos de educação física infantil, e demonstrações de terapia hormonal; um “filme” dublado em diversas línguas para dar contas das etapas evolutivas do indivíduo filme realizado pelo instituto “Luce” (VALLEJO, 2004, p. 241).
Sobre a base do lançamento do segundo Instituto de Pende, na Argentina, Arturo Rossi, impulsionou seu programa, em 1939, em uma ambiciosa reestruturação das entidades eugênicas nesse país, que colocou a antes mencionada Associação Argentina de Biotipologia, Eugenia e Medicina Social e a Escola de Biotipologia, que estava sem orbita, dentro de um organismo unificado: o Instituto Nacional de
Biotipologia e Medicina do Trabalho (STEPAN, 2005, p. 153). Foi levantada uma “clínica para sãos”, um laboratório escrutador daquelas “debilidades e erros da constituição do corpo e a conformação da alma” que a normalidade esconde e que “existem em estado latente na totalidade dos sujeitos considerados aparentemente sãos” (VALLEJO, 2004, p. 242). A Escola de Biotipologia foi convertida, 1943, no Instituto Nacional de Biotipologia e Matérias Afins, com orientação para formar biotipólogos, e publicar obras de seus professores que definissem protótipos raciais atualizados e geralmente acrescentando as restrições estabelecidas para contrair matrimônios e ter descendência. A partir de então, os biotipólogos poderiam trabalhar sem controle dos médicos quando se dedicassem unicamente a examinar os sãos. Durante o primeiro e segundo governo de Peron (1946-1955) a biotipologia teve um amplo campo de ação. Cabe perguntar, como os médicos concebiam essas interações no corpo humano?