Demonstrar o início do que está para ser, é o propósito deste tema, daí a necessidade de “preliminar”, temas, sensações, necessidades, ansiedades, seduções, que apesar de se reportarem ao início, são para mim, agora aqui expressas, revisões de “apontamentos”. “Apontamentos” não só pelo referido, mas porque sugerem algo que foi anotado, escrito, sentido e ao mesmo tempo porque não encerram um fim em si mesmo, são Princípios de e para algo.
Estágio… No âmbito da formação de professores construída na profissão, o EP assume-se como o ano por qual todos esperamos, o ano onde podemos concretizar uma ideia ou ideias, onde a nossa real “prova” decorrerá face aos alunos. Será que vamos fazer a diferença? Ou seremos apenas mais um professor? O que eu esperava, o que eu expectava, era levá-los comigo, todos, não podia compactuar com o marasmo, com a inércia, nem com a apatia pedagógica face a problemas que pudessem surgir, eu queria que eles, como turma, tivessem um pouco da minha identidade, dar-lhes um pouco de mim e também obter um pouco deles. Queria que em conjunto construíssemos a nossa Turma. Partilhar. Apostar neles, nas pessoas que moravam dentro deles. Gostava de fazer minha, a frase de Thomas Eliot, “Só aqueles que se arriscam a ir demasiado longe conseguem descobrir até onde uma pessoa pode ir”, eu sabia que tinha de arriscar, de me (re)descobrir para puder descobri-los a eles. Assim, de bloco de notas na mão, mantendo a minha informalidade comum, ia realizando apontamentos prévios, na ânsia e na espera do ano iniciar. Na altura, sentia-me como um animal selvagem dentro de um colete de forças, o que eu pretendia era teorizar, pela prática (oferecida pelo estágio), conceitos, ideias, até mesmo questionar “dogmas”, metodologias e modelos de ensino, quiçá a própria conceção de Educação Física. Preocupava-me o estado da Educação, assustava-me a forma como cada vez mais se constrange a criatividade, e o modo como a Educação Física surge, porquanto espectava outro papel para ela. Apontei, escrevi, eis alguns desses escritos:
“.A pluralidade da inteligência(s), “O psicólogo de Harvard Howard Gardner reinventou a forma como avaliamos o QI5 argumentando que existem vários outros tipos de inteligência, além daqueles que nos ajudam a ser bem sucedidos na escola…” (Goleman, 2009), não será o primado último da escola, potenciar as capacidades dos alunos? Roger Shank (2010) “Muito do que se passa nas escolas não tem nada a ver com o currículo, mas com os problemas que resultam de se estar sentado numa sala o dia todo.”, qual a importância acrescida da Educação Física na escola, para um desenvolvimento do aluno como um Todo? Existem um conjunto de «inteligências» que devem ser tidas em conta quando falamos de educação na atualidade. Inteligência Emocional, e... Social.
.O criar, o construir, o espírito criativo, têm de ser muito mais potenciados e privilegiados na escola – A Educação Física pode ter aqui um papel empreendedor.”
Todo o tempo se foi fazendo, mas o importante era aquele que estava para vir. No início, aquele sentimento tão estranho, mas que com o decorrer do tempo se tornou tão próximo, de sermos ainda alunos e de ser incutida em nós, a enorme responsabilidade de sermos de igual forma, professores. Toda a minha ação, todas as tarefas que me eram confinadas, deveriam ser ponderadas, éticas, com a sabedoria de que seria com os alunos e que assim, teriam de ser sempre balizadas por princípios e valores. Começava aquele friozinho a crescer. Sabia e sentia que Ser Professor não seria tarefa fácil.
Ansiava por momentos de partilha, de convívio, de reflexão, de críticas construtivas, queria todo o conhecimento para mim, mas também queria abrir- me a novos lugares e pessoas, queria mais “saberes”, queria poder possibilitar mais “aprendizagem”. Sabia que ia encontrar uma multiplicidade de perspetivas e personalidades, fossem de alunos, professores da área disciplinar, ou auxiliares de ação educativa. O que eu pretendia era dar-lhes e mostrar-lhes um pouco de mim, não queria passar despercebido, não podia contentar-me com o “ ser mais um”. Não obstante, neste turbilhão de sentimentos e no
fervilhar de ansiedades, sabia que no caminho ia ter o “olhar e o dedo” de duas pessoas fundamentais em todo o meu processo, o Professor Cooperante da escola onde lecionaria e o Orientador de Estágio da FADEUP, que me ajudariam a percorrer o longo caminho que estava para vir e isso reconfortava- me. Sabia que muito iria aprender.
Paralelamente, também a melancolia resignada e as apreensões surgiram. Tinha receio de não conseguir corresponder às expectativas depositadas em mim, tinha receio de não conseguir alterar a forma de como os meus alunos encaravam a vida e o desporto, tinha receio de não marcar a diferença, tinha receio de não os “levar” comigo, tinha receio que tudo se tornasse numa fria submissão de tarefas somadas, obrigatórias à espera do Fim, no meio de almas desinteressadas. Mas, o que vos posso dizer é que nunca deixem de acreditar e “Estarem Atentos”. Estejam atentos, pois os alunos vão fornecer-vos as oportunidades. Agarrem-nas. Quanto mais vocês as agarrarem, mais vão conseguir aprender. Estejam Atentos!
Eu aprendi com eles, aprendi que com base numa relação de competência, de responsabilidade é possível ser afetivo e entusiasmá-los pela aula e revigorar-lhes o espírito para a seguinte. A minha maior motivação era essa, partilhar com eles tudo aquilo que tinha, ver os seus sorrisos quando vinham para a aula, tornar-me no professor deles e desenvolver o potencial de cada um deles.
“Ansiava por este momento. Enquanto não soltava as primeiras palavras, sentia o enorme peso dos olhares e dos murmurinhos dos alunos. Parecia-me um momento interminável. Mas aquele era o meu papel, algo que muito aguardei, porque não disfrutá-lo? Com o sair das palavras, saía o constrangimento, o pouco à vontade, a gaguez inicial na voz, o nervosinho ia passando... com o passar do tempo fui- me sentindo, num professor estagiário.
(...)
Agora venham os desafios, as soluções, as alegrias e amarguras, agora já não anseio pela primeira aula, anseio por Ensinar!”