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Diferenciar em educação pressupõe a compreensão por parte do docente de que todas as crianças são únicas, diferentes e especiais e que, em momento algum, deverão estandardizar-se métodos, estratégias e aprendizagens a todas as crianças pertencentes a um mesmo grupo. Assim sendo, o docente tem de humildemente assumir que o seu trabalho terá de ser redobrado, caso queira que a sua intencionalidade educativa chegue a toda e qualquer uma criança, ou seja, terá de diferenciar e adaptar-se às individualidades de cada uma delas.

É natural que num grupo existam crianças com diferentes níveis de capacidades e é responsabilidade do docente garantir-lhes uma educação de qualidade, com aprendizagens bem-sucedidas. Toda esta necessidade de diferenciar o ensino advém da carga contextual que cada criança traz quando ingressa na escola, ou seja, a sua “bagagem”, a sua relação com a família, a sua cultura de origem, os seus hobbies, os seus gostos, as pessoas com quem socializa diariamente, a sua personalidade, os seus ritmos de aprendizagem e até a sua predisposição genética. Niza (2015), p. 459, afirma de uma forma extremamente convicta que a diferenciação pedagógica na gestão do currículo é muito mais do que uma mera estratégia, apresentando a diferenciação pedagógica como uma estrutural reformulação da cultura escolar.

O docente tem de apresentar uma grande flexibilidade para poder recorrer à diferenciação pedagógica, e, tal como afirma Tomlinson (2008), é essencial nomear tudo aquilo que o ensino diferenciado não é para que não se caia no erro de confundir diferenciação com diversificação. O ensino diferenciado não é caótico nem é apenas outra forma de conseguir grupos homogéneos, não significando, portanto, ajustar um mesmo tamanho de roupa. A diferenciação pedagógica assenta num ensino diferenciado e proativo, na medida em que se parte do princípio que diferentes crianças têm diferentes necessidades e por este motivo há que pensar em diversas maneiras de alcançar as aprendizagens de alunos individuais. Embora a individualidade de cada aluno seja o objeto da pedagogia diferenciada, é de salientar que o que se pretende atualmente não é apenas uma diferenciação pedagógica com vista à potencialização do individualismo do aluno só por si, é muito mais que isso, tal como indica Santos (2008). Transita-se, então para uma diferenciação que inclui um grande trabalho por parte do docente, bem como

por parte do aluno, como seres individuais, mas que engloba todo um trabalho em equipa numa abrangente dinâmica cooperativa na comunidade educativa.

O ensino diferenciado é também um ensino qualitativo, por oposição a um ensino quantitativo, por isto diferenciar não significa atribuir mais tarefas a umas crianças em detrimento de outras, significa sim adequar níveis de dificuldade. Tomlinson (2008), insiste que o ensino diferenciado tem origem no processo de avaliação e este é, claramente um dos aspetos mais importantes nesta abordagem. Um professor que entenda a necessidade de ajustar o ensino aos seus alunos espera por cada oportunidade de conhecê-los melhor (p. 17), o docente irá verificar na sua prática pedagógica aspetos que o permitirão avaliar o nível de preparação e aprendizagem dos alunos, bem como irá aferir os seus interesses a forma como aprendem, ou seja, irá diferenciar após uma avaliação reflexiva.

O ensino diferenciado providencia múltiplas abordagens aos conteúdos, aos processos de aprendizagens e ao produto final. A mesma autora defende que estes três aspetos quando diferenciados, oferecem ao docente a compreensão real das aprendizagens das crianças.

Figura 1. Articulação entre os dispositivos de diferenciação (adaptado por Sousa (2008), de Przesmycki (1991), p. 5).

A pedagogia diferenciada, mais do que tudo, centra-se na criança que está a aprender, organizando-se muitas vezes numa aglutinação de ensino para grupo/ turma, ensino para pequeno grupo e ensino individualizado, sendo esta uma pedagogia orgânica, já que numa turma diferenciada, o ensino é evolucionário (Tomlinson, 2008, p. 18), no

sentido em que o docente deverá estar em contínua aprendizagem sobre o modo como as crianças conseguem a aquisição de conhecimentos, e talvez utopicamente, esta deveria ser a génese de toda a educação.

Uma turma diferenciada é marcada pelo ritmo repetitivo de preparação, revisão e partilha do grupo-turma, seguindo-se a oportunidade de exploração, compreensão, extensão e produção individual ou em pequeno grupo.

Figura 2. O Fluxo de ensino numa turma diferenciada, (Tomlinson, 2008, p. 19).

Na argumentação da diferenciação pedagógica entram vários aspetos a ter em conta quando o assunto são turmas ou grupos com diferentes níveis de capacidade. É importante o docente entender qual a melhor forma de aprendizagem para cada uma das crianças, individualmente, devendo centrar-se na observação do grupo através de vários ângulos, identificando as necessidades dos alunos mais capacitados e analisando as necessidades dos alunos com maiores dificuldades.

A legitimação da diferenciação pedagógica pode ser identificada, também, através da análise à Declaração de Salamanca e Enquadramento da Ação na Área das Necessidades Educativas Especiais (ONU e MEC de Espanha, 1994), constituindo um documento essencial e de consciencialização a nível global, das necessidades específicas de alunos com diferenças, mas sobretudo ensina-nos a olhar para a criança como um ser

único e individual, falando ainda na adequação do ensino com vista a aprendizagens mais eficazes.

Assim sendo, esta declaração sinaliza a relevância da diferenciação para a inclusão, referindo que cada criança tem características, interesses, capacidades e necessidades de aprendizagem que lhe são próprias (p. viii), e deve caber ao docente exatamente a tarefa de proporcionar à criança o melhor ambiente possível para que esta possa aprender.

Em suma, a diferenciação pedagógica encerra todas as ações que ocorrem em contexto educativo e que potencializam as aprendizagens por parte das crianças de uma forma mais adequada às suas necessidades, valorizando as suas qualidades e preenchendo os espaços vazios nas suas dificuldades. Note-se que não se trata de diversificação na educação, mas sim de reajustamento, de diferenciação e de equivalência.