7. SITE DE LA SESSION
7.10 RESTAURATION
Como já mencionado, as indagações que impulsionaram a realização de nosso trabalho de dissertação, surgiram a partir do envolvimento com o processo de pesquisa sobre o Mercado de Trabalho dos Assistentes Sociais de Santa Catarina, mais especificamente a partir dos estudos sobre essa relação do mercado de trabalho com a formação profissional, sistematizados em nosso Trabalho de Conclusão de Curso.
Apresentaremos na sequência os dados obtidos neste trabalho, o que nominamos aqui de nosso ponto de partida, pois foram eles – esses dados e as reflexões – que instigaram a continuidade da investigação sobre as informações trazidas no contexto da interlocução direta com os
Souza Machado, 2011, ”Cultura política em Santa Catarina: exercício profissional dos
assistentes sociais e tensionamento com as políticas sociais”; de Daniele Giovanella
Silveira, 2011, ”Reestruturação produtiva e o Serviço Social: considerações sobre a
influência das condições do trabalho na saúde dos assistentes sociais catarinenses” e, o
trabalho de Cleuzi Maria da Luz, 2011, “O projeto ético-político do Serviço Social sob a
ótica dos participantes da pesquisa mercado de trabalho, formação e exercício profissional de Santa Catarina.
sujeitos de pesquisa, especialmente no contexto da relação teoria e prática.
A primeira informação diz respeito à formação dos profissionais entrevistados, identificamos uma grande incidência de profissionais na Grande Florianópolis formados em uma conjuntura sócio-histórica recente, graduados nos últimos dez anos, com mais de 50% de incidência. Os que se formaram há mais de vinte anos estiveram em torno de 34%. A mesma indagação foi realizada aos profissionais que participaram do processo de pesquisa através da técnica de grupos focais. A incidência de profissionais formados nos últimos dez anos foi um dado bastante relevante. O valor com maior expressão foi o de 40% de profissionais que se formaram entre zero a quatro anos – com exceção do grupo focal realizado em Tubarão, onde a maioria se graduou entre 21 e 30 anos –, neste contexto, identificamos que a maioria dos profissionais se formou nos dez últimos anos, com 61%, que equivale a 24 (vinte e quatro) profissionais.
Identificar os períodos históricos de formação profissional é relevante por compreender que a formação em Serviço Social está marcada por diversos momentos históricos, teóricos e políticos. Entretanto, na década de 1980 identifica-se a hegemonia do movimento de intenção de ruptura que foi ganhando visibilidade no fim dos anos 1970 – conforme analisou Netto (1994) – caracterizado pela aproximação com as lutas da classe trabalhadora e com uma perspectiva crítica. Somado a essa questão referenciamos o currículo mínimo de 1982, o Código de Ética de 1993 e as Diretrizes Curriculares da ABEPSS de 1996. Após os 10 anos de criação das diretrizes curriculares, a ABEPSS realizou uma pesquisa no ano de 2006 e identificou que a maioria dos cursos em Serviço Social possuíam seus currículos orientados pela referenciada diretriz.
A sintonia entre o trabalho profissional e a qualificação profissional é referenciada por Iamamoto (2006) que defende um perfil profissional que possa concretizar no seu cotidiano de trabalho a defesa do projeto ético-político, com domínio analítico e informativo e que seja propositivo, para isso é preciso:
[...] um profissional de novo tipo, comprometido com sua atualização permanente, capaz de sintonizar-se com o ritmo das mudanças que presidem o cenário social contemporâneo [...]. Profissional que também seja um pesquisador, que invista em sua formação intelectual e cultural e no
acompanhamento histórico-conjuntural dos processos sociais para deles extrair potenciais propostas de trabalho – ali presentes como possibilidades – transformando-as em alternativas profissionais (IAMAMOTO, 2006, p. 145).
Nosso entendimento a respeito da atuação profissional do assistente social em estreita relação com sua formação-qualificação pode ser ilustrado em analogia com o artesão de Mills (2009, p.77):
O artesão imagina o produto acabado, muitas vezes enquanto o cria e, mesmo que não fabrique, vê e compreende o sentido de seu próprio esforço em termos do processo total de sua produção. Assim, os detalhes do trabalho diário do artesão são significativos porque não estão separados, em sua mente, do produto do trabalho. A satisfação que tem nos resultados impregna os meios para alcançá-los.
Identificamos também o papel importante da UFSC como unidade formadora dos assistentes sociais de Santa Catarina, aparecendo com relevância na Grande Florianópolis e, mesmo que de forma mais tímida, também formou profissionais que atuam no interior do estado. Sabemos que as dificuldades para a formação profissional dos estudantes em Serviço Social não se situa, apenas, nas unidades de formação privadas, pois, embora tenhamos observado em nosso trabalho um certo privilégio quantitativo da UFSC na formação acadêmica dos assistentes sociais, também são reconhecidos alguns elementos que traduzem dificuldades dessa instituição10.
Em relação ao papel da formação para o exercício profissional, percebemos que os assistentes sociais valorizam, na sua grande maioria, a graduação para a sua atuação profissional, seguido da consideração
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A exemplo temos a criação do curso noturno no ano de 1999 sem a ampliação do quadro de docentes, o que também ocorreu na situação de criação do mestrado em Serviço Social no ano de 2001. Outra questão são as exigências em relação à produção acadêmica que requer dos docentes uma dedicação específica, muitas vezes para atender as determinações e os critérios quantitativos em detrimento dos qualitativos. Ainda em um contexto maior, citamos os elementos da reestruturação da educação superior, que hoje revela uma cobrança institucional para que o curso de Serviço Social da UFSC se insira no Programa REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) para alcançar a ampliação do quadro docente que almeja.
que essa graduação influencia pouco ou muito pouco e, na mesma margem, aparece um anseio operativo em relação a contribuição da experiência acadêmica.
Dentre os entrevistados, seis abordam a relação teoria e prática e vinte afirmam que a graduação contribuiu no processo operativo para atuação profissional, argumentando, algumas vezes, que a formação não dá conta de apreender todas as áreas do Serviço Social. Em contraponto a esse fato, evidenciamos falas que recorrem a formação como importante na construção do conhecimento teórico e político da realidade, dando subsídios ao profissional para refletir sobre a especificidade do seu cotidiano de trabalho.
Ainda podemos perceber, mesmo que a maioria dos profissionais tenha considerado o papel fundamental da formação para o seu exercício profissional, uma forte expectativa em apreender, na graduação, especificidades de determinada política social ou questões acerca de algum segmento populacional com quem trabalha.
A formação generalista da profissão pouco foi problematizada e ainda identificamos muitas falas que trataram a formação acadêmica como o instante da teoria e o trabalho profissional como instante da prática. Os anseios motivados pela necessidade “mais prática” da formação nos pareceu aliado a certa dicotomia no processo teórico- prático. O que podemos considerar como fruto de uma formação acadêmica que não deu conta de articular essas dimensões e trabalhá-las como parte constitutiva ou como unidade no próprio exercício profissional. Podemos dizer que essa identificação se constituiu como um dos primeiros pontos para nossas motivações no processo de investigação da relação teoria e prática junto aos assistentes sociais.
Somado a isso, no processo de formação continuada observamos uma forte incidência de profissionais que realizaram pós- graduações, com grande procura para as especializações, seguida, em menor número, do mestrado, doutorado e pós-doutorado.
Nesse aspecto, percebemos uma grande variabilidade de instituições onde os assistentes sociais realizaram suas especializações, algo que não se afirma no mestrado, por exemplo, onde não há uma gama tão grande de instituições que qualificaram os assistentes sociais mestres.
Outra relevante consideração é a forte presença da área de Administração e Gestão nos cursos de especialização realizados pelos assistentes sociais, já no campo do mestrado/doutorado/pós-doutorado essa busca se deu muito mais pelo próprio Serviço Social. Podemos evidenciar que as falas dos assistentes sociais se confirmam nas pós-
graduações realizadas por eles, pois ao identificarmos as áreas de especialização observamos a forte presença da área de administração e gestão. Assim, a demanda por terem uma graduação que contemple especificidades do trabalho profissional, se reflete na busca das especializações que estão mais focadas em políticas específicas.
Ainda nos caberia refletir a respeito da grande oferta desse tipo de formação pelas instituições privadas, que caracterizam uma espécie de produto que se vende e compra no mercado, ao mesmo tempo em que atende a uma demanda por formação, muitas vezes associada a uma formação rápida, menos rigorosa, que computa pontuação nos planos de cargos e salários e, também, nos concursos públicos como instrumentos imprescindíveis na investidura da carreira no setor público – atualmente um dos maiores empregadores dos assistentes sociais.
Ainda no que concerne à formação continuada, percebemos que a maioria dos profissionais que realizaram o mestrado estava no exercício da docência, o que também se repetiu em relação ao doutorado (com apenas uma exceção) e também ao pós-doutorado. O que pode sinalizar que tal formação proporciona esse exercício diferenciado na profissão. 11
O último aspecto da formação em Santa Catarina que esteve presente no referenciado estudo diz respeito ao uso de referencial teórico para subsidiar a atuação profissional. Ao prestarem suas informações os profissionais afirmam que se utilizam de algum referencial, no entanto, não aparece clareza na sua utilização. Ao perguntarmos quais eram suas referências, vinte por cento dos profissionais nos responderam fazer uso de legislação, participação em simpósios, seminários e revistas como seus referenciais teóricos, seguido da citação de autores com suas referências teóricas e, por último, obtivemos repostas de profissionais que citaram alguma teoria, o que significou vinte e uma falas – ou doze por cento. Explanações essas que retrataram a adoção predominante da teoria marxista, seguida da fenomenologia, positivismo, teoria sistêmica e da antroposofia.
A partir desses elementos inferimos que o referencial teórico apontado pelos assistentes sociais, na sua maioria, acompanha a perspectiva hegemônica da profissão, no entanto, podemos observar a presença de referenciais, como é o caso da fenomenologia e do
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Obviamente o debate acerca da formação continuada mereceria melhor tratamento, realizando suas vinculações com as necessidades socais e, sem dúvida, com as questões mercadológicas. Isso está diretamente associado à relação teoria e prática. Para melhor reflexão sobre o debate: Cartaxo, Manfroi e Santos (2012).
positivismo. Ainda observamos o diálogo com a teoria sistêmica e com a antroposofia, o que pode retratar uma necessidade dos assistentes sociais de dialogarem com outras teorias que embasem o exercício profissional, mesmo que sejam antagônicas ao entendimento marxista sobre a realidade social.
Nossa dúvida e preocupação em relação a essa questão verte sobre a dificuldade dos profissionais responderem a indagação. Pois ao falarmos de exercício profissional, falamos também de referências teóricas, de relação teoria e prática, pois sem dúvida são essas referências que alimentam e/ou se alimentam da prática, da própria realidade.
Nos preocupa a clareza que o profissional possui em relação as referências teóricas que utiliza para fomentar e pautar a sua prática profissional. Ao nos depararmos com as repostas obtidas nesta questão, podemos dizer que algumas dúvidas surgiram sobre a relação teoria e prática e aliado a isso, os referenciais que alimentam a compreensão do profissional.
Constituiu-se, nesta questão, nossa preocupação em compreender as falas dos profissionais baseados nas referências teórico- metodológicas hegemônica na profissão e diante disto, nosso objeto de pesquisa, saber como a relação teoria e prática se realiza na fala dos profissionais, no instante de refletirem sobre a sua realidade. Nossa preocupação em relação a isso está na superação de práticas imediatistas, fragmentadas, empiristas e que dicotomizam essa relação.
2.3 A dúvida inicial: a relação teoria prática para os sujeitos