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The Parts of a Typical XII System

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2 The Parts of a Typical XII System

Em A República, Platão descreve a pólis como tratado de ações e comportamentos sociais. A cidade como rede social e organizacional para o desenvolvimento (político) humano. Nessa medida, é possível pensar a cidade como lugar simbólico da liberdade, autonomia, ordem e justiça, da organização social dos cidadãos em direitos e deveres, ou pelo menos é o que deveria ser uma cidade ou lugar civilizado. Civitas (do latim), ou cidade, designa comunidade política e economicamente organizada:

Aristóteles mostra por um lado que, sendo o homem ‘por natureza um animal político’, ‘a cidade é um fato de natureza’ e por outro que, tendo alcançado seu desenvolvimento máximo, realiza sua ‘independência econômica’ e permite desse modo ‘viver bem’ (DUROZOI, 1996, p.79).

Na descrição de Durozoi a partir de Aristóteles, é possível entender o homem e a cidade como um organismo engendrado, articulado, uno, portanto uma extensão de saber e conhecimento, organização e harmonia. Todavia nota-se que à descrição acima não é reconhecível às cidades contemporâneas. Ao contrário, hoje, encontramos a cidade como sinônimo de aglomeração, privação, indiferença, desordem, degradação e caos, e estas são apenas algumas das inúmeras questões enfrentadas pelos habitantes das metrópoles atuais. Em Blindness, a cidade é focalizada com as mesmas dificuldades de qualquer outra cidade que conhecemos e, por isso mesmo, símbolo da dinâmica urbana verificada no dia a dia de qualquer cidade.

Uma cidade sem nome como no romance de Saramago, reunindo aspectos comuns a todas, daí verificando-se a universalidade do lugar proposto para o enredo, e local da ação dos personagens no filme. Sabemos que hoje as cidades não passam de conglomerados reunindo diversidades desencontradas e em choque, sobre esta questão, Bauman (2009, p.35) adverte: “As cidades contemporâneas são os campos de batalha nos quais os poderes globais e os sentidos e identidades tenazmente locais se encontram, se confrontam e lutam”. Caldeira, quando descreve sobre a cidade de São Paulo, cidade que sediou uma das locações do filme -, com sua rápida e voraz expansão demográfica, diz:

Hoje é uma cidade feita de muros. Barreiras físicas são construídas por todo lado: ao redor das casas, condomínios, parques, praças, escolas, escritórios. A nova estética da segurança decide a forma de cada tipo de construção, impondo uma lógica fundada na vigilância e na distância (citada por BAUMAN, 2009, p.38, grifo nosso).

A cidade em Blindness é representada como lugar ideal destacando-se o acento para o local da liberdade e cidadania (identidade, privacidade, justiça, direitos e deveres) como oposto da reclusão, ou daqueles que cegos pela luz são recolhidos de sua liberdade e privacidade para o confinamento de pessoas no manicômio abandonado. A cinefotografia mostra a cidade como lugar aprazível, enfatizando a beleza paisagística, a limpeza urbana, a presença de praças e árvores, e apesar das características comuns a qualquer cidade atual com os barulhos (buzinas e arrancadas do acelerador dos automóveis) e aglomerações do trânsito (tráfego intenso de pessoas e veículos), se mostra como local distinto à convivência e harmonia, pensando-se sempre dentro de uma visão cosmopolita.

No manicômio, longe da cidade e da civilidade perdida, os cegos já não terão direitos, identidade, privacidade, discernimento, ética, perderão também qualquer crença e alguma moral que ainda lhes restou. No filme da mesma maneira que o romance de Saramago, o manicômio demonstra ser o local do encontro e do confronto do homem consigo mesmo através da fome, dor, brutalidade, injustiça, desrespeito, indignação, e morte.

A chegada no manicômio é marcada pela imagem alegórica novamente tomada à famosa pintura “Parábola dos Cegos” de Bruegel, célebre por representar a vida

simples dos trabalhadores campesinos em suas tarefas diárias e festividades. Nesta composição, o pintor representou os cegos caminhando juntos apoiados uns nos outros com as mãos postas no ombro guiados por bastões. Caminham sem direção certa, tropeçando e, por vezes caindo, “a paisagem indiferente, a débil corrente de homens, órbitas vazias nos rostos erguidos para o céu, tropeçando nas trevas absolutas do destino e da razão” (FAURE, 1990, p. 231). Ironicamente, no romance Saramago tem como guia alguém que vê, uma mulher, a esposa do médico oftalmologista e, que também faz parte deste grupo de cegos. As pinturas deste artista do Renascimento são consideradas de temática “tipicamente humanista” denotando o afastamento da tradição composicional da época, e voltando-se ao popular (ARGAN, 2011).

O espaço do manicômio denota o local fechado e abandonado, cercado por muros altos que impedem a visão da paisagem exterior aos poucos já esquecida por todos. Oferece aos seus novos habitantes pequenas janelas com grades, instalações precárias e inadequadas, e falta-lhes a comida suficiente para todos. Um clarão paira no lugar ilustrando o ambiente que reuni cegos que apenas visualizam uma superfície branca e brilhante. No filme, o ambiente inóspito fica explícito nas acomodações precárias desgastadas pelo uso, e pelo abandono; a iluminação insipiente nas cenas ambientadas a noite; e, o tratamento cenográfico com paredes e vidraças sujas, objetos e lixo espalhados nas salas e corredores enfatizando a construção do enredo.

Os personagens desta trama descobrirão o lado obscuro de si mesmos, e a partir daí uma série de experiências por eles nunca antes imaginada, decorrerá. Em meio ao caos e a cegueira a que estão imersos, conhecerão a barbárie quando primeiro se despojarão de bens pessoais, direitos e identidades: ali se tornarão iguais, pois na cegueira não reconhecem a si mesmos e nem ao outro. Terão que dividir a comida que falta, precisarão cuidar uns dos outros se quiserem sobreviver, nada os uni e nada os aproxima a não ser a fragilidade e precariedade a qual agora estão expostos, perdidos e sem lugar, vagando desorientados entre escombros e dejetos, sujeitos a restos e sujeira, sem destino ou direção.

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