As crises ambientais aumentaram na última década. O número de catástrofes deve continuar crescendo em virtude do modelo econômico de exploração da sociedade capitalista. A apresentação dos problemas climáticos na mídia foi intensificada, isso aumenta o medo da população e a instabilidade da opinião pública. A imagem dos governos é afetada porque faltam obras de infra-estrutura, projetos de drenagem, fiscalizações em assentamentos irregulares, desocupações em áreas de risco, investimento em habitações populares e implantação de programas eficientes de educação ambiental para diminuir a poluição dos córregos, o assoreamento dos rios e, por conseguinte, as enchentes urbanas.
Uma das primeiras hipóteses levantadas nesta pesquisa é a de que opinião pública estava se voltando contra a imagem do prefeito nos locais atingidos pelas enchentes. Essa hipótese foi confirmada através da pesquisa de opinião com questionários fechados. Dos 64 entrevistados, 34% afirmaram que a gestão do atual prefeito, Sebastião Almeida era péssima, 14% disseram que era ruim, 20% acharam regular, 13% boa e 19% ótima. O mais interessante é que a população dissociou a imagem do prefeito da imagem da própria Prefeitura. Quando a pesquisa indagou sobre a qualidade das ações da Prefeitura e da Defesa Civil em atendimento às vítimas das enchentes, a porcentagem de ótimos subiu para 29% e 66%, respectivamente. O que chama a atenção é que todas as ações da Defesa Civil e da Prefeitura foram planejadas no gabinete do próprio prefeito que comandou de perto cada ação. No entanto, isso não foi comunicado à população, causando uma distorção na percepção de atendimento. A maior reclamação da população era de que o prefeito estava ausente, muito embora sua equipe o representasse no local das catástrofes. Isso mostra o quanto a comunicação olho no olho e o diálogo ainda têm papel importante nos momentos de crise.
A segunda hipótese foi negada. Ela consistia na afirmação de que a opinião pública estava mudando por influência das críticas veiculadas nos três jornais impressos da cidade. Todavia, durante a pesquisa de campo constatou-se que apenas 12% têm acesso aos jornais impressos. O motivo é simples: o bairro não tem banca de jornal. A hipótese foi contestada no início da pesquisa. Toda informação que a população da Vila Any recebe é da TV e como Guarulhos não tem afiliada os assuntos locais não entram com frequência na pauta dos telejornais.
Junto com a suspeita de que a mídia influenciava negativamente a opinião pública surgiu a terceira hipótese sobre a possibilidade de as matérias veiculadas em janeiro pautarem de maneira tendenciosa o fenômeno das enchentes na Vila Any. Esta foi parcialmente
confirmada a partir da análise de conteúdo, mas não na mesma intensidade que se esperava. O ranking das pautas negativas foi liderado pelo jornal Folha Metropolitana, com 55% das abordagens negativas, seguida pelo Guarulhos Hoje, com 54%, e pelo Diário de Guarulhos, com 10%. Entretanto, na soma geral de notícias publicadas, o número de abordagens negativas não é tão significante se comprado às abordagens neutras somadas às positivas: são 40% de matérias negativas contra 33% neutras e 27% positivas.
Outra constatação é a de que a população tem consciência da falta de educação ambiental e do descarte incorreto de lixo, mas ainda assim mantém uma postura contrária ao comportamento que se espera de um cidadão. Os moradores reclamam do lixo jogado no rio, no córrego e nas ruas que contribuem para o assoreamento do rio Tietê, principal causador das cheias no local, contudo, admitem que a própria comunidade não se comporta de maneira adequada. Questionados sobre a responsabilidade ambiental dos moradores do bairro, 84% classificaram como péssima. A sociedade necessita de um redirecionamento; não basta saber, é preciso fazer o que é certo.
Apesar de a Prefeitura de Guarulhos ter realizado ações pontuais para ajudar as vítimas das enchentes, a imagem do prefeito Sebastião Almeida ficou visivelmente abalada. A pesquisa mostra que maioria dos entrevistados classificou a gestão municipal como péssima. Entre as principais críticas que voluntariamente os moradores da Vila Any faziam estava, em primeiro lugar, a omissão do prefeito. Isso mostra que a tática do governo para distanciar o gestor público do foco da crise não teve exatamente o resultado esperado. O não comparecimento aos locais inundados era uma estratégia política para não marcar o governo com acontecimentos negativos, mas ficou parecendo mais com uma atitude de descaso e descomprometimento do poder público para com a população.
Recomendações
Uma alternativa para sanar o mal estar gerado pelo distanciamento do poder público da população seria permitir o encontro do prefeito com a comunidade da Vila Any em momentos específicos, principalmente quando os benefícios estavam sendo levados até a população, por exemplo, quando foram entregues as cestas básicas, o auxílio-aluguel no valor de R$300, os colchões, as roupas e as refeições servidas em marmitex. Nessas ocasiões seria estrategicamente positiva a presença do prefeito. No entanto, seus assessores não perceberam que a crise poderia se transformar em uma oportunidade de aproximação com o público. Prova disso, é a boa avaliação que teve a Defesa Civil na pesquisa de opinião com mais da
metade das declarações classificadas em nível ótimo. Os profissionais da Defesa desde o início da enchente deram suporte para as famílias.
A Secretaria de Comunicação também falhou, pois deveria ter montado um gabinete de crise e participado do planejamento estratégico do governo, para dar diretrizes bem definidas à divulgação das ações. Ficou claro após a pesquisa que faltou planejamento estratégico nas ações governamentais. O setor de comunicação não foi chamado para a gestão de crises. Isso foi uma falha. Tudo foi decidido com base na concepção dos secretários municipais, que, em sua maioria, estavam há pouco tempo na gestão e tinham pouca experiência no executivo. Essa diversidade de opiniões é sentida nas pesquisas em profundidade. Quando entrevistados, os secretários seguem linhas de defesa diferentes. Não têm um discurso alinhado. Não estão direcionados por uma estratégia comum. Parece que membros do mesmo grupo apontam para caminhos opostos, como se não jogassem no mesmo time. A definição de culpados se mostrou mais importante para eles do que a própria busca de soluções plausíveis.
Outra alternativa que daria certo seria a abertura do diálogo com a imprensa. Emitir boletins e informativos periódicos para pontuar as ações do governo e falar sobre o planejamento das ações que seriam executadas no dia seguinte. Isso deveria ter acontecido mesmo sem a solicitação da imprensa, por se tratar de uma situação de calamidade pública que afetou centenas de munícipes, envolvendo prejuízos materiais e de saúde, pois muitos estavam sujeitos a doenças advindas da enchente, como é o caso da leptospirose. A postura proativa evitaria que a imprensa preenchesse essas lacunas com críticas da população. Na ânsia dos jornais darem uma versão para os fatos, embora o governo municipal não fosse diretamente responsável pelo aumento do volume de chuvas que se tratava de um fenômeno climático, o município foi responsabilizado como o maior culpado, já que não mostrou o quanto estava trabalhando nos bastidores para garantir a integridade das famílias afetadas pela enchente. As perguntas da imprensa chegavam todos os dias à Assessoria de Comunicação e eram respondidas de forma genérica, com o mínimo possível de detalhes. Essa tentativa de esconder a gravidade do problema é uma falha. Não dá para negar que um bairro está submerso. O que acabou ficando escondido foi o comprometimento das ações governamentais.
As estratégias preventivas de combate às enchentes também foram ineficazes. Durante as entrevistas em profundidade os especialistas afirmaram que não foi o rio que invadiu a casa das pessoas, mas as pessoas invadiram o leito do rio. Existe uma distância mínima que foi desrespeitada e não houve fiscalização suficiente para que a ocupação irregular fosse
impedida. A desocupação das regiões de várzea é obrigatória, mas não foi feita. Esse é um problema que não pode ser tratado de forma paliativa, pois exige medidas urgentes de habitação e desenvolvimento urbano para não ter consequências ainda mais graves quando o nível pluviométrico voltar a aumentar. O crescimento desordenado na área urbana e a ocupação irregular são problemas que devem ser administrados antes do período de chuvas.
A comunicação é a principal ferramenta de ligação entre a organização e seus diversos públicos. Mas ela foi pouco utilizada para informar a população do bairro Vila Any. A Secretaria de Comunicação deveria ter feito materiais explicativos que orientassem as famílias atingidas pelas enchentes. Muitas pessoas ficaram confusas quanto aos documentos necessários para receber o auxílio aluguel, quanto aos locais de distribuição de roupas, quanto à disponibilidade de vagas no abrigo provisório, quanto ao tempo de espera até receber o benefício, quanto às refeições servidas gratuitamente, entre outras coisas. Infelizmente, isso não foi informado como deveria. A única comunicação utilizada foi a verbal, quando, na verdade, poderia ter sido explorada a comunicação impressa, com a criação de boletins explicativos.
Todos esses desencontros nas ações administrativas e de comunicação mostram que as organizações governamentais ainda não estão preparadas para lidar com a crise. No entanto, algumas regras gerais não devem ser esquecidas por todos os gestores municipais que enfrentarem catástrofes urbanas semelhantes a essa: transparência e proatividade são fundamentais. Esconder um problema é permitir que ele se transforme em algo mais grave quando descoberto. Quanto maior o número de informações passadas para a imprensa no período de crise, menor será o espaço dedicado às críticas. Não dá para fingir que não existem problemas, mas dá para mostrar que existe um governo comprometido com a resolução dos problemas.