I) E TAT DES CONNAISSANCES
2) E VALUATION DE LA MOTRICITE
2.1.4 Parcours moteur
Alguns estudos sugerem que a preferência humana por ambientes naturais pode ultrapassar as diferenças individuais. Essas “coincidências” estariam ligadas aos fatores genéticos relacionados à evolução da espécie humana, sendo que outras explicações sugerem o aprendizado social/cultural. Forma-se, portanto, um conflito entre as explicações biológicas (evolutivas) e as culturais para justificar a preferência humana por elementos e ambientes naturais.
Sob a abordagem da epistemologia ecológica, a tensão entre natureza e cultura (presente na epistemologia moderna) busca algumas alternativas
Não reducionistas de operar dentro desta tensão, reordenando as dualidades sujeito- ambiente, sem recair nos determinismos sejam eles culturalistas ou biológicos. Este divisor de águas entre a cultura e a biologia tem sido um elemento constituinte da própria divisão entre ciências humanas e ciências naturais. (Carvalho & Steil, 2009, p. 91).
Na tentativa de resolver o conflito entre as justificativas biológicas e culturais, Bourassa (1988, 1990) e Hartig (1993) trabalharam em prol de uma teoria integrativa. De acordo com Bourassa (1990), ambos os fatores correspondem a diferentes modelos de percepção que coexistem. Para Hartig (1993), os fatores biológicos e culturais são diferentes mecanismos na adaptação coletiva e refletem nossa gradual transição das condições de vida natural para as feitas pelo homem (van den Berg, 1999).
As teorias apoiadas nos aspectos culturais, por sua vez, buscam explicar a relação e preferência dos seres humanos com a natureza, investigando as crenças, os valores, as atitudes e as normas envolvidos nessa relação. Para Buijs, Elands, e Langers (2009), a imagem que se tem da natureza é uma imagem, a priori, de experiências com a natureza e de discursos sobre ela. Os autores reforçam que essa imagem é influenciada pela cultura, pelas crenças e por valores normativos.
Observado por Kahn (1997) com relação ao estudo transcultural de Kellert (1996, citado em Kahn, 1997), apesar de adeptos do budismo, considerado por Altman e Chemers (1984) como prática na qual o ser humano é visto como integrante da natureza e de seus ciclos, os japoneses possuem elevada pontuação no quesito valor de dominação da natureza e da vida selvagem. A tradição japonesa, nas atividades de apreciação da natureza – bonsai, haiku, ikebana, jardins de pedra – reflete a apreciação refinada da natureza que, mesmo venerada, necessita da mão criativa e do olhar humano para atingir a sua perfeição. Não é surpresa que o autor (Kellert, 1996) tenha encontrado falta de interesse no Japão, com relação
à natureza selvagem e processos ecológicos, e limitado apoio para a conservação e proteção da vida selvagem.
Diferentemente dos japoneses, os alemães, pertencentes à fé cristã, considerada por Altman e Chemers (1984) como uma prática na qual o ser humano é visto como dominador da natureza, demonstraram valores morais e ecológicos mais pronunciados, e uma grande
aceitação da subordinação das necessidades práticas, em prol da manutenção da natureza original (“pura”) e da proteção da vida selvagem. No estudo de Kellert (1996), os alemães também parecem romantizar a natureza selvagem, enfatizando suas qualidades nobres, embora tendo pouca experiência direta com ela, sobretudo em locais recreativos.
As diferenças apresentadas parecem ser mais uma questão de grau, no entanto, do que qualquer diferença fundamental da perspectiva básica de cada nação com relação ao mundo vivo (Kellert, 1996, citado por Kahn, 1997). Buscando identificar valores que possam explicar as atitudes e os comportamentos ambientais, foi sugerida a atribuição de valores – egoísta, socioaltruísta e biosférico (Karp, 1996; McCarty & Shrum, 1994; Stern, Dietz, Abel, Guagnano, & Kalof, 1999). Aparentemente, os valores biosféricos deveriam ser mais importantes do que os valores altruístas, para estimular comportamentos proambientais. No entanto, alguns estudos mostraram não ser possível, empiricamente, distinguir esses valores (i.e biosféricos e altruístas) (de Groot & Steg, 2010; Steg, Dreijerink, & Abrahamse, 2005).
Estudos que investigam o construto atitude (Milfont, 2007) destacam a existência de duas linhas relacionadas às atitudes ambientais. A primeira volta-se para os interesses e motivos pessoais para lidar com as questões ambientais e a segunda enfatiza os motivos prossociais, com a ativação da norma e dos valores humanos (Milfont, 2007).
Para Thompson e Barton (1994), a atitude antropocêntrica é caracterizada pelo interesse em manter a qualidade de vida, a saúde e a existência da espécie humana. Para isso, faz-se necessário preservar os recursos naturais e o ecossistema. Desta forma, cria-se uma
relação de troca, em que o homem preserva a natureza para seu benefício; existe, assim, uma base motivacional.
Já na atitude ecocêntrica, a natureza é considerada uma dimensão espiritual e de valor intrínseco, refletida nas experiências humanas relacionadas aos sentimentos sobre o ambiente natural. Acredita-se que, no ecocentrismo, o homem esteja conectado à natureza e a valoriza por si mesma (Coelho, Gouveia, & Milfont, 2006).
Para van den Berg (1999), a preferência por paisagens com natureza selvagem pode representar imagens ecocêntricas, enquanto que a preferência por paisagens naturais
arrumadas pelo ser humano pode representar imagens antropocêntricas. A autora encontrou evidências em seu estudo que sugerem que jovens, mulheres, idosos, agricultores e
fazendeiros preferem paisagens controladas, ambientes manipulados, ao passo que estudantes universitários e jovens adultos preferem paisagens com natureza selvagem, ambientes não manipulados. Schultz (2002) sugere que a crença do sujeito ser/estar incluído na natureza não é uma disposição fixa, mas pode ser influenciada pela situação e por fatores ambientais (Schultz, Shriver, Tabanico, & Khazian, 2004).
As atitudes antropocêntricas e ecocêntricas se diferenciam quanto aos motivos da preocupação e do interesse ambiental (Thompson & Barton, 1994). Uma conceituação geral na distinção entre o “ser parte” da natureza versus o “ser aparte” da natureza, por si só, não agrega determinantes de uma posição clara com relação ao ambiente natural.
“O que parece diferenciar hoje as pessoas são menos as suas crenças em relação ao ambiente e mais os seus comportamentos” (Castro, 2005, p. 183).
Estas considerações são importantes pois apontam diferentes possibilidades de estudo que enfatizem a relação dos seres humanos com a natureza. Como sugerido anteriormente, os estudos consultados têm como base países do hemisfério norte, com clima não tropical e que
possuem seu território quase que totalmente antropizado, indicando, assim, potenciais diferenças com a realidade brasileira no que se refere à relação com os ambientes naturais.