O esforço para contextualizar a questão da educação para o exercício da cidadania a partir do espaço escolar, tema objeto do presente estudo, passa pela inserção da mesma no âmbito do período histórico que vai desde a década de sessenta até o final dos anos noventa do século XX. Momento que compreende o movimento a supressão da experiência democrática iniciada nos anos quarenta e que perpassou a década de cinqüenta, assim como perpassa pelo regime militar e retorna aos governos civis e democráticos que se estabelecem a partir dos anos oitenta.
Com o final da segunda guerra (1939-1945), a comunidade internacional mergulha no conflito ideológico que levou à divisão do mundo em dois blocos político- militares antagônicos, liderados pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética, respectivamente, os quais aglutinavam militarmente em torno de si todos os países do mundo; a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN); e o Pacto de Varsóvia. Período, que durou até a dissolução da União Soviética e que se caracterizou pela ameaça de iminente deflagração da guerra atômica, já que as duas potências e alguns de seus aliados possuíam
arsenais nucleares, bem como empenhavam grande parte de seus recursos na corrida armamentista e na exploração espacial com fins bélicos.
Neste cenário ocorre a queda do muro de Berlim. De igual modo, deve ser mencionada a desfragmentação do bloco de países que formavam a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS. Movimento que ficou conhecimento como glasnost e Perestroika, ou seja, abertura política e reforma na economia do Estado Soviético. O que faz com que estes países se abram para novas relações com a comunidade internacional.
Em 9 de novembro de 1989, o governo da Alemanha Oriental abriu o Muro de Berlim, derrubado por uma multidão, e ao mesmo tempo anunciou sua intenção de realizar eleições livres, democráticas e secretas. Em outubro de 1990, decidiu-se a unificação germânica e, em seguida, a autonomia da Europa Oriental. Em novembro de 1990, a União Soviética subscreveu a Carta de Paris e comprometeu-se a adotar o modelo de Estado-nação parlamentar. Em 25 de dezembro de 1991, a União Soviética dissolveu-se formalmente (FREITAS, 2007).
Neste momento a América Latina vive um quadro marcado pela ascensão e pela transição do militarismo para o sistema de governo civil. O que ocorre na Argentina em 1983, pondo fim ao regime instalado em 1976; no Uruguai em 1985 houve o fim do regime instalado em 1973; o Paraguai, que desde 1954 estava sob o regime militar, volta ao governo civil em 1989. Acontecimentos internacionais que circunstanciam momento em que se encontra inserido o presente estudo e que vão produzir reflexo direto na história brasileira.
No âmbito interno, ocorre a tomada do poder pelos militares nos anos sessenta. Fato que pôs fim à experiência democrática em curso desde os anos quarenta. O que inaugura um período marcado pela tortura e pela violência dos órgãos de repressão.
A queda de João Goulart significou o fim do período democrático e o início da mais longa ditadura de nossa história. Foram 21 anos sob a dominação dos militares, que colocaram no poder cinco generais-presidentes: Castelo Branco, Costa e Silva, Médice, Geisel e Figueiredo [...]. [...] Um período em que teve muito de seus filhos torturados e mortos pela violência dos órgãos de repressão [...] (COTRIM, 1996, p.307).
Nos anos oitenta ocorre a superação do regime ditatorial com a eleição de um civil para representante do Poder Executivo pelo Congresso Nacional. Trata-se da eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney pelo Colégio Eleitoral em 1985, pondo fim ao período de governo militar, estabelecido a partir de 1964. Acontecimento tido como reflexo
do movimento social decorrente da mobilização e da pressão das massas populares por todo o território brasileiro. O que se deu a partir do retorno dos exilados políticos que tinham sido banidos pelo regime de governo militar. Isto reflete a anistia política do final da década de setenta. Outro acontecimento com reflexo histórico e político diretamente relacionado à eleição de um civil para a Presidência da República foi a morte do então escolhido. Pois este, sequer, chegou a assumir o posto de mandatário da nação.
Na seqüência destes acontecimentos ocorre a morte do então escolhido. Fato que vai refletir diretamente na realidade histórica e política deste momento. Pois o eleito nem chegou a assumir o posto de mandatário da nação. Contudo, a escolha de um civil para governar o país inaugura um novo cenário.
Desde então, governos civis são escolhidos pelo voto popular para assumir o comando do país. José Sarney (1985–1990); Fernando Collor (1990–1992); Itamar Franco (1992–1994); e Fernando Henrique Cardoso (1995–1998). Destes, o primeiro e o terceiro assumem o poder após terem sido escolhidos como vice; segundo foi destituído do poder via processo de impedimento político; o quarto foi reeleito para novo mandato em 1998, permanecendo no poder até 2002.
Estes fatos contribuíram para a consolidação de uma forma de democracia eleitoral na história brasileira recente. Situação reconhecida pelos pesquisadores deste momento histórico e que passou a se denominar de segunda fase da transição do regime militar para o regime civil na sociedade brasileira do final do século passado.
A segunda fase da transição findou-se com a eleição de Tancredo Neves e José Sarney, em 15 de janeiro de 1985. Porém, a inauguração de seu governo, que deu início à terceira fase da transição, sofreria ainda o efeito do acaso: a doença repentina de Tancredo, seguida de sua morte, levando à posse do vice, José Sarney, na presidência da República. Como conseqüência, além de a Nova República, como passou a ser chamado o restabelecimento do governo civil, ter resultado de um acordo entre setores moderados da oposição e dissidentes do governo, sem o respaldo do voto popular, com a morte de Tancredo, um outro complicador iria se antepor à democratização (KINZO, 2001).
Os aspectos históricos ora apresentados devem ser compreendidos considerando a relação destes com a ordem econômica deste período. Necessário se faz tecer doravante uma reflexão sobre os aspectos da situação econômica que circunstancia a construção histórico- disciplinar sob análise.