A entrada na era da «informação globalizada», para além de corresponder a uma mudança de paradigma civilizacional, poderá ter implicações de grande impacte na estrutural intelectual do homem e no nível sociocultural das sociedades.
Cientistas e intelectuais convergem num aspecto fulcral: a leitura em suporte digital está a produzir alterações na função cerebral. Porém, se as razões estão estudadas e são conhecidas, a avaliação dos efeitos que produzem não vai, ainda, muito para além de pressuposições ou, em certos aspectos, de eventuais preconceitos decorrentes dos hábitos civilizacionais que prevalecem nas gerações mais maduras.
José Afonso Furtado (cf. 2007, 45ss) aborda a temática das versões electrónicas e da reconceptualização do livro, elencando, e pondo em perspectiva, a divergência de opiniões expressa por especialistas e investigadores. Se para alguns, os livros e a leitura se encontram inexoravelmente ligados a uma herança sociocultural de cinco séculos, pelo que o livro electrónico deve ser entendido como uma evolução progressiva e não como uma revolução abrupta, para outros, as novas potencialidades oferecidas pelo digital prefiguram
92 uma ruptura fundamental entre o texto e o seu suporte tradicional, levando inevitavelmente à elaboração de objectos informacionais muito afastados do modelo linear e fechado baseado primariamente na textualidade escrita própria do livro impresso. Relativamente às questões cognitivas e práticas sociais, é também referido e consubstanciado por José Afonso Furtado (cf. 2007, 90ss) que, enquanto para alguns, uma leitura cada vez mais rápida e não sequencial reduz a compreensão às suas formas mais simples e superficiais, sobredeterminando aproximações e ilusões cognitivas (com efeitos negativos na memória, lastro da identidade singular), para outros, a memória material e inerte do livro não pode competir com as potencialidades da memória informática e a consequente libertação do utilizador das limitações inerentes a uma localização espacial. Ainda no domínio das questões cognitivas e práticas sociais – e mais especificamente no âmbito das mutações na escrita e no texto – a passagem gradual de um estado em que o conhecimento evoluído se adquiria sobretudo através do livro e da escrita (o olhar, a visão alfabética, ou seja, a inteligência sequencial) para um estado em que o conhecimento se adquire antes, e para alguns sobretudo, através da audição (o ouvido, a visão não-alfabética, ou seja, a inteligência simultânea), constitui, provavelmente, o aspecto mais inquietante. A este respeito, leiam-se as considerações de Furtado, que se apoia num estudo de Raffaele Simone (Furtado, 2007: 104s):
Não é fácil descobrir completamente as razões desta mudança. Certamente que o enorme aumento dos estímulos auditivos e a cultura da audição que incitou tornaram menos relevantes as visões alfabéticas e o seu suporte típico, o texto. É um facto que o alfabeto e as suas principais materializações físicas, o texto e o livro, deixaram gradualmente de ser o terreno privilegiado a que se aplica a acção do olhar e começaram a perder terreno. Este retrocesso pode ter implicações a nível do indivíduo, pois o olhar do homem finissecular poderá vir a ser incapaz de ler ou, mais geralmente, de estar à vontade perante um texto escrito. O homem renuncia então à «conquista da visão alfabética no momento em que, com o crescimento desmesurado da informação mediada pelo ouvido e pela visão não-alfabética, teve a sensação de dispor de fontes de conhecimento igualmente ricas». Terá assim renunciado a uma conquista evolutiva que a escrita tinha estimulado para dar um passo atrás. É quase como se se «deixasse de parte a visão alfabética – um medium pleno de tensões e de “fadiga” – para voltar a media mais naturais, mais primitivos, de menor grau de tratamento. O que significa talvez que existe uma hierarquia da “natureza” na
93
utilização das diversas vias de aquisição do conhecimento. O exercício da visão alfabética é não só o mais avançado como exige maior empenho e é mais trabalhoso do que o do ouvido e da visão não-alfabética» [Simone, 2000, p.25-7].
Estas afirmações são compagináveis com as constatações do complexo e extenso trabalho que o reputado neurologista Alexandre Castro-Caldas tem vindo a desenvolver sobre a influência do conhecimento das regras da leitura e da escrita na função cerebral. Embora esclarecendo que o cérebro é um órgão com grande plasticidade e que se adapta às múltiplas solicitações do meio envolvente, seja qual for o grau de complexidade, assume que as regras que ditam este processo adaptativo estão longe de ser compreendidas, e conclui, na «Introdução» ao livro em que reúne e compila informação sobre os trabalhos desenvolvidos desde o dealbar dos anos 1970, galardoado com o Grande Prémio Bial de
Medicina 2002 (Castro-Caldas, 2002: 42):
Podemos, assim, dizer que o conhecimento da leitura e da escrita corresponde ao aproveitamento de múltiplos recursos existentes no cérebro humano. Aquilo que com simplicidade se pode considerar o “saber ler e escrever” é um processo neurobiológico de grande complexidade e que modifica radicalmente a forma de funcionar do cérebro.
Por outro lado, Javier Celaya, membro do Observatorio de la Lectura de la Junta de Andalucia, e reconhecido especialista na aplicação de novas tecnologias e redes sociais, quando perguntado sobre que etapa atravessamos na sociedade do conhecimento, respondeu:
«El aceso de la población a la sociedad del conocimiento y la informacion a través de las nuevas tecnologias debe ir acompañado de habilidades en la análises, la memorización y la argumentación, pêro esto no se esta produciendo en todos los casos. En Estados Unidos se está viendo que nativos digitales que dedican 40 horas semanales, no tienen unas habilidades cognitivas importantes. Ló estan estudiando en universidades como UCLA, Columbia y Stanford y eso indica que estamos desarollando una sociedade ignorante. Sociologicamente estamos en plena
94
implantacion de la sociedad digital. Dentro de 50 años, los historiadores dirán como lo hemos hecho, pêro no lo estamos encaminando bien.»63