Chapitre II. Dynamique moléculaire
II.4.3 Paramètres du potentiel pour l’alliage Au-Si
39 Na época dos estudos de campo existiam no Estado de Mato Grosso do Sul 16 Comunidades Quilombolas
certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Dessas 16, realizei um breve survey em 15. A única a não ser pesquisada, por causa de conflitos internos, foi a comunidade negra Família Bispo.
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Mapa nº 01 - Localização das comunidades negras quilombolas (as numerações correspondem à ordem da tabela acima)
Nessas comunidades, após a autorização das lideranças, entrevistei vários adultos e idosos (homens e mulheres) com objetivo de obter a memória da escravidão, da pós- abolição e de migração. Elaborei também uma árvore genealógica de cada uma dessas comunidades. Posteriormente, agrupei cada uma das árvores40 e pude vislumbrar a grande rede de parentes que interliga atualmente várias dessas comunidades negras. Percebi também, que essa grande rede foi formada pela união de duas redes primárias, uma que tem origem na região de Maracaju, na qual está inserida a comunidade negra rural Dezidério Felippe de Oliveira (“negros da Picadinha”), e a outra na região de Campo Grande, centrada na comunidade negra Tia Eva, ambas criadas por ex-escravos.
40 Infelizmente, como essa árvore genealógica possui mais de 10 metros ficou impraticável anexá-la a essa tese.
1, 13, 16 2 3 4, 12 5 6 7 8 9 10 11 14 15
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Foto nº 07 - Seu Antônio Filho Martins (78 anos) – Fev/2009
(Neto de Dionísio Antônio Martins e Luiza Joana Generosa de Jesus, casais fundadores da comunidade negra rural quilombola Furnas do Dionísio)
Ao iniciar minha pesquisa na comunidade negra Tia Eva, em março de 2008, deparei com um ligeiro problema, pois diferentemente dos estudos anteriores, que realizei enquanto consultor do INCRA onde o meu trabalho respondia a um pleito das comunidades quilombolas frente à essa instituição, enfrentei algumas dificuldades em fazer com que Dona Lúcia da Silva Araújo Almeida, presidente da Associação Beneficente dos Descendentes de Eva Maria de Jesus - Tia Eva, aceitasse minha pesquisa na Tia Eva.
Segundo essa liderança, sua comunidade já tinha sido alvo de estudos por parte de estudantes de graduação – das áreas de História, Ciências Sociais, Serviço Social, Turismo, entre outros, da Universidade Católica Dom Bosco, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e de instituições particulares de ensino superior. O grande problema é que as comunidades sentem que esses estudos não ajudam a resolver seus problemas. Por falta de informação, algumas pessoas da comunidade Tia Eva acreditam que esses estudantes ganham dinheiro com os conhecimentos extraídos. Por isso, inicialmente, minha pesquisa foi recebida com certa desconfiança41. Fato análogo também apontou Correia (2007) na pesquisa que fez entre povos indígenas do Estado do Acre. Segundo esse autor muitos pesquisadores,
“que desenvolvem pesquisa acadêmica na região são alvo de críticas por parte dos índios e dos indigenistas por não contribuírem com seus estudos para as
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questões sociais, servindo suas pesquisas apenas para a obtenção do seu título pessoal de mestre ou doutor. É comum ouvir frases como: “será que vamos ser sempre objeto de tese, sem receber subsídios?”.” (CORREIA, 2007: 18)
Mesmo com o apoio da vice-presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva - Professora Vânia Lucia Baptista Duarte e da diretora Sandra Mara Martins dos Santos - Assistente Social, fiquei aguardando a manifestação da presidente. Após sucessivas reuniões desmarcadas pela presidente, fui a sua casa para melhor explicar meu trabalho e dirimir alguma dúvida. Depois de muitas conversas, sugeri que eu assinasse um termo de compromisso para dissipar qualquer dúvida sobre minha pesquisa. Nesse termo me comprometi a: socializar os dados coletados com a comunidade; entregar exemplares da tese após sua conclusão para os anais da Associação e autorizar a comunidade a usar os dados da tese para projetos em benefício da comunidade. Sugeri também que fosse marcada uma reunião com toda a comunidade para que eu pudesse explicar a pesquisa, reunião ocorrida semanas depois.
Foto nº 08 - Dona Adair Jerônima da Silva (75 anos)42 – março/2009 (Bisneta de tia Eva, comunidade negra quilombola Tia Eva)
Ao comunicar meu intento de “morar” na comunidade Tia Eva, iniciou-se uma rede interna de solidariedade de parentes com a intensa participação, principalmente, da professora Vânia Lucia Baptista Duarte e de seu esposo professor Artur Padilha; da Assistente Social Sandra Mara Martins dos Santos e de sua mãe Dona Neuza Jerônima Rosa dos
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Santos43; e do Seu Antônio Borges dos Santos. Graças à essas pessoas, em menos de três dias eu já havia alugado e estava “morando” em minha casa. Com essa escolha, evitei sobrecarregar alguma família com a minha presença em sua casa. Isso permitiu que não me identificassem como se estivesse atrelado a alguma família particular da comunidade, o que poderia causar certo desconforto no momento das entrevistas. Porém, procurei dosar as entrevistas realizadas na minha casa com entrevistas realizadas nas casas dos entrevistados para poder também compartilhar o cotidiano deles.
Minha casa com o passar do tempo começou a ser visitada por vários moradores; alguns curiosos por saber o que eu estava estudando e outros queriam me consultar sobre problemas gerais que a comunidade passava, tais como: questão fundiária, IPTU, herança, assistência a saúde, relacionamentos com vizinhos, asfaltamento da rua, dentre outras questões. Alguns importantes dados foram obtidos em minha casa, pois muitos dos entrevistados ficavam mais à vontade conversar sobre certos assuntos longe de sua casa e das casas de seus parentes. Em algumas entrevistas me solicitaram que desligasse o gravador, pois o não-dito publicamente não poderia ser gravado, só poderia ser ouvido. O não-dito, na maioria das vezes, girava em torno de conflitos familiares envolvendo terra e determinadas filiações frutos de relações sexuais não permitidas pela comunidade, como por exemplo, relações extraconjugais.
Ao procurar um espaço “neutro” para conversar sobre conflitos que envolviam suas famílias, os entrevistados estavam utilizando de estratégias para manter o modo de reprodução do seu grupo familiar. Nesse sentido, os entrevistados, por não quererem desestabilizar a estrutura familiar, na qual estão inseridos, preferiam falar sobre o não-dito, que pode quebrar essa estrutura, num outro ambiente e, evidentemente, para uma pessoa considerada de fora da família. Como observa Bourdieu (2008) “as famílias são corpos
(corporate bodies) animados por uma espécie de conatus, no sentido de Spinoza, isto é, uma tendência a perpetuar seu ser social, com todos seus poderes e privilégios, que é a base das estratégias de reprodução” (BOURDIEU, 2008: 35 - 36).
Durante quatro meses (março até junho/2008) vivi na comunidade Tia Eva. Nesse período, pude aos poucos participar do cotidiano do grupo estudado, ou seja, a convivência com seu universo próprio de concepções, valores, emoções, comportamentos e atividades, para que fosse possível uma observação densa, prerrogativa de um estudo antropológico.
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Foto nº 09 - Seu Toríbio Rosário da Silva44 (90 anos) - Foto: Maio/2008 (Um dos fundadores da comunidade negra rural quilombola Pretos de Terenos)
No início de janeiro de 2009, com a intenção de realizar a minha terceira inserção no campo, retornei à comunidade Tia Eva. Foram quatro meses de pesquisa de campo (janeiro a maio). Nessa ocasião entrevistei também integrantes do Movimento Negro de Mato Grosso do Sul, pois pessoas da Tia Eva estão relacionadas com a formação desse movimento e continuam atuantes nele45. Realizei também pesquisa de campo nas comunidades negras quilombolas Furnas do Dionísio, Chácara do Buriti, Furnas da Boa Sorte e Dezidério Felippe de Oliveira.
Nessa última comunidade, estendi um pouco mais minha estada para atualizar e confirmar alguns dados. Além disso, entrevistei algumas pessoas que moravam na área urbana de Dourados. Apesar de vários momentos tentar me desvincular da questão fundiária, observei que a memória dessa comunidade foi extremamente impactada pela perda da terra.
44 Em maio de 2008, entrevistei Seu Toríbio em sua casa na cidade de Terenos. Um importante interlocutor que
infelizmente faleceu em dezembro de 2008. Registro aqui uma das belas frases dita por esse senhor muito amável: “Meu tempo já passou, eu estou aqui hoje com essa idade porque Deus assim quis. Eu acho que Deus me conservou até hoje para eu poder contar um pouco de nossa história sofrida para o senhor. Olha bem, pra o senhor sair de Brasília pra ouvir a história desse velho negro é porque a nossa história tem valor, né. E eu achava que não tinha. Mas o senhor está me mostrando que tem. Eu hoje estou feliz. Na minha idade eu aprendi que o amanhã é pros novos, o hoje é dos velhos, né”.
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Como é o caso de Antônio Borges dos Santos, presidente do Fórum das Entidades do Movimento Negro de Mato Grosso do Sul; Vânia Lúcia Baptista Duarte, ex-presidente do Fórum e vice-presidente da Associação dos descendentes de Tia Eva e Secretária Executiva do grupo Trabalho e Estudos Zumbi; Sandra Martins dos Santos, vice-presidente Conselho Municipal dos Direitos do Negro e presidente do Instituto Cultural Negra Eva. No quinto capítulo será discutida a participação dessas pessoas no Movimento Negro do Estado de Mato Grosso do Sul.
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Todos os assuntos do passado possuem vínculo direto ou indireto com o esbulho sofrido, e os problemas atuais, segundo os descendentes de Dezidério, são frutos dele. Nesse sentido, a terra, assim como a família e o trabalho, são categorias nucleantes de significados, e estreitamente relacionadas, como afirmado por Klaas Woortmann (1990). E essas categorias estão diretamente atreladas ao “projeto camponês”, o qual, como aponto em vários momentos dessa tese, é o objetivo primaz das comunidades negras rurais / urbanas quilombolas. Sendo assim, entende-se porque a questão fundiária é um elemento presente na memória dos descendentes de Dezidério Felippe de Oliveira46.
O “projeto camponês”, enquanto habitus, é a exterioridade interiorizada pelo indivíduo, ele é formado durante o processo de socialização do indivíduo (relacionamento familiar, educação inicial, escola, religião, trabalho) (BOURDIEU, 1983). O habitus é um sistema de arranjos socialmente instituído, sendo assim é uma “estrutura estruturada”. Como é também “estruturante”, pois é por meio do habitus que os indivíduos são informados, ainda que inconscientemente, a respeito dos princípios que originam e organizam tanto as práticas quanto as representações sociais (BOURDIEU, 1995; 2004). O habitus “orienta as práticas individuais e coletivas. Ele tende a assegurar a presença ativa das experiências passadas que, depositadas em cada indivíduo sob a forma de esquema de pensamento, percepção e ação, contribui para garantir a conformidade das práticas e de sua constância através do tempo.” (MARTINS, 1987: 40). Nesse sentido, a formação e manutenção do habitus (“projeto camponês”) tornam-se assim essenciais no processo de reprodução social do camponês.
O “projeto camponês” estabeleceu, como pude perceber, os vínculos da Irmandade, formada por ex-escravos, tanto no campo de Maracaju quanto no campo de Campo Grande47 (BOURDIEU, 1971; 2004). Bourdieu (1983) refere-se a campo como à situação social em que os agentes sociais realizarão sua prática de acordo com o habitus apreendido. Essa Irmandade (com letra maiúscula), a qual é uma categoria nativa, sobrepõem as relações efetivas de parentesco e compadrio, pois elas estabelecem um “parentesco simbólico” que valoriza profundamente as relações entre as pessoas. E, posteriormente, essas relações constituídas pelas Irmandades, que antecedem as relações de parentesco e compadrio, serão estruturadas justamente pelas relações de parentesco e compadrio. Outro fato não menos importante, é que essas Irmandades se diferenciam das irmandades (com letra minúscula)
46 Infelizmente, por causa dos conflitos de terra e ameaças de morte, não pude morar nessa comunidade nos
períodos em que realizei pesquisa de campo.
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negras religiosas48, além dos motivos elencados acima, pelo fato também dessas estarem submetidas ao controle e normas eclesiásticas da organização político/religiosa da Igreja Católica49. Quando de se pensa a categoria irmandade associada a negros, geralmente tem-se em mente às religiosas, porém ocorrem outras perspectivas que fogem a essa definição, que de certo modo também sofre de um “congelamento” histórico e arqueológico análogo a categoria quilombo (ALMEIDA, 2002; O’DWYER, 2002a). Nesse sentido, no plano do modelo, podem-se haver várias concepções de irmandade que remetem a dimensões que são próximas, porém que não coincidem exatamente.
No caso das Irmandades, com o passar do tempo, seus membros50 formaram intrínsecas interações, as quais denominei de rede-irmandade. O objetivo dessa rede era ajuda e apoio mútuo, preservação e acesso à terra, ou seja, o projeto de reprodução social camponês. No primeiro semestre de 2009, pude estabelecer contato com: os membros da Comissão Quilombola51/INCRA/MS - responsável pela regularização fundiária das terras de quilombo; o Instituto Casa da Cultura Afro-Brasileira – ICCAB; o Coletivo de Mulheres Negras; o Grupo Trabalho e Estudo Zumbi/TEZ; o Conselho Estadual dos Direitos do Negro; o Conselho Municipal dos Direitos do Negro e o Instituto Cultural Negra Eva; a Coordenação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Mato Grosso do Sul/CONERQ; o Instituto Martin Luther King e o Fórum Permanente das Entidades do Movimento Negro de Mato Grosso do Sul. Esse último congrega, além das comunidades quilombolas, organizações governamentais e não governamentais que trabalham pelo direito do negro. Meu relacionamento com pessoas e instituições foi construído de forma natural em campo, pois, a princípio não tinha o objetivo de realizar uma análise sobre o Movimento Negro em Mato Grosso do Sul. Aos poucos, seguindo um jargão antropológico, deixei que o campo me “falasse” e “indicasse” os rumos da pesquisa52
. Como observado por Bourdieu (2007),
“A construção do objeto – pelo menos na minha experiência de investigador -
não é uma coisa que se produza de uma assentada, por uma espécie de acto inaugural, e o programa de observações ou de análises por meio do qual a
48 Sobre irmandades religiosas formadas por negros ver a obra de Quintão (2002) e Porto (1997). 49 Nesta tese a categoria nativa Irmandade será gravada com a letra I em maiúsculo.
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Lemieux (2000) utiliza o termo “membros” para reforçar a ideia de igualdade intrínseco nas relações que se geram dentro das redes sociais.
51 Essa comissão era composta pelos seguintes profissionais: Caroline Himmelreich Ayala (Antropóloga); Cíndia
Brustolin (Socióloga); José Roberto Camargo de Souza (Advogado – coordenador de instrução processual das regularizações fundiárias dos territórios quilombolas) e Geraldo Pereira Graciano (Técnico Agrícola). Aproveito para agradecer a esses profissionais a inestimável ajuda que me deram durante o meu trabalho de campo.
52 Nesse sentido, O’Dwyer (1988), se baseando em Bourdieu (1984), afirma que, “a pesquisa empírica exige
operações sucessivas em si mesmas obscuras que compreendem o que se chama de intuição, cuja fecundidade é atestada pelo fato de que „fazer sem saber completamente aquilo que se faz é dar-se uma chance de descobrir, no que se faz, qualquer coisa que não se sabia‟ (BOURDIEU, 1984: 17).” (O’DWYER, 1988: 13).
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operação se efectua não é um plano que se desenhe antecipadamente, à maneira de um engenheiro: é um trabalho de grande fôlego, que se realiza pouco a pouco, por retoques sucessivos, por toda uma série de correcções, de emendas, sugeridos por o que se chama o ofício, quer dizer, esse conjunto de princípios práticos que orientam as opções ao mesmo tempo minúsculas e decisivas.” (BOURDIEU, 2007: 26 – 27)
Foto nº 10 - Drª Raimunda Luzia de Brito (71 anos) - abril/2009 (Uma das principais lideranças do Movimento Negro de MS)
O primeiro trabalho de campo teve início em dezembro de 2006 e finalizou em abril de 2007. O segundo foi realizado nos meses de fevereiro a junho de 2008 e o terceiro abarcou os meses de janeiro a maio de 2009. No total foram 12 meses de trabalho de campo etnográfico e documental. Período que demandou um grande esforço de construção e reconstrução de procedimentos teóricos e metodológicos. Durante esse processo, observei o que Bourdieu (2007) prudentemente afirmou que o pesquisador não pode confundir rigor com rigidez metodológica.
“A pesquisa é uma coisa demasiado séria e demasiado difícil para se poder
tomar a liberdade de confundir a rigidez, que é o contrário da inteligência e da invenção, com o rigor, e se ficar privado desse ou daquele recurso entre os vários que podem ser oferecidos pelo conjunto de tradições intelectuais da disciplina - e das disciplinas vizinhas (...). Evidentemente, a liberdade extrema que eu prego, e que me parece ser de bom senso, tem como contrapartida uma extrema vigilância das condições de utilização das técnicas, da sua adequação ao problema posto e às condições de seu emprego.” (BOURDIEU, 2007: 26)
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Nesse período foram realizadas 96 entrevistas individuais e 10 coletivas, totalizando 106 entrevistas. Ao todo foram 93 informantes, sendo 47 mulheres e 46 homens. Dos 93 informantes entrevistados, 73 são pessoas de 60 a 98 anos. Procurei também trabalhar com a autobiografia dos idosos (BOURDIEU, 1999), pois como observa Bosi (2004), “a
narração da própria vida é o testemunho mais eloqüente dos modos que a pessoa tem de lembrar. É a sua memória.” (BOSI, 2004: 68). Esse método me levou a ficar horas a fio
conversando e, principalmente, escutando as memórias dos idosos. Desse modo, criou-se, espontaneamente, além de uma cumplicidade, um elo de confiança entre o pesquisador e vários dos 73 idosos entrevistados53. Elo que ampliou ainda mais a minha responsabilidade de escrever sobre suas memórias, sobretudo daqueles que faleceram54 durante o caminhar dessa tese.
Como percebi no trabalho de campo, houve uma preocupação dos idosos em fazer com que suas memórias não se percam, por isso a pesquisa sobre o passado deles e dos seus ascendentes foi tida como positiva. Além disso, minha presença em campo estimulou o pedido de vários idosos, principalmente nas comunidades quilombolas Dezidério Felippe de Oliveira e Tia Eva, para que eu construísse a História local. Suas preocupações eram para não deixar cair no esquecimento os parentes já falecidos; a luta dos primeiros em garantir um pedaço de terra; os parentes assassinados; suas tradições; a história dos negros; e a história de vida pessoal, que está diretamente ligado a auto-estima de cada idoso. Como bem observou Consorte (1991), em estudos sobre o negro no Brasil, “os negros têm uma outra história a
contar, espaços a defender e não apenas uma cultura para preservar mas, permanentemente recriar” (CONSORTE, 1991: 92).
Realizei também um vídeo de 15 minutos sobre a Comunidade Quilombola Dezidério Felippe de Oliveira e fiz um registro fotográfico do cotidiano das comunidades estudadas. Foram mantidas, ainda, conversas informais com grande parte dos moradores das comunidades quilombolas pesquisadas, principalmente de Tia Eva e Dezidério Felippe de Oliveira, pois essas comunidades, como apresento nos capítulos III e IV, são as bases deste estudo.
Nessas comunidades apliquei, em todas as residências (74 na comunidade Tia Eva e 20 na comunidade Dezidério Felippe de Oliveira), um questionário socioeconômico
53 Como foi o caso de Dona Conceição Cardoso (Foto nº 05); as irmãs Eremita Antônia dos Santos e Otília
Antônia dos Santos (Foto nº 06); a Drª Raimunda Luzia de Brito (Foto nº 10); o Seu Caetano Jorge de Barros (Foto nº 11); e Dona Arlinda Theodolino Domingos e seu esposo Seu Sebastião Domingos Rosa (Foto nº 12).
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com o objetivo de levantar dados sobre população, composição dos grupos domésticos, renda familiar, tipo de habitação, problemas de saúde e nível de escolaridade55.
Ainda me pautando na metodologia, foram utilizadas, durante a pesquisa de campo, as técnicas tradicionais de investigação antropológicas: observação direta das comunidades por meio do convívio diário; entrevistas com o uso de gravador; conversas informais e participação em eventos políticos (ex: reuniões com lideranças quilombolas, reuniões com pessoas do movimento negro de Mato Grosso do Sul, reuniões com políticos locais, reuniões com entidades ligadas ao movimento negro) e religiosos (ex: a festa de São Benedito)56.
Foram realizadas pesquisas bibliográficas e documentais nas bibliotecas do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, da Fundação Cultural Palmares, da Universidade de Brasília, da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, e da Universidade Católica Dom Bosco. Nessas instituições foram reunidas fontes históricas primárias e secundárias sobre a presença do negro escravo no Mato Grosso do Sul, como registros paroquiais, cartas e outros manuscritos. Durante três meses (julho, agosto e setembro/2008) li os Relatórios, Falas e Mensagens dos Presidentes da Província de Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás57. Ao todo foram 322 documentos pesquisados (139 de Minas Gerais, 79 de Goiás e 104 de Mato Grosso).
No segundo semestre de 2008, realizei, durante duas semanas, pesquisa documental no Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central/IPEHBC, em Goiânia, com o objetivo de acessar os arquivos da região Centro-Oeste. Esse Instituto possui