Constantemente os emissores de texto realizam avaliações acerca das coisas que o circundam. Tais avaliações são projetadas de formas distintas e podem ser classificadas através de vários parâmetros, como vimos anteriormente. A tradução, em sua vertente funcionalista, tem como propósito permitir que o TM, fruto de uma tradução, cumpra os objetivos pelos quais foi idealizado. Portanto, qual é a relação entre esses dois campos? É o que almejamos responder nesta seção.
Uma das características mais importantes da Avaliatividade é o seu caráter cultural, pois muitos dos julgamentos de valor feitos estão ligados, intrinsicamente, a referentes culturais de uma determinada comunidade linguística. Há, certamente, avaliações, negativas e positivas, que são universais, como as noções de bom e ruim, porém até mesmo elas fazem referência a valores pré- estabelecidos dentro de uma sociedade que não são iguais em todos os lugares. Por exemplo, nem tudo a que nós, brasileiros, em geral, atribuímos um valor negativo, será visto/tratado da mesma forma em outro país ou cultura. Inclusive porque dentro de um mesmo país podemos perceber a incidência de aspectos valorativos diferentes: o que é valorativo em uma região pode não o ser em outra ou, até mesmo, pode o ser de modo diferente. Em síntese, de acordo com Reiss e Vermeer (1996, p. 19, tradução nossa), “os valores que se atribuem aos objetos variam para cada cultura e indivíduo”44 e, antecipando a discussão, mencionamos que os autores dão, ainda, destaque a como
os aspectos refletem no processo tradutório, isto é, “estas ‘refrações’ podem chegar a expor problemas de tradução”45 (REISS; VERMEER, 1996, p. 19).
Certamente, há culturas que estão mais próximas, mesmo que não compartilhem a mesma língua, até mesmo porque o limite entre elas não é, necessariamente, geográfico e/ou linguístico. Contudo, há momentos que elas se diferenciam muito. Esse é o caso do Brasil e da Argentina, pois em alguns casos se aproximam, mas em outros se afastam. Por exemplo, no próximo capítulo, veremos que alguns dilemas dedicados às mulheres argentinas e apresentados por Maitena, em seus quadros, fazem total sentido também para mulheres brasileiras.
44 No original: Los valores que se atribuyen a los objetos varían para cada cultura y cada individuo. 45 No original: estas “refracciones” del mundo pueden llegar a plantear problemas de traducción.
Além disso, a Avaliatividade, como discutimos no capítulo 2, não está presente somente pelo uso de adjetivos, de forma explícita, uma vez que, com frequência, a valoração é atribuída a segmentos por meio de tokens que, quando descaracterizados, não teriam esse sentido. Em síntese, os usuários da língua, pelo uso criativo que fazem desta, conseguem criar e atribuir sentidos diversos para construções linguísticas.
A tradução funcionalista enfatiza a necessidade de traduzirmos muito mais que as meras estruturas linguísticas, propõem que pensemos em uma tradução das funções da linguagem e, por analogia, de um texto. Dentro das funções apresentadas, está a função expressiva, que, sem dúvidas, é a que mais se aproxima do SA, justamente porque é através dela que se identificam as expressões de julgamentos, expressões, emoções, pontos de vista etc.
Nesse âmbito, Nord (2010a), ao mencionar um ponto chave da função expressiva, acaba por citar uma característica da Avaliatividade. De acordo com a autora, a função expressiva pode estar explícita, permitindo que seja facilmente identificada, como em “Eu gosto do seu vestido”, ou implícita em “Ah, você tem um novo vestido...”, exemplos mencionados por Nord (2010a). No primeiro caso, a expressividade – de forma análoga a Avaliatividade – está evidente em seu aspecto positivo. Já no segundo caso, a interpretação dependerá do “sistema de valores comum para poder interpretar a expressividade como positiva ou negativa”46 (NORD, 2010a, p. 246, tradução nossa).
Sem dúvidas, esse é um ponto de encontro entre as duas áreas. Além disso, ao pensarmos que a Avaliatividade nem sempre está explícita no texto, essa relação torna-se ainda mais importante, pois não bastaria simplesmente a tradução da estrutura, por exemplo, quando se quisesse traduzir a função expressiva, caso fosse o objetivo. Nord (2010a) apresenta algumas possíveis soluções para traduzir a função expressiva: (i) acrescentar à tradução alguma forma de metatexto, isto é, um texto explicativo, por exemplo, ao não encontrar um equivalente funcional a alguma expressão, é viável que o tradutor adicione uma nota explicativa; (ii) tornar explícita uma avaliação que estava implícita no TB. A título de exemplificação, supomos que um excerto avaliativo seja subjetivo na CB. Nesse contexto, para que a função expressiva fique mais translúcida, o tradutor pode transformá-la em uma forma mais objetiva.
Nessa perspectiva, comparando as duas áreas, acreditamos que a vertente funcionalista seja viável para quando pensamos na tradução de elementos avaliativos. Afinal, toda avaliação pretende alcançar algum fim, mesmo que não intencionalmente, assim como a tradução funcionalista. Para alcançá-lo, em outra língua, é possível o uso de outros recursos, desde que o sentido, com uma nova
tradução, seja compreendido de igual forma, isto é, tenha o mesmo impacto, considerando que esse é, em geral, o escopo.
Assim, em resumo, consideramos que as duas áreas se ocupam de temas diferentes. Entretanto, uma pode auxiliar a compreensão da outra, isto é, a tradução funcionalista pode contribuir para o entendimento da tradução dos segmentos avaliativos. Inclusive, o que fazemos é analisar a tradução da Avaliatividade, utilizando as lentes da tradução funcionalista, isto é, pensando no objetivo pelo qual determinada avaliação foi feita e como esta poderia cumprir o mesmo objetivo no português brasileiro.
Ao longo do capítulo, perpassamos alguns pontos importantes concernentes ao campo da tradução. Inicialmente, propomos um recorrido com base em alguns tópicos, como teorias e métodos tradutórios, que se relacionam ao campo de pesquisa. Essa parte, por sua vez, nos auxiliou a percebermos que a tradução é um campo de estudo vasto e com diversas abordagens. Em nosso trabalho, nos aproximamos da vertente funcionalista, representada, principalmente, pelos estudos de Christiane Nord. Por isso, dedicamos parte do capítulo a apresentar e discutir seus principais postulados, uma vez que o aspecto tradutório do corpus foi discutido com base neles. Em outras palavras, é com base nessa perspectiva que analisamos os quadros selecionados, tencionando uma aproximação ao campo da Avaliatividade. Assim, muitos aspectos teóricos foram retomados pontualmente em cada análise, a partir do que a própria tradução nos remitia a discutir.
4 AS MUJERES ALTERADAS DE MAITENA: AVALIATIVIDADE E TRADUÇÃO
Chegamos ao último capítulo de nosso trabalho. Nele, pretendemos retomar aspectos discutidos anteriormente, como aqueles relacionados à avaliatividade e à tradução sob a ótica funcionalista. Dividimos esta seção, a fim de assegurar a clareza, em três partes: na primeira, retomamos algumas informações relevantes sobre a obra analisada. Na sequência, utilizando o modelo de análise pré-translativa de Nord (2012), caracterizamos, em geral, o livro com base nas informações que tínhamos acesso. Finalmente, desenvolvemos as análises propostas.