Imagens 10 – As seis injustiças mais machistas quando o assunto é beleza
Fonte: Maitena, 2005/2003, respetivamente, p. 23.
No original: Las seis injusticias más machistas del culto a la belleza
Dando sequência, este quadro foi retirado da seção “As seis injustiças mais machistas quando o assunto é beleza”. Nela, Maitena agregou um tom de valoração em cada um dos quadros, ao expor situações comparativas entre homens e mulheres, na quais exige-se muito mais – beleza – destas do que daqueles. Dentre as situações apresentam-se algumas relacionadas ao fato de que, por exemplo, há quase uma exigência que a mulher seja magra, enquanto aos homens reserva-se o direito ou não de o sê-lo; e que as mulheres têm quase uma obrigação a fazer depilação, enquanto aos homens não se faz esse tipo de cobrança.
Já o quadro em análise é valorativo em todos os seus aspectos, isto é, aqui a avaliação não está presente apenas em um quadro, mas em todos seus elementos. Assim, no subtítulo, a autora já satiriza o fato que ver um homem mais velho com uma mulher mais nova não nos espanta como ao contrário, ver uma mulher mais velha com um homem mais novo. No primeiro, naquele caso é algo notável, enquanto neste é um escândalo. A situação é comprovada pela cena retratada: temos um casal, uma mulher mais velha e um rapaz, e, ao fundo, um casal tece comentários depreciativos sobre os primeiros. Eles falam justamente sobre essa diferença de idade, valorando que à mulher/coroa não deve ser nada barato estar com um homem mais novo, algo que insinua que ela deve pagar para ter aquele relacionamento.
Esse exemplo evidencia que a linguagem avaliativa, muitas vezes, não se restringe a apenas um termo, mas pode ser construída diante de um contexto. Nesse sentido, mesmo nos casos em que
destacamos elementos textuais, estes foram analisados com base no contexto no qual figuravam. Dessarte, podemos localizar o quadro como um todo dentro, principalmente, do subsistema atitude, mais especificamente em termos de julgamento de sanção social. Isso porque percebemos que o casal acaba por emitir uma valoração ao casal, em especial à mulher, em relação ao seu comportamento social. Certamente, essa opinião foi construída com base em valores sociais estabelecidos, o que reforça o caráter avaliativo de normalidade desse comportamento – uma mulher mais velha relacionar-se com um homem mais novo. Enquanto, este é considerado anormal, o contrário parece não gerar a mesma repulsa.
Apesar de voltarmos nossa atenção ao todo, chamo-nos atenção o emprego do termo crack como um adjetivo que qualifica o homem que mantém um relacionamento com uma mulher mais nova. Esse termo deriva da língua inglesa e está presente também em português praticamente com o mesmo significado: ademais da acepção relacionada à droga, se utiliza para referir-se a alguém que se destaca por talento ou habilidade em alguma área, principalmente no esporte72. Diferem-se, portanto, em nível de abrangência, pois, no espanhol, crack tem um uso mais abrangente, já que se refere, ademais de pessoas habilidosas, a pessoas dignas de admiração e simpáticas. Ao passo que, no Brasil, tal incidência restringe-se mais ao esporte. Destacamos que, mesmo o contexto emitindo uma avaliação negativa à situação, esse vocábulo em si transmite uma valoração de cunho positivo. Entretanto, à diferença do espanhol, em português, em geral, não se utilizaria esse termo para referir-se à situação apresentada. Nesse ponto, reside a escolha da tradutora por traduzir funcionalmente crack para “gostosão”, termo muito mais representativo no português.
Apesar de não sabermos a que corrente se filia a tradutora dos quadros, Rita Vynagre, há características funcionalistas que podem ser percebidas em algumas de suas traduções. Sob esse viés, é concebível pensar que nem todas as respostas estão no TB, mas podem ser encontradas olhando para o TM, isto é, para a LM. Nesse aspecto, Nord (2010b) se refere a esse processo como um salto pela vala cultural, ação que pode ocorrer por duas perspectivas: partindo do TB para o TM, procedimento A, ou ao contrário, saindo do TM para o TB, procedimento B. Para diferenciar tais caminhos, utilizamos as próprias palavras de Nord (2010b, p. 11, tradução nossa)
O procedimento A parece ser o mais «seguro» (não se afastar demais do texto base para produzir uma tradução mais «fiel» possível) – mas tem a desvantagem de que inclusive depois de dois ou três passos de melhora a vala cultural permaneça diante do tradutor, e qualquer cavalo teria dificuldades para saltar uma vala quando a tem demasiado perto. Se permanece neste lado da vala, a tradução seguirá sendo um texto próprio da cultura base, ainda que na língua meta. Para se decidir pelo procedimento B se necessita mais coragem, e a desvantagem aqui pode ser que 72 Disponível em: <https://definicion.de/crack/> e <https://dle.rae.es/crack>. Acesso em: 15 jul. 2020.
alguns detalhes do texto de origem se percam no salto. Convém, portanto, depois de chegar à cultura meta, olhar para trás para recobrar os elementos da bagagem que ainda faltam para a produção de uma tradução adequada. 73
Em outras palavras, sob o viés funcionalista é possível pensar a transposição cultural a partir de uma outra visão: concebendo que, muitas vezes, não se faz necessário sair do TB e nem pensar que ele tem todas as respostas; às vezes, o salto se dá olhando para a CM e, por consequência, a LM, através de uma percepção que admite as idas e vindas entre as duas línguas.