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C HAPITRE 2: E TUDE DU MODE D ’ACTION DE DCL4 DANS LA

2.2 P RESENTATION ET CARACTERISATION DES ALLELES UTILISES

No ano letivo 2000/2001, na Escola Secundária D. Afonso Henriques, em Vila das Aves, lecionei Português a uma turma de 11.º ano. A turma era composta por onze rapazes inscritos num curso profissional de eletrónica. Estes alunos, fruto do meio social e cultural envolvente, não tinham hábitos de leitura e consequentemente eram parcos os seus conhecimentos literários. A turma, apesar de pequena, exigia uma grande atenção dado que os seus

elementos apresentavam dificuldades nas diferentes competências e tinham um comportamento pautado pela imaturidade e pela brincadeira.

No programa constava o estudo de Os Maias, de Eça de Queirós. Porém, cedo constatei que um simples pedido de leitura dessa obra não resultaria, pois estes discentes eram pouco trabalhadores e desleais, optando pela consulta de breves resumos. Concordando com Inês Sim-Sim quando afirma que saber ensinar a ler exige “uma permanente actualização teórica, fundamentada na investigação, mas requer também uma constante reflexão de como se está a ensinar a ler e, acima de tudo, uma saudável dependência da condição de amante da leitura por parte de quem ensina a ler…” (2001: 55), propus-me, então, a encontrar uma estratégia capaz de levar estes estudantes à leitura da obra. Deste modo, optei por analisar com a turma os três primeiros capítulos tendo em conta aquilo que deveria ser trabalhado, de acordo com o programa e seguindo um determinado método devidamente planificado. Relativamente aos restantes capítulos, a leitura e respetiva análise de cada um deles foi dividida pelos alunos. Desde logo, dadas as caraterísticas destes discentes, a ideia de lerem apenas um capítulo ao invés da obra na íntegra agradou-lhes sobremaneira. Para além da distribuição dos capítulos por aluno, expliquei-lhes que teriam de apresentar oralmente à turma o teor do capítulo, focando determinados aspetos e seguindo uma determinada planificação. Assim, cada um deles tomou conhecimento do capítulo que ia ler, analisar e apresentar à turma e de todas as regras a cumprir. Dentro do tempo de apresentação estipulado, cada discente deveria, seguindo as minhas indicações, dar a conhecer aos colegas o seguinte:

- resumir os aspetos mais importantes sobre a ação, as personagens, o tempo, o espaço e o narrador;

- ler à turma e comentar dois ou três excertos que o mesmo considerasse serem importantes, justificando as suas opções;

- referir pelo menos um aspeto gramatical que se destacasse no capítulo, apresentando exemplos e justificando a sua opção (Exemplo: “Este capítulo é rico em advérbios de modo.”);

Ficou também decidido que cada estudante deveria ser o mais exato possível de modo a transmitir as informações mais relevantes do capítulo em estudo para que os colegas, que não o tinham lido, ficassem a perceber a continuidade da intriga e conseguissem, assim, entender os capítulos seguintes.

No final de cada apresentação, o aluno era avaliado pelos colegas, que teciam oralmente alguns comentários, e pela professora que, através de uma grelha (APÊNDICE 2), dava-lhe a conhecer a avaliação obtida nos seguintes parâmetros: postura, colocação da voz, organização e articulação das ideias, domínio de conhecimentos sobre o capítulo estudado, pertinência dos excertos escolhidos, importância do item gramatical abordado, capacidade de esclarecer dúvidas e de responder a questões colocadas quer pela professora, quer pelos colegas.

As prestações dos dois primeiros alunos, durante a exposição oral, foram fracas pois estes encararam o trabalho com ligeireza e não cumpriram o solicitado. Notei claramente que não tinham lido o capítulo, tinham-se limitado à leitura de resumos do mesmo, consequentemente demonstraram um conhecimento muito superficial, que não lhes permitiu cumprir, com sucesso, as tarefas propostas.

Confesso que comecei a pensar que a estratégia escolhida não era a adequada e que teria de rever e replanificar as aulas seguintes. Contudo, a transmissão, logo após as apresentações, dos resultados obtidos na avaliação do trabalho desenvolvido que, no caso dos dois primeiros discentes, foram negativos, provocou uma alteração de atitude na turma face ao desafio lançado. Observei que os dois primeiros alunos se mostraram arrependidos pelas atitudes descontraída e desorganizada apresentadas e os restantes perceberam qual o comportamento a adotar para obterem uma avaliação positiva. O estudante que fez a terceira apresentação, um dos mais aplicados da turma, apresentou-a de modo exemplar, tendo obtido uma excelente classificação. Isto fez despertar nos colegas a vontade de competirem com ele e de lutarem também por um bom resultado. As aulas seguintes deixaram-me muito satisfeita pois vi os alunos com Os Maias em punho, com páginas sublinhadas, a tecerem comentários sobre o que tinham lido e a desafiarem os colegas a lerem determinados excertos. Recordo, com grande alegria, o

momento em que um jovem me perguntou se eu já tinha lido uma determinada página com “partes muito picantes” – referia-se à descrição pormenorizada de um dos encontros amorosos do Carlos com a Condessa de Gouvarinho.

A maioria da turma acabou por se deixar seduzir pela obra. Foi notório o seu empenhamento, deslumbramento e entusiasmo e enorme o meu prazer ao vê-los debater algumas temáticas como a traição, a ociosidade, a educação, o respeito, o incesto, entre outras. Pareciam passarinhos que tinham aprendido a voar e que queriam usufruir ao máximo dessa nova descoberta, explorando cada vez mais um mundo mágico até aí desconhecido. Também eu me sentia maravilhada com a minha descoberta - é preciso ousar para caminhar mais além. Note-se que ainda dava os meus primeiros passos no ensino.

Na minha opinião, a estratégia adotada resultou e mostrou-se eficaz neste grupo de alunos pois um número significativo acabou por ler o capítulo que lhe foi atribuído e cumpriu as tarefas pedidas. O facto de ter conseguido fazer com que a maioria da turma tivesse lido pelo menos um capítulo deixou- me bastante realizada.