Pretendemos neste tópico abordar, de forma breve, alguns estudos da Educação Matemática que no nosso entendimento conciliam com o sentido da alfabetização em uma perspectiva articulada com as Ciências Sociais, Ciências Naturais, das noções Lógico-matemáticas e das Linguagens, potencializadora de um ensino, político, crítico e libertador. De um modo geral, Skovsmose (2001) compreende a Educação Crítica da seguinte forma:
[...] para que a educação, tanto como prática quanto como pesquisa, seja crítica, ela deve discutir condições básicas para a obtenção do conhecimento, deve estar a par dos problemas sociais, das desigualdades, da supressão etc., e deve tentar fazer da educação uma força social ativa (p. 101).
Assim, entendemos que para ser crítica, a educação não deve abstrair os problemas sociais, mas considerar as relações de poder e as desigualdades sociais que prevalecem na sociedade, bem como nas comunidades locais em que as escolas estão inseridas. Skovsmose (2008) explica “Vejo a Educação Matemática Crítica como a expressão das preocupações sobre os papéis sociopolíticos que a educação matemática pode desempenhar na sociedade” (p. 101). Nesse sentido, suas preocupações se voltam para os papéis sociais da Educação Matemática e, ao reconhecer a natureza crítica desse campo, ações devem ser desenvolvidas no sentido de superação das crises. Uma discussão sobre os principais conceitos abordados pela Educação Matemática Crítica, perpassa por essas reflexões e, busca o movimento de superação, tendo a consciência de que as crises existem, da relação entre as crises e a postura crítica, e assumindo a característica crítica da Educação Matemática.
Assentados na Educação Matemática Crítica traremos à discussão o conceito de Alfabetização Matemática. Abordamos no tópico anterior que Paulo Freire (1995) faz uma reflexão em relação ao significado do termo alfabetização envolvendo uma dimensão política abrangendo uma compreensão crítica do processo. Skovsmose (2001) esclarece que a alfabetização pode ser compreendida como uma condição necessária para informar as pessoas sobre suas obrigações e, para que elas possam fazer parte dos processos essenciais de trabalho. Percebemos um diálogo entre Skovsmose (2001) e Freire (1995), ao apontar que alfabetização também pode ser usada com o propósito de libertação, uma vez que pode ser considerada como “meio para organizar e reorganizar interpretações das instituições sociais, tradições e propostas para reformas políticas” (SKOVSMOSE, 2001, p. 102).
E quanto à Alfabetização Matemática? Também pode ser usada com propósitos de libertação? Desenvolver um ensino de Matemática que possa ser crítico e reflexivo é o desafio da Educação Matemática Crítica. Tal qual visto em Paulo Freire (1995), a interpretação de alfabetização, está relacionada:
[...] a uma capacidade de leitura e escrita do mundo: leitura, no sentido de que se pode interpretar os fenômenos sociopolíticos; e escrita, no sentido de que a pessoa se torna capaz de promover mudanças (SKOVSMOSE, 2012, p. 19).
Nesse sentido, a Alfabetização Matemática, de acordo com Paulo Freire (1995), refere-se não somente à capacidade de se interpretar um mundo estruturado por números e figuras, como também à capacidade de se atuar nesse mundo, de modo a transformá-lo pela força e dinamismo das ações. Na tentativa de uma abordagem para a Educação Matemática que possa levar tanto a um maior controle sobre o conhecimento quanto à consciência crítica acerca das influências que a Matemática exerce nos sistemas que formam a sociedade, Frankenstein (2005) afirma que:
Mudança social libertadora requer uma compreensão do conhecimento técnico, que é muitas vezes usado para obscurecer realidades econômica e social. Quando nós desenvolvemos estratégias específicas para uma educação emancipadora, é vital que incluamos tal alfabetização matemática (p. 102).
Compreendemos, assim, que os conhecimentos matemáticos (técnicos) são essenciais para uma atuação crítica e direcionada sobre a realidade. O conhecimento técnico, controlado por uma minoria, pode forjar realidades na medida em que não permite uma compreensão dos processos intrínsecos a ele e, desse modo, reduz a área da ação. A Alfabetização Matemática, nesse sentido, possibilita uma visão clara desses processos e uma tomada de decisão consciente por parte do sujeito.
Na busca em apontar uma Alfabetização Matemática, Skovsmose (2001) faz uma distinção entre três tipos de conhecimentos, que podem ser tomados como orientação da Educação Matemática:
1) Conhecer matemático, que se refere à competência normalmente entendida como habilidade matemática [...].
2) Conhecer tecnológico, que se refere às habilidades em aplicar a matemática e as competências na construção de modelos [...].
3) Conhecer reflexivo, que se refere à competência de refletir sobre o uso da matemática e avaliá-lo (p. 115-116).
O autor esclarece que a Matemática pode ser vista como parte do processo de desenvolvimento tecnológico. As Ciências e a própria tecnologia se desenvolvem
tendo a Matemática como suporte. Ainda, que a distinção entre os três tipos de conhecimentos diz respeito não apenas à educação, mas também à Matemática, pois faz parte de uma capacidade geral de desenvolvimento de sistemas. Ressalta que o conhecimento reflexivo não pode ser reduzido a conhecimento tecnológico por possuir uma natureza diferente. O conhecimento tecnológico tem por objetivo a resolução de um problema, enquanto o conhecimento reflexivo conduz a uma avaliação de uma solução tecnológica sugerida para alguns problemas.
Ao relacionar o conhecer reflexivo com o tecnológico, Skovsmose (2001) considera que o conhecer tecnológico é incapaz de predizer e analisar os resultados de sua própria produção. Sendo assim, há uma necessidade de reflexão para se interpretar e entender os seus verdadeiros objetivos. O conhecer reflexivo e o conhecer tecnológico constituem dois tipos de conhecimentos interdependentes. É necessário ter compreensão do empreendimento tecnológico para dar suporte às reflexões.
Em especial, o conhecimento reflexivo requer a existência do diálogo para se manifestar. Essa forma de analisar distingue o conhecimento reflexivo do conhecimento matemático e tecnológico. Contudo, “[...] não pode haver conhecimento reflexivo sem um objeto” (SKOVSMOSE, 2001, p. 63). Desse modo, o diálogo, delineado para a existência do conhecimento reflexivo, não pode ser um diálogo aberto e sem intenções.
A intenção em fazer a distinção entre os conhecimentos matemático, tecnológico e reflexivo, é uma tentativa em trazer para dentro do processo educacional a importância desse último conhecimento, o reflexivo, pois segundo o autor, “[...] o conhecer reflexivo tem de ser desenvolvido para dar à Alfabetização Matemática uma dimensão crítica” (SKOVSMOSE, 2001, p. 118). Para ele, a Educação Matemática pode se tornar crítica na medida em que a competência da Alfabetização Matemática seja desenvolvida como sendo composta pelos três tipos de conhecimentos.
Para Skovsmose (2012) “[...] é uma preocupação da Educação Matemática Crítica desenvolver a matemacia, e penso nessa noção como outra palavra para alfabetização matemática” (p. 19, grifo do autor). Nesse entendimento, segundo o
autor, a matemacia, é vista como uma extensão, para a Matemática, da concepção problematizadora e libertadora de educação proposta por Freire (1995). A matemacia, então, é vista como uma condição para a emancipação do sujeito, não é simplesmente desenvolver habilidades de cálculos matemáticos, mas, também, de promover a participação crítica na sociedade, discutindo questões políticas, econômicas, ambientais, nas quais a Matemática serve como suporte tecnológico. “Nesse caso, dirige-se uma crítica à própria matemática assim como a seu uso na sociedade, e não apenas se preocupa com seu ensino e aprendizagem” (ARAÚJO, 2007, p. 31).
A Alfabetização Matemática, como uma habilidade associada à formação crítica do cidadão frente às questões postas pelo meio social em que vive e, que estão estruturadas sobre pilares dos conhecimentos matemáticos, torna-se necessária a uma Educação Matemática Crítica. Skovsmose (2012) acredita que tal alfabetização é importante para estabelecer visões de uma Educação Matemática Crítica, pois não acredita que seja possível definir um currículo ou uma metodologia de Educação Matemática Crítica. Segundo ele, a noção de alfabetização é importante para a formulação de visões segundo as quais, guiariam a ação pedagógica em busca de uma Educação Matemática Crítica.
Considerando a Alfabetização Matemática à luz desses estudiosos compreendemos que, implicitamente, há um direcionamento para o ensino dos conhecimentos matemáticos de modo integrado a outros campos do saber, ao considerar o conhecimento reflexivo envolvendo o uso da Matemática, contribuindo nesse sentido para a compreensão da realidade.
"A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele" (FREIRE, 1995, p. 11). Desse modo, entendemos que na interação com o meio social a criança constrói saberes matemáticos, cremos que as crianças trazem suas vivências para a escola, e no processo de alfabetização matemática a escola sistematiza esse conhecimentos de forma problematizadora que potencialize sua atuação como cidadã. Tratando-se de um processo inicial, que se prolongará posteriormente e não se trata somente do domínio de uma linguagem simbólica aparecendo somente como componentes
específicos da área da matemática, mas também como elementos da comunicação (BRASIL, 2012a). Trata-se de trabalhar com situações providas de significado.
Em busca de uma prática pedagógica sustentada em teorias e vinculadas a propostas metodológicas, que favoreçam o ensino de uma alfabetização como um ato político e libertador e que consequentemente nos possibilite o ensino em língua materna e também em Matemática articulado às Ciências Humanas e da Natureza. No tópico seguinte abordaremos alguns pressupostos da pedagogia histórico-crítica, que na nossa leitura subsidiará esta pesquisa, favorecendo um direcionamento de práticas que possibilitem a alfabetização nessa perspectiva.
2.3 EM BUSCA DE UMA ALFABETIZAÇÃO INTEGRAL À LUZ DA PEDAGOGIA