Using DECrouter 200 Management Tools for Problem Analysis
7.4 Loopback Testing
7.4.1 Overview of Loopback Testing
As transformações pelas quais passou o movimento sindical brasileiro na segunda metade da década de 1970, em parte, é tributário de um trabalho anterior às suas primeiras manifestações públicas. Nesse contexto é importante ressaltar a participação de segmentos progressistas de uma instituição que – inicialmente cooptada como parte no conjunto de interesses que gerou o Golpe Militar de 1964 – viu-se também violentada
em suas ações na sociedade brasileira: a Igreja Católica24. Mas por que falar de Igreja Católica se o interesse deste trabalho está em ressaltar as produções documentais realizadas entre as décadas de 1970 e 1980 por cineastas ligados ao movimento sindical da região do ABC paulista e, posteriormente, pelos próprios sindicalistas?
A razão principal é a de que, paralela à repressão sofrida pelos movimentos sociais e pela esquerda brasileira após o Golpe de 1964, uma parte da Igreja Católica também foi sofrendo dessa mesma truculência que, segundo Ralph Della Cava (1978), desfacelou a organização política e social surgida durante o curto período da segunda experiência democrática brasileira desde o fim do Estado Novo em 194525. Desse modo, parcelas significativas da Igreja, especialmente após o Concílio Vaticano II (1962-1965) – que estabeleceu um marco divisório entre a Igreja Sacramental (ligada às classes dominantes e aos sacramentos) e a Igreja dos Pobres e Oprimidos (comprometida com a libertação das classes subalternas) – foram se aproximando gradualmente dos movimentos sociais e, muitas vezes, sendo elas próprias fomentadoras desse processo26. Significativa parcela
24 Sobre as relações Estado e Igreja, sugerimos a leitura dos autores Dines (2000), Della Cava (1975),
Mainswaring (1986) e Alves (1979).
25 Um dos casos mais emblemáticos foi o assassinato do padre Antônio Henrique Pereira Neto, encontrado
pendurado pelos pés em um galho de árvore na cidade universitária, em Pernambuco. Outro religioso barbaramente torturado foi Frei Tito, preso em São Paulo em 1969 e entregue ao delegado Sergio Fleury. Condenado a quatro anos de prisão, ele foi um dos presos políticos trocados pelo embaixador suíço Bücher. Deportado para o Chile, acabou se suicidando em 1974, totalmente enlouquecido pelos traumas das torturas que sofrera.
26 Ao menos duas doutrinas religiosas contemplavam, antes de 1961, ensinamentos de ordem política e
social que tangenciavam questões afetas a temáticas sobre o trabalho, direitos e organização e que foram usadas por algumas correntes internas como documento orientador de ação. A Rerun Novarum (1891), afirmava a superioridade da igreja e da religião como instrumento de resolução entre o capital e o trabalho. Defendia a criação de uma ordem social mais justa e desaconselhando a aproximação dos católicos com o “socialismo”: “Assim, substituindo a providência paterna pela providência do Estado, os socialistas vão contra a justiça natural e quebram os laços da família”. Ensinamentos semelhantes seriam retomados pela Carta Encíclica Mater et Magistra (1962, p. 10), para a qual “operários e empresários devem regular as relações mútuas, inspirando-se no princípio da solidariedade humana e da fraternidade cristã; uma vez que, tanto a concorrência de tipo liberal, como a luta de classes no sentido marxista, são contrárias à natureza e à concepção cristã da vida”. Uma “inclinação” da igreja aos pobres só seria percebida a partir do Concílio Vaticano II. O Concílio Vat. II foi convocado por João XXIII, para retomar e “transmitir a doutrina pura e íntegra sem atenuações nem desvios". Este transmitir implicava em compreender o tempo da história no qual a Igreja vive e atua. Do Concílio surgiu um documento intitulado Lúmen Gentium, constituição dogmática que direcionou a ação da Igreja para o aspecto social. Conforme Bento XVI (2005), sobre a análise do documento, "O nosso dever não é somente guardar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente pela antiguidade, mas dedicar-nos com diligente vontade e sem temor a esta obra, que a nossa época exige... É necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de modo que corresponda às exigências do nosso tempo. De fato, uma coisa é o depósito da fé, isto é, as verdades contidas na nossa
do clero passa a realizar trabalhos voltados aos interesses da população através de Comunidades Eclesiásticas de Base – CEBs e Pastorais.
Obviamente falar da Igreja Católica como uma instituição homogênea seria um erro significativo, especialmente se levarmos em consideração, somente no Brasil, dois fatores: sua dimensão e abrangência social e a pluralidade da suas ações. Sobre a primeira, é inegável que diferentes realidades sociais exigem posturas correspondentes e respostas adequadas dos caminhos a serem adotados institucionalmente. Não dá para falar de uma mesma estratégia institucional se considerarmos, como aponta Vera Silva Telles (1986, p. 48), explicando sobre a atividade das Comunidades Eclesiásticas de Base, que a ação efetiva das igreja nasce do ancoramento com as experiências de vida cotidiana. Assim, como instituição significativamente abrangente, apontar suas atividades como homogênea é incorrer num erro gritante. Aqui, fala-se unicamente das atividades nascentes da relação instituicional criada a partir de um ancoramento bastante particular, nascido no processo de encontro entre igreja e movimento operário posterior ao Golpe Militar de março de 1964, período no qual, segundo Krischke (1986, p. 187), setores centrais da igreja realizaram uma reorientação estratégica, concentrando sua atenção numa reforma institucional e educativa interna que teve consequências pluralistas para as orientações políticas de suas bases e lideranças religiosas.
Não há como negar que a partir de meados da década de 1970, notadamente após o recrudescimento do regime militar entre 1968 e 1969, houve o crescimento de uma tendência dentro da igreja mais voltada às ações sociais e ao seu fortalecimento. Sempre ligada ao Estado e ao sistema partidário até 1964, após o Golpe a instituição passaria à defesa dos direitos humanos e liberdades individuais. Esse processo se refletia essencialmente na forma como internamente a instituição passaria a reordenar sua estrutura organizacional, implementando um processo de descentralização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB e de democratização interna, que culminou na criação das Comunidades Eclesiásticas de Base, ampliando, portanto, a ressonância junto às bases e, neste caso, junto aos movimentos operários (Krischke, veneranda doutrina, e outra coisa é o modo com o qual elas são enunciadas, conservando nelas, porém, o mesmo sentido e o mesmo resultado".
1986, p. 187). Esse processo de aproximação com as causas operárias, especialmente no envolvimento da instituição nas lutas operárias do grande ABC paulista, foram resultado, especialmente, do envolvimento de católicos e operários ligados à Diocese de Santo André e refletem um posicionamento adotado entre os anos de 1954 a 1975; período no qual esteve à frente da diocese, D. Jorge Marcos de Oliveira.
Desde a sua fundação, em agosto de 1954, a diocese de Santo André (que abrange todos os municípios do grande ABC: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema) sempre esteve envolvida com questões ligadas ao meio operário. Heloísa Martins (1987, p. 16) afirma que esse envolvimento se devia, na verdade, a uma adequação da instituição à realidade social da região no qual a predominância de trabalhadores operários exigia uma resposta e uma postura de ação por parte da instituição.
Chegando na Diocese um mês depois de sua criação, D. Jorge aportaria numa região considerada como o “foco do comunismo corrupto e ameaçador”27 (Martins, 1987, p. 17). Sua atuação frente à igreja marcaria definitivamente a diferença de postura que significativos setores eclesiásticos tomariam diante de problemas sociais. No caso particular da Diocese de Santo André, a doutrina implantada imprimiria uma visão do operário como “pessoa humana”, carregada de direitos como “cidadão”. O que tornara singular a atuação de D. Jorge frente a Diocese e de diversos outros líderes religiosos católicos na região fora o fato, conforme Heloísa Martins (1994, p. 68), de que a expressão desses direitos era realizada tanto no púlpito religioso quanto pela presença dos clérigos nas reivindicações, praças, portas de fábrica e greves. “Ombreando” com os trabalhadores ou atuando como conciliador em diversas situações reivindicatórias ou de ação política. O fato é que a atividade desenvolvida pela Diocese de Santo André acabou ampliando a participação da igreja e abrindo espaço para a percepção das atividades sindicais.
27 O ano de 1947 contribuiria significativamente para essa associação. Nas eleições municipais o operário
Armando Mazzo tornou-se o primeiro candidato eleito para um cargo executivo no Brasil. O operário ganhou o pleito para a prefeitura de Santo André concorrendo pelo PST (Partido Social Trabalhista), uma vez que o registro do PCB estava cassado. A eleição de Mazzo provocou reações contrárias à sua posse. Em 31 de dezembro, o TSE anulou todos os votos conseguidos pelo PST em Santo André.
Em debate realizado entre operários e religiosos para a Revista Religião e Sociedade (nº 06, novembro de 1980), quando questionado sobre a participação da igreja no processo grevista, Frei Betto28 afirmou que a participação da igreja nas greves e nas causas operárias é anterior a 1964. O religioso se referia diretamente à Pastoral Operária Católica, Juventude Operária Católica – JOC, e da Ação Católica Operária – ACO e à atuação de D. Jorge Marcos frente à Diocese de Santo André. Independente da importância que se dê a um ou a outro na aproximação com as questões ligadas ao movimento operário, o fato é que no contexto do processo político brasileiro pós 1964, a Igreja Católica era a única instituição civil no período capaz de servir como instituição mediadora de conflitos resultantes das grandes transformações pelos quais o país passava. Daí a grande importância em se compreender a instituição não apenas como mediadora de conflitos na região, mas como fomentadora e aglutinadora de interesses dispersos que contribuiria para moldar uma nova forma de fazer política no meio operário.
Após a completa desarticulação das forças de oposição ao Regime Militar, especialmente após o AI-5, a única possibilidade de mudança política, pelo menos no que se referia à organização sindical, vinha do ‘novo’ sindicalismo que se desenhava em São Bernardo do Campo. Na verdade, a constituição de um movimento de oposição sindical vinha de 1963, com a contraditória elaboração, por grupos como a Juventude Operária Católica – JOC e a Ação Católica Operária – ACO, de uma concepção crítica da estrutura sindical existente. Para Martins (1994, p. 22), procurou-se criar uma nova mentalidade sindical, mais aberta e pluralista, voltada para o trabalho de base. Essa tendência refletia uma postura de enfrentamento da própria Igreja, como aponta Celso Frederico (1990), que era substancialmente contra a linha sindical adotada pelos comunistas que mantinha certa hegemonia no meio sindical desde a década de 1950. Daí a importância que o trabalho das comunidades de base ganhou no meio sindical como fator diferenciador desse nova organização operária que começa a ser desenhada no rescaldo da desarticulação pós-1964.
28 Os nomes tanto dos religiosos, quanto dos operários foram grafados dessa forma, sem sobrenomes,
A ênfase ao trabalho de base proposta pela Igreja implica uma crítica direta à tradição leninista que afirma a necessidade de uma vanguarda, de um destacamento avançado para centralizar e dirigir as lutas operárias. No limite, o ‘basismo’ expressa a negação do partido político e da própria teoria revolucionária. (FREDERICO, 1990, p. 152).
Longe de formular uma leitura universalizante apontando para transformações sociais mais profundas e que indicam uma valorização de conceitos micro-históricos, Frederico (1990, p. 153) afirma que o trabalho realizado pela Igreja contra o que aponta ser uma certa “tradição leninista” acabou gerando uma postura crítica com relação ao papel dos partidos e do intelectual no meio operário. Apesar disso, o trabalho realizado pela Igreja significou um dos poucos canais possíveis para focos de oposição para o qual convergiram diversas lideranças políticas que sobreviveram ao aparato repressivo criado pela Ditadura Militar.
Krischke (1986, p. 188) é enfático em afirmar que a participação da Igreja, e em especial as comunidades de base, foi fundamental para criar uma “porta de entrada” e de oferecer um “suporte institucional” dos diversos movimentos sociais dispersos no pós- 1964. Conforme o autor (1986, p. 190) a Igreja ofereceria não apenas um suporte físico
[...] onde se realiza a convocação (e muitas vezes as assembléias) do movimento, mas como uma organização ramificada dentro do bairro (pastoral operária, CEBs, grupos de rua, mães), sob diversas formas de atuação [...] e que são por eles considerados como organizações mais importantes do bairro (60%). Tudo isto parecer indicar uma espécie de “atrelamento” institucional do movimento à Igreja; no entanto, ao serem perguntados sobre como entraram no movimento, ou ainda, sobre como o movimento iniciou sua atuação no bairro, os entrevistados enfatizaram (55%) a “iniciativa própria” e a “espontaneidade”, respectivamente. Percebe-se assim que a Igreja não exerce, do ponto de vista dos líderes do movimento, uma influência organizativa explícita, embora forneça apoio institucional à “iniciativa própria”
O papel da Igreja acabou por proporcionar uma rede colaborativa maior entre os diversos níveis de interesse e interação entre a classe trabalhadora. O mais importante, conforme Krischke (1986, p. 191), é que essa rede de ramificações acabou assumindo funções motivadoras, num momento em que problemas econômicos e o impacto da
repressão sobre o movimento operário mostrava sinais de recrudescimento. Essa rede permitiu, ao nível da cultura e das instituições, sustentar a emergência de projetos democráticos e pluralistas, capazes de incentivar a democratização da política e da sociedade. Nesse quadro é importante ressaltar que a postura adotada pela Igreja junto aos meios operários, especialmente no que se refere à crítica da presença de uma liderança estranha ao meio, acabou por fomentar o surgimento do que Frederico (1990, p. 153) chama de uma crença no “saber próprio da classe operária”. Esse “saber”, fomentado pela ação de agentes pastorais, cuja tarefa seria unicamente despertar e desenvolver a sabedoria popular (aqui é evidente a influência de Paulo Freire), acabou por desenvolver, como aponta o autor (1999, p. 153), um incentivo à auto-expressão de diversos grupos:
Incitados a expressarem-se, alguns operários puseram-se a escrever relatando suas histórias de vida e o cotidiano nas fábricas. É nesse contexto que florescem os jornais de bairro e as tentativas de ‘autopesquisa’.
Dentro do que nos interessa neste trabalho, essa ‘autoexpressão’, como indica Frederico, gerou práticas culturais diversificadas. Aliados à educação promovida como forma de qualificação profissional e de outros recursos como teatro, poesias e mostras cinematográficas promovidas pelos Sindicatos do ABC paulista, surgem os primeiros filmes documentários cujo universo temático girava em torno de suas ações. Antes, no entanto, é preciso compreendê-los num contexto mais ampliado de “autoexpressão”, atividades culturais e de uma imprensa sindical que foram práticas comuns nas atividades desenvolvidas no período.