7.,5 Up-Line Dumping
8.2 Problems Communicating with Adjacent Nodes
8.2.2 Asynchronous Port Communication Problems
O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema nasceu de uma cisão do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, em 1959, quando foi criada a Associação Profissional dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico dos municípios de São Bernardo do Campo e Diadema. A Associação foi formalmente criada no dia 12 de maio de 1959, em uma reunião que aconteceu na sede do
37 Diretoria eleita para o mandato (1969-1972): Paulo Vidal Neto, Presidente; Exupério Cardoso Campos, Vice
– Presidente; José dos Santos Cruz, Secretário Geral; Julião Garcia Galache, 1º Secretário; Antonio Joaquim Figueiredo, 2º Secretário; Antenor Biolcatti, 1º Tesoureiro; Anacleto Coltri, 2º Tesoureiro. É nessa diretoria que, pela primeira vez, Luiz Inácio Lula da Silva surge como suplente do Conselho Fiscal.
38 A figura do João Ferrador foi definida na gestão de Paulo Vidal (1969-1972). O personagem nasceu em
1972 para driblar a censura imposta à imprensa pelo governo militar e foi publicado pela primeira vez na edição n.º 08 de 1972 da T.M.. Com mensagens indignadas, os bilhetes de João Ferrador tornaram o personagem popular na categoria. A criação da charge é atribuída por Paranhos (2002, p. 35) ao cartunista Otávio, Fortuna, Henfil e Laerte, “que deram forma de gente viva ao personagem” e de Hélio Vargas, ex- metalúrgico e ilustrador ao qual foi atribuída uma das frases mais famosas do personagem: “hoje eu não tô bom!”. Uma outra versão sobre a ilustração de João Ferrador foi apresentada por André Luiz Corrêa Silva (2006, p. 14), para o qual o personagem foi criado unicamente por Henfil e Laerte
Sindicato dos Marceneiros de São Bernardo e contou com a presença de 71 trabalhadores de empresas como a Mercedes-Benz, Volks, Mercantil Suíça, Varan Motores, Multibrás, Carte, Volar, Simca e Maras. No entanto, sua constituição como Sindicato só aconteceria no mês de agosto do mesmo ano. O sindicato surgiu com uma base de aproximadamente 40.000 trabalhadores e sua primeira diretoria foi constituída por Anacleto Potomati na presidência, Antonio Cardoso como vice e Orisson Saraiva de Castro na secretaria geral.
No primeiro ano de criação, o sindicato já mostraria sua importância perante os trabalhadores ao liderar as greves por conta do abono de Natal. Segundo Orisson Savaiva de Castro39,
Nós fizemos a greve na Willys e na Mercedes. E uma das grandes greves que nós fizemos na Mercedes foi por causa do abono de Natal, o 13º salário. [...] Então nós travamos o movimento e conseguimos parar. [...] Fizemos a greve na Mercantil Suiça, enfim em quase todas as empresas.
Figura 4
Primeira diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, em 1959
Fonte: Oliva (1987, p. 42).
Envolvidas no processo de ampliação e ressonância das atividades sindicais do período, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema acabou ganhando destaque por conta das inúmeras atividades que desenvolvia e dos combates que travava em prol dos trabalhadores. Fato notório da sua importância no cenário
nacional foi sua ocupação por militares logo no dia 31 de março de 1964; fato que se repetiu com centenas de sindicatos pelo país.
Nesse processo, no centro do que havia de mais moderno na indústria brasileira do período, o movimento de oposição40 à estrutura sindical tradicional, promovido por membros ligados ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, teve papel preponderante. Foram, principalmente em torno dele, realizados os mais intensos e significativos registros audiovisuais brasileiros que retratam o operário em greve, seu ressurgimento como agente político e suas ações reivindicatórias, num contexto no qual o cinema iniciava uma relação um pouco mais profícua com a comunicação alternativa.
A utilização do cinema como forma de alavancar projetos específicos de comunicação alternativa e de interesse do operariado urbano era uma proposta inovadora até então. Pela primeira vez dentro de um sindicato ou do movimento popular, a questão não mais recaía sobre a assessoria jurídica da instituição (até o momento tido como um dos seus esteios e instrumento para capitanear novos associados). Os movimentos sindicais, políticos e socias foram obrigados a encontrar caminhos alternativos de autoexpressão e autodeterminação, contribuindo para o florescimento de mecanismos que fugissem do tradicional. E, nesse caso, seguindo um percurso próprio de valorização de iniciativas socioculturais. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo teve um papel preponderante.
Em 1971, o Sindicato realiza um ciclo de conferências na Colônia de Férias da Federação dos Metalúrgicos em Praia Grande no qual foram discutidas temáticas como
40 O conceito de “oposição”, neste caso, refere-se exclusivamente a um pensamento comum de
contestação da estrutura sindical vigente no país. Ela não pode ser associada ao conceito de “Oposição Sindical”, característico do movimento sindical metalúrgico de São Paulo, que se opunha à diretoria de Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, tido como reflexo, por si só, do próprio engessamento da estrutura sindical brasileira. No Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema não havia, ao menos não evidente, um movimento amplo de contestação da diretoria. A primeira evidência da presença da Oposição Sindical Metalúrgica no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, conforme Batistoni (2001, p. 223), foi apresentada no III Congresso dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, realizado em outubro de 1978. Em São Bernardo, a corrente de oposição à estrutura sindical seria referenciada como “sindicalismo autêntico”. Segundo a autora (2001, p. 313), uma aproximação efetiva da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo com o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema aconteceria a partir da greve dos metalúrgicos do ABC, em abril de 1980.
Convenção Coletiva, Legislação Trabalhista e Sindicalismo e Perspectivas Futuras. A partir do mesmo ano, o Sindicato, representado por sua diretoria, passa a participar de inúmeros congressos nacionais e internacionais como o 220º Congresso Mundial da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, realizado na Suécia; os Congressos Estaduais dos Metalúrgicos e dos Congressos Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Brasil. E em 1974, pela primeira vez, realiza-se um congresso local, o I Congresso dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e Diadema, ocorrido entre 6 e 8 de setembro, no qual foram
debatidos problemas que afligiam diretamente os trabalhadores do ABC. Essas atividades envolviam tanto um processo de capacitação interna, oferecendo cursos diversos aos quadros e lideranças sindicais, quanto um processo de capacitação externa, com o desenvolvimento de cursos regulares de alfabetização e capacitação política.
Um passo importante nesse processo foi a inauguração do Centro Educacional Tiradentes, que ofereceria a sindicalizados e trabalhadores metalúrgicos41, dentre outras atividades, cursos de Madureza42, que já ocorriam na própria sede do sindicato, desde 1971, em parceria com a Escola de Madureza de Diadema, conforme consta de Ata da Reunião Ordinária de 13 de Janeiro de 1971. O Centro Educacional Tiradentes – CET começou suas atividades em janeiro de 1974, um mês depois da inauguração da sede do sindicato, em dezembro de 1973, oferecendo cursos preparatórios aos exames de Madureza de 1º e 2º graus. Os cursos funcionavam em esquema de revezamento para conseguir atender aos mais de 500 alunos matriculados nos diferentes turnos. Mas sua visibilidade vai além dos números de matriculados, aulas e cursos ministrados.
Além dos cursos preparatórios de Madureza, o CET oferecia também cursos técnicos, como o curso de “Leitura e Interpretação de Desenho Industrial”, oferecido em parceria com o Senai de São Bernardo do Campo. Na prática, como salienta Paranhos
41 Segundo Paranhos (2002, p. 54), em 1975, 1996 alunos frequentavam o Centro: 1742 no curso de
Madureza, sendo desses, 1399 sócios e 343 não-sócios; e 254 nos cursos de capacitação profissional.
42 O Madureza foi um curso de educação de jovens e adultos, que ministrava disciplinas dos antigos ginásio
e colegial, criado a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1961. As idades mínimas para o ingresso eram 16 e 19 anos, de Madureza Ginasial e de Madureza Colegial. Exigia-se um prazo de dois a três anos para a sua conclusão em cada ciclo, a qual foi abolida pelo Decreto-Lei n° 709/69. Isso se deu porque aos autodidatas, somente o exame interessava.
(2002, p. 60), as atividades desenvolvidas pelo Sindicato com a instituição do CET, do
Tribuna Metalúrgica e dos diversos cursos de capacitação interna e externa do operariado
metalúrgico “demonstrava uma prática de fortalecimento da organização sindical de suma importância, especialmente na década de 1970”. Nem mesmo João Ferrador, personagem sempre presente no T.M., escapou dos cursos oferecidos pela CET43.
Para a autora, o CET e outros espaços criados a partir dele significou ser um lugar de grande confluência de interesses para os quais migraram boa parte de uma intelectualidade e atividades políticas dispersas, mas ainda atuantes no movimento sindical. Em entrevista a Paranhos (2002, p. 63), José Roberto Michelazzo (diretor do CET entre os anos de 1975 e 1979), afirmou que “era predominante o número maior de professores militantes de esquerda vindos de organizações clandestinas” e que, dentro da equipe do CET, diversos traziam orientações vindas das organizações.
O depoimento de José Roberto Michelazzo apresenta o CET como um lugar de encontro entre os docentes de esquerda e os sindicalistas do ABC nos anos 1970. Além dele, vários entrevistados citaram a existência de vínculos entre os professores do CET e as organizações clandestinas de esquerda, como a Ação Popular (AP), o Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP), a Convergência Socialista (CS) e a Ala Vermelha, dissidência do Partido Comunista do Brasil (PC do B).
A ressonância do CET como espaço privilegiado de encontros, trocas e fomento cultural se ampliou com a criação do Departamento Cultural do Sindicato, em agosto de 1976. Foi nesse contexto que nasceram formas de comunicação e práticas culturais diversificadas. Dentro do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, essas práticas acenderam na diretoria não apenas a necessidade da criação de mecanismos que pudessem prevenir questões pertinentes ao seu universo, mas que pudessen também demonstrar a força de sua organização.
É importante, minimamente, apontar a importância que o CET possuía para o movimento sindical em São Bernardo (trataremos mais especificamente sobre esse tema
43 Dizia-se, além de assalariado e morador de aluguel, o personagem também frequentava o curso de
Madureza oferecido pela CET na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. T.M.. Setembro, 1977, p. 47.
nos capítulos seguintes). A iniciativa da criação de um centro educacional acabou servindo como um catalizador de diversos artistas e intelectuais que privilegiavam a cultura e a educação como instrumento de mobilização política. Não sem sentido, como aponta Marcelo Ridenti (2014, p. 297-318), houve uma adesão natural de artistas e revolucionários perseguidos pelo Regime Militar junto aos movimentos populares e sindicais e que acabaram sendo responsáveis pela criação de diversos novos modelos de comunicação destinados à mobilização popular, ou focados simplesmente em interesses particulares da categoria.
Sejam diretamente a ele associados, ou através do interesse pontual de seus cineastas realizadores, o fato é que uma cinematografia diferente, tendo o operário como protagonista, se desenvolveu em meio a questões políticas e sociais cuja ressonância ainda é foco de atenção de pesquisadores. O que buscamos neste trabalho é resguardar a essas produções um papel preponderante de comunicação alternativa, num jogo de interesses que mais tarde despertaria para a necessidade dos movimentos populares e sindicais em estabelecer seus próprios mecanismos de comunicação; sejam eles progressistas ou conservadores.