1. LES OPINIONS DES FRANÇAIS
1.11. Ouverture dominicale ou fermeture tardive
Diversos autores trataram a questão do crescimento político da classe trabalhadora e do surgimento das comissões de fábrica, sobretudo a partir das greves de 1978/1979, apontando a questão das lutas no cotidiano da fábrica e sua relação com o conhecimento das técnicas de produção e do processo produtivo como condição para o desencadeamento dessas lutas (GARCIA, 1982; BRITO, 1982; MARONI, 1982; GOMES; MARONI, 1984). Marco Aurélio Garcia situa a relação entre as práticas de resistência no dia a dia da produção e o processo pelo qual a classe foi se descobrindo e se constituindo como classe. O autor fala de um processo lento, caracterizado por ―pequenas ações que permitiram ao trabalhador brutalizado pela exploração vencer seu isolamento e reconhecer-se como classe num pequeno gesto de recusa dessa exploração‖3
Realmente, as táticas de luta dos trabalhadores em São Bernardo, por exemplo, presentes nas lutas que se desencadearam a partir de 1978, refletem uma opção pelo rompimento com certas regras do jogo definidas pelo patronato. Com essas lutas, um novo questionamento passa a ter lugar: dirigido à legalidade industrial e à organização capitalista do processo de trabalho, que está no bojo da resistência operária no espaço fabril. Os pontos de maior questionamento, nessa época, diziam respeito à qualidade ou à quantidade de produção, ao ritmo de trabalho, à hierarquia no processo de produção,
3 ―Jogar dominó durante o trabalho, ou simplesmente diminuir a cadência,demorar-se um pouco mais no
banheiro ou lá colar um recorte de jornal que pudesse interessas a seus companheiros, foram iniciativas que prepararam comportamentos mais coletivos: operações tartaruga, sabotagens, protestos contra os feitores e
além de questões como o poder disciplinar imposto pelo patronato através de normas e regulamentos que traduzem a legalidade da fábrica.
No âmbito dessas novas práticas, ao partirem para o questionamento das normas de trabalho e de um senso comum relativo ao cotidiano da produção, as lutas localizadas e a resistência assumem um sentido político que, por sua vez, questiona a disciplina presente na luta sindical. Nesse sentido, é válido afirmar a importância da eclosão dessas novas formas de luta para se construir e se consolidar a ação sindical no espaço fabril, notadamente através das comissões de fábrica. 4
Certamente, essa presença sindical na fábrica traz a sua contrapartida dia1ética, ao limitar a ação operária autônoma no espaço produtivo e centralizar suas possibilidades de organização. Note-se, por exemplo, que os estatutos das comissões de fábrica chegam a deslocar o poder de decisão das assembléias de fábrica para o sindicato. (MARONI, 1983, p. 42). Todavia, o aspecto mais significativo, em termos de inovação da prática política dos trabalhadores, está na ―mudança de qualidade‖ da própria luta: passeatas dos trabalhadores no espaço da fábrica, como foi o caso da Scania, da Ford e da Mercedes Benz, em 1982 e 1983; tomada da fabrica, a luta pela adesão dos mensalistas, (pessoal burocrático e técnico da fábrica) ao movimento grevista, as operações tartaruga, entre outras formas de luta que levam ao confronto com a organização capitalista do processo de trabalho.
A luta na produção traz o novo, traz a interferência de fatores externos ao espaço habitual de luta, levando à aceleração das mudanças qualitativas no plano mais global da luta de classes. Os órgãos institucionais de representação dos trabalhadores reagem, como era de se esperar, a essas formas de luta que fogem ao controle da burocracia. Nesse processo de transformação histórica da luta dos operários, setores da burocracia sindical passam a ver como inoportunas algumas lutas e reivindicações que traduzem o questionamento da legalidade industrial inerente á organização capitalista do processo de trabalho. (MARONI, 1982, p. 110).5 É um processo de polarização de posições acerca do local da luta operária e de
suas formas. A esse respeito, é interessante reproduzir algumas palavras do Documento do Comando de Greve dos Operários da FIAT/DIESEL, escrito durante a greve de 1981:
4―Reconhecidas pelo patronato como um novo direito, as comissões de fábrica são patrocinadas pelos próprios
sindicatos. A ação sindical conquista, assim, as fábricas e passa a intervir decisivamente nelas‖. (MARONI, 1983, p. 41).
5 A autora cita um documento, um folheto emitido pela diretoria sindical e reproduzido pelo Jornal Convergência
Socialista nº 23, durante a campanha salarial de 1980, explicando porque a reivindicação da redução da Jornada para 40 horas semanais não entrou em pauta, com justificativas que coincidem com os interesses patronais.
De sua parte, os atuais sindicatos, atrelados ao Ministério do Trabalho, não são organismos em que a classe operária possa confiar. Esses sindicatos não combatem a essência da crueldade do capital, nem têm condições de se tornarem instrumentos eficazes de luta, na medida em que se organizam e são administrados da mesma forma que uma empresa capitalista. Os empregados dos sindicatos consideram os diretores como patrões. Por quê? Porque eles agem como patrões. Têm suas mordomias, privilégios, ajuda de custo, prestígio que pouco a pouco os afastam do nível social comum aos trabalhadores e os levam a brigar encarniçadamente pela perpetuação nos 'cargos' de diretores da empresa. Defendem a burocracia administrativa e o assistencialismo, e impedem que o sindicato se transforme num instrumento ágil, pronto a intervir e apoiar as lutas travadas pela classe. (SINDICATO DOS METALÚRGICOS DO RIO DE JANEIRO, 1981).
Na perspectiva desses trabalhadores, que enfrentaram a burocracia sindical, ao lutarem contra a organização capitalista do processo de trabalho, os sindicatos acabam por encerrar em sua estrutura relações de poder que chegam a reforçar aquela submissão e obediência cuja prática o poder disciplinar da fábrica consagra no cotidiano da produção. Eles defendem, ainda, que os trabalhadores precisam criar formas de luta e de organização, livres da influência patronal e questionadoras do autoritarismo em todos os seus aspectos.
Ao que parece, o desenvolvimento dia1ético de contradições dessa natureza resultou na já mencionada ação sindical no espaço fabril (ver nota nº 4), sobretudo a partir da emergência das comissões de fábrica, como síntese gestada nas contradições entre as lutas institucionalizadas e aquelas de caráter mais espontâneo, localizadas no dia-a-dia da produção. (MARONI, 1983, p. 41-44).
É fundamental observar que qualquer uma dessas formas de luta, isoladamente, não basta para fazer avançar qualitativamente a luta operária. E é precisamente neste aspecto que a luta no espaço fabril traz uma inovação que se reveste de extrema importância estratégica para o movimento operário. Lutar dentro do processo produtivo implica a construção de formas de re-apropriação da técnica produtiva pelos trabalhadores. A operação-tartaruga, por exemplo, tornou necessário que os trabalhadores conhecessem o processo produtivo, "propiciando o momento em que a relação entre o saber e o poder se manifesta na luta dos operários e não
mais apenas na construção do poder patronal. O que torna viável a operação-tartaruga é a
inversão da lógica do processo produtivo. E' necessário quantificar e controlar o índice de produção. Na medida em que a operação tinha de contar com a comissão de fábrica, mas, ao mesmo tempo, com a iniciativa individual do trabalhador, a inversão da lógica do processo produtivo exigiria do operário o domínio dos pontos estratégicos da linha de montagem. Assim, para impor o bloqueio, quebrar o ritmo de produção e garantir a queda do índice de produção, sem a diminuição da qualidade do produto, o conhecimento do processo produtivo pelo operário da linha torna-se fundamental para o desencadeamento, da forma de luta.
Algumas das estratégias presentes nossa forma de luta traziam, por si mesmas, a necessidade de conhecimento, para que o operário pudesse integrar a sua iniciativa individual no plano coletivo da resistência. Para "deixar o carro passar faltando peças", por exemplo, era necessário definir que atitudes tomar para reduzir o abastecimento de determinadas peças na linha de montagem. (GOMES; MARONI, 1984, p. 59-67). Politicamente, trata-se de contrapor à organização capitalista da produção a re-apropriação operária do saber, atuando no mesmo nível em que se constrói a dominação do trabalho.
É nesse sentido que se torna válido falar da classe operária se construindo historicamente enquanto classe, enquanto sujeito histórico. Algo que marca especificamente as novas formas de luta é o seu caráter de transformação do sujeito, como parte de uma luta contra a alienação. Nesse sentido, a re-apropriação do saber operário se põe como etapa decisiva na reintegração/recuperação da integridade do trabalhador, como parte do reencontro entre o saber e o fazer, na mesma subjetividade. De qualquer forma, fica claro o peso da re- apropriação do processo produtivo pela classe operária na desestabilização do poder do capital. O encontro do sindicato com essas práticas estaria significando o avanço em uma luta totalizadora (através da integração, em uma mesma luta, do espaço institucional e das formas de resistência) contra a alienação do trabalhador.
Ao mesmo tempo, isto significa também um avanço em direção a uma rebelião contra os processos de legitimação do saber dominante. Em outras palavras, a quebra do mito do saber técnico e gerencial vai questionar a hegemonia dos padrões dominantes de organização, produção e distribuição do conhecimento, levando a uma afirmação da validade do saber das classes subalternas.
Na verdade, esse saber está presente no cotidiano, e de certa forma validado pela prática, nas relações do trabalhador com a realidade. Por outro lado, a hegemonia, no que se refere à dominação cultural entre as classes, processa uma relação de complementação mútua com dominação do trabalho, reforçando uma tendência à invalidação do saber popular.
Contudo, é interessante observar o quanto que as percepções das ―classes subalternas‖ elaboram sobre o valor do conhecimento e sobre a dominação através do saber.
São várias as fontes bibliográficas, além de diversas entrevistas realizadas com trabalhadores, seja do meio rural ou das áreas urbanas, que revelam a produção e a prática de um saber ligado ao cotidiano das suas relações com o mundo, a1ém de formas específicas de transmissão de conhecimento. Um caso exemplar de elaboração de saber a partir de observação e prática pode ser relatado sobre a construção de uma ponte em uma rodovia no noroeste de Minas: depois da cheia do rio, que havia destruído as obras da ponte, um lavrador
que vivia nas proximidades aconselhou os técnicos da obra a observar a altura em que estivesse situado o mais baixo ninho de joão-de-barro em uma árvore ribeirinha. A partir daquela altura, segundo o lavrador, eles poderiam reconstruir o piso da ponte, sem temer as cheias do rio.
Vale notar que o próprio desenvolvimento das relações capitalistas de produção tem influência decisiva sobre os processos de formação e transmissão de conhecimento nas classes subalternas. No caso da pequena produção camponesa, a técnica produtiva enquanto conteúdo de conhecimento articula uma integração entre o instrumento ou ferramenta de trabalho e o próprio trabalhador, associando a aquisição dos conhecimentos necessários para a utilização da ferramenta ao próprio processo de utilizá-la. Trata-se de uma forma de transmissão de conhecimento que não está dissociada do processo de trabalho. Nesse caso ―são as necessidades próprias do processo de reprodução do camponês e de sua família, passando pela comunidade, que determinam de perto os conteúdos a serem transmitidos, as formas que adotará essa transmissão e a pr6pria constituição de sujeitos ou grupos de sujeitos como qualificados para dirigir determinados processos educativos. Esta qualificação, no entanto, não tem nada de semelhante ao processo de construção de uma categoria de 'profissionais' de transmissão de conhecimento (professores), existente no âmbito da produção em bases capitalistas." (RABELO; GOMES, 1984, p. 60).6