IV. Análise de Resultados
4.2 Inquérito por Questionário
4.2.4 Motivos para a inativação de matrícula na Universidade de Évora
4.2.4.12 Outros motivos: diversidade e profundidade
Apesar da idéia recorrente de que a perspectiva ambiental é algo res- trito ao contemporâneo, uma análise criteriosa nos textos marxianos eviden- cia a importância da compreensão da natureza dentro do próprio entendi- mento da sociedade capitalista e nas construções para sua superação. Marx tem a pedra fundamental de sua concepção filosófica nos ensinamentos gregos14, mas suas formulações são originais o suficiente para serem consi- deradas um marco no debate ambiental.
Como visto anteriormente, o desenvolvimento dos sistemas agrários sempre esteve baseado na relação entre a produção vegetal e a produção animal. O marco central da revolução agrícola moderna se dá no momento em que esses dois componentes se dissociam (MAZOYER & ROUDART,
13 Segundo Marx, a origem do modo de produção capitalista não está ligada a uma pura e
simples racionalização da divisão do trabalho social, mas sim a um processo violento de ex- propriação da produção familiar, artesanal, camponesa, corporativa, etc., que separou o produ- tor direto dos seus meios de produção.
14 A tese de doutoramento de Marx é sobre Epicuro, um dos grandes filósofos gregos e pilar de
2010), permitindo um grande desenvolvimento da agricultura. Essa separa- ção é considerada como o primeiro grande passo rumo à subjugação da agricultura ao capital industrial (FOSTER, 2005; GRAZIANO DA SILVA, 1983).
O ciclo produtivo baseado na adubação do solo era o eixo dos siste- mas agrários desde que a humanidade abandonou – pelo menos hegemoni- camente – o sistema de cultivo de derrubada-queimada. Até o desenvolvi- mento dos primórdios da agricultura capitalista, a relação entre a criação e a lavoura era ecológica, compreendida dentro de um agroecossistema. Os insumos utilizados na produção agropecuária eram eminentemente internos, produzidos justamente a partir do bom funcionamento do ecossistema agrí- cola: fertilização animal, matéria orgânica decomposta, diversificação de culturas e melhor aproveitamento da energia solar.
A agricultura capitalista inicial rompeu o ciclo sistêmico, a perspec- tiva ecológica da produção agrícola. O que inicialmente pode remeter à independência do agricultor perante a natureza, ao domínio do racional sobre o natural, acabou por engendrar justamente a submissão do ser huma- no e da agricultura ao capital – chegando até os dias atuais da submissão destes ao capital financeiro.
Ao artificializar o meio natural para garantir a produção agropecuá- ria especializada, subordinada ao capitalismo industrial urbano, o ser huma- no aliena-se da própria natureza, do domínio15 da ecologia. Possibilita, também, o início de uma percepção de que o campo não possui qualquer relação ecológica, o que rapidamente se extrapola para a não-existência de qualquer relação ecológica com a cidade.
À época em que a sociedade européia era feudal, a maioria do que era produzido era consumido no mesmo território. De alimentos a dejetos, tudo estava integrado dentro deste “ecossistema”. Com a migração rural para a cidade, amplamente estimulada ou forçada pelo capitalismo industrial a fim de estruturar o exército de reserva, ocorreu uma drástica concentração da população em espaços reduzidos, totalmente desconectados geografica- mente do campo.
Essa realidade levou de fato ao verdadeiro início de toda a questão ambiental – e a qual Marx se refere inúmeras vezes. A ampla maioria da produção do campo foi destinada para a cidade, e os seus dejetos, refugos e excedentes não possuíam destinação final. Não é por acaso que Liebig (FOSTER, 2005), HOWART (2007) e outros contemporâneos recorrente-
15 A palavra domínio por muitas décadas foi utilizada para afirmar que Marx e o marxismo
eram prometéicos, contra as relações ecossistêmicas. FOSTER (2005) defende exatamente o contrário, apresentando o conceito de domínio como conhecimento das relações ecológicas e re-conhecimento do próprio ser humano como ser da natureza;
mente trazem o exemplo do rio Tâmisa, em Londres, que era um esgoto a céu aberto16. Ambos os autores especulam sobre a destinação dos esgotos e lixo para a agricultura novamente, apontando para um futuro colapso da agricultura pela diminuição da matéria orgânica nos campos.
Essa ruptura entre o campo e a cidade é explicada, por Marx, dentro da categoria metabolismo (FOSTER, 2005). Inicialmente o metabolismo é entendido como troca material imediata – como a proposta de destinar o esgoto do Tamisa para a agricultura – porém Marx refina sua análise à me- dida que se aproxima de trabalhos como o de Justus Von Liebig e Charles Darwin. Nos Grundrisses e demais textos da última fase da vida de Marx, a categoria metabolismo é apresentada de forma mais elaborada e complexa, passando a ser uma visão sistêmica, incluindo questões como a conservação de energia em todo o sistema (FOSTER, 2005).
Na base do metabolismo, está a construção filosófica do materialis- mo. O ser humano é mais um ser da natureza, mas é o único que consegue transformar essa própria natureza de forma crítica – é a co-existência ser humano-natureza. O desenvolvimento da humanidade é o co- desenvolvimento com a natureza, em um processo de ação-reflexão-ação que transforma a ambos, humanidade e natureza. O ser humano não é nem humano, nem natural apenas, mas ambas as coisas ao mesmo tempo (MES- ZÁROS, 2006).
Podemos encontrar mais um elemento que demonstra a importância desta percepção de metabolismo em Engels (1844):
“A comunidade terá de calcular o que pode produ- zir com os meios à sua disposição; e, à luz da rela- ção dessa capacidade produtiva com a massa dos consumidores, ela determinará até onde tem de au- mentar ou diminuir a produção (...)”.
Apesar de evidenciar a forte influencia do socialismo utópico em Engels (MESZÁROS, 2006), este trecho explicita o esforço de compreender a relação ser humano-natureza-sociedade, buscando fugir das mediações tipicamente capitalistas, como propriedade privada e divisão do trabalho, por exemplo.
Entretanto, a acumulação primitiva desenvolvida pelo capitalismo industrial possibilitou a expropriação de toda a riqueza e conhecimento gerada por essa relação comunidade-natureza e o extermínio destes grupos. Posteriormente, implantou-se a lógica capitalista de desenvolvimento da agricultura, consolidando a ruptura do metabolismo outrora exercitado. Ao mesmo tempo em que o ser humano passou a ser alienado de seu trabalho,
16 Em 1858 as sessões do parlamento foram suspensas por causa do mau cheiro do rio, um
não reconhecendo no produto o seu próprio labor, também se alienou da natureza. Aliás, para Meszáros (2006), “fazer da terra um objeto de negócio - a terra que é nossa, de todos, a primeira condição de nossa existência - foi o último passo na direção de fazer de si mesmo objeto de negócio”.
A alienação deve ser compreendida, segundo Meszáros (2006), como as manifestações de estranhamento do ser humano com o todo: consigo mesmo, com a natureza exterior a si, com a humanidade e com o ser huma- no enquanto outro. E ela, enquanto processo dinâmico, é fruto das media- ções criadas pelo modo de produção capitalista para a relação ser humano – natureza. Todo o histórico remetido anteriormente demonstra a construção do que Meszáros (2006) chama de mediações de segunda ordem17: a divisão do trabalho, que antes era artesanal e coletivo; a propriedade privada, que antes possuía caráter comunal, apesar de feudal. Por isso, questão agrária, falha metabólica e alienação possuem uma relação ontológica.