Entendendo a autogestão enquanto prática, percebeu-se a necessidade de elencar algumas experiências com inspiração autogestionária que obtiveram relevância internacional, bem como identificar estas práticas no território brasileiro. Observa-se que a maioria das experiências com inspiração autogestionária não ultrapassaram as práticas em nível organizacional.
Para falar de autogestão, Carvalho (1983) traz a experiência autogestionária da Iugoslávia num contexto de pós-revolução da Rússia e da Segunda Guerra Mundial. Essa experiência, segundo a autora, consiste no surgimento, voluntário, de unidades de autogestão formadas por trabalhadores e soldados. Essas unidades tiveram seu lócus privilegiado nos Conselhos de Fábricas, nos quais os trabalhadores vivenciavam a experiência da autogestão, pois o princípio fundamental para que haja uma organização autogestionária, na concepção da citada autora, é o sufrágio universal. Para isso, existiam subunidades, com pequeno número de trabalhadores, nas quais permitiam a participação de todos (CARVALHO, 1983).
Nessas subunidades, segundo Carvalho (1983), eram eleitos os delegados, os quais representavam os trabalhadores tanto dentro da indústria quanto na comunidade. Estes
cargos eram rotativos, com o intuito de que as vontades individuais não prevalecessem em detrimento do coletivo (CARVALHO, 1983). Além disso, os delegados poderiam perder seus cargos a qualquer momento visto que, se assim não fosse, não haveria diferença de um socialismo estatal ou um capitalismo monopolista (CARVALHO, 1983). Sendo assim, os Conselhos eram laboratórios os quais levariam a proposta da autogestão para o setor social e político. Apesar disso, Tragtenberg (1986) não concebe a experiência iugoslava enquanto autogestionária, pois havia assentos privilegiados nos conselhos de fábrica, constituindo, assim, uma classe de “tecnocratas da autogestão”. Para ele, os exemplos de práticas autogestionárias são a revolução camponesa, ocorrida na Ucrânia entre 1918-1921, as práticas autogestionárias tanto no campo quanto nas fábricas na Espanha entre 1936-1939, as reivindicações dos trabalhadores para ter o controle direto das empresas na Hungria em 1956, entre outros exemplos27. Por mais que tenha havido uma prevalência de experiências em nível organizacional, como foi o caso da Hungria, por exemplo, a intenção da autogestão é que ela se alastre ao meio social. Esta ideia é compartilhada por diversos defensores da autogestão, pois eles entendem que a experiência de autogoverno vai além do espaço econômico: perpassa toda estrutura da sociedade.
Antes dessas vivências, houve no Brasil a experiência da Colônia Cecília28, nos anos de 1890, no Paraná, sendo a primeira comunidade anárquica no Brasil idealizada pelo italiano Giovanni Rossi (BEHR; PAULA, 2014). Essa Colônia foi uma experiência anárquica na qual se pregava a propriedade comum, o amor livre e a autogestão (BEHR; PAULA, 2014). No entanto, não sobreviveu por muito tempo, devido a vários fatores como engajamento de alguns colonos na guerra civil federalista, doenças e, principalmente, traição de um dos membros ao roubar o dinheiro da venda da safra do milho (BEHR; PAULA, 2014; PALLOTTINI, 1987). Porém, Rossi não considerou a experiência da Colônia um fracasso, pois, para ele, pôde-se vivenciar a propriedade coletiva e o sufrágio universal, entre os membros da Colônia, além disso, muitos dos antigos colonos se tornaram integrantes importantes dos sindicatos da região (BEHR; PAULA, 2014).
27Veja outras experiências citadas em sua obra Reflexões sobre o socialismo, 1986.
28A influência anárquica na América Latina veio através dos migrantes, em especial os italianos e os
Compreende-se que a diferença da experiência autogestionária iugoslava e a da Colônia Cecília foi que, na Colônia, ao menos no trabalho descrito por Behr e Paula (2014), não se observou a proposta de estender o ideário do anarquismo autogestionário da Colônia Cecília para a sociedade brasileira, pois a experiência realizada e propagada por Rossi é da livre escolha; a imposição das ideias da Colônia desvirtuaria toda sua ideologia. Com isso, a Colônia consistiu numa “ilha de autogestão”. Enquanto na Iugoslávia, por mais que os primeiros núcleos tenham sido constituídos voluntariamente, havia uma lei que fomentava a “autogestão” (MOTTA, 1980). Porém, deve-se levar em consideração que a Colônia Cecília era apenas uma comunidade, enquanto a experiência da Iugoslávia era uma prática vivenciada por todo o país. Sendo assim, a normatização propiciava uma facilidade de comunicação e assegurava entendimento comum num país que apresentava características diversas, como ressalta Motta (1980).
Outra experiência, no cenário nacional, foi a implantação de cooperativas “autogeridas” no Vale do Rio São Francisco, nos estados da Bahia e de Pernambuco, no fim dos anos 1960 aos 1990 (ALMEIDA; RIGO, 2009). Nessas práticas, o que se pôde ficar em evidência foi uma menor prevalência de características autogestionárias na cooperativa, a qual foi constituída através do fomento de órgãos governamentais (ALMEIDA; RIGO, 2009). Porém, no assentamento Mandacaru, segundo as citadas autoras, a participação e apropriação de meios de produção de forma coletiva eram evidentes. Desde o início, com a decisão de ocupação das terras para que houvesse a reforma agrária, as decisões foram tomadas coletivamente (ALMEIDA; RIGO, 2009). De acordo com as citadas autoras, no assentamento Mandacaru a interferência de membros externos era mínima e, quando havia, era por meio de organizações que apoiavam esses trabalhadores, a exemplo dos sindicatos.
Apesar de haver estas iniciativas de “autogestão”, foi somente na década de 1990 que, no Brasil, as experiências autogestionárias passaram a ter relevância, como afirmam Costa e Frasson (2005), Gutierrez (1998), Singer (2000) e Faria (2009) devido ao aumento do desemprego. Vieitez e Dal Ri (2001) argumentam que as empresas “autogeridas” não absorveram as forças de trabalho do mercado simplesmente, pois a intenção dessas empresas não era perpetuar a condição de assalariado que o mercado formal de trabalho apregoa, mas dar ao trabalhador o status de associado e não concebê- lo como um simples vendedor de sua força de trabalho.
Um aspecto que deve ser ressaltado é o fato de que essas experiências não estão limitadas ao âmbito da empresa. Klechen, Barreto e Paes de Paula (2011) analisam as práticas autogestionárias na implementação de um programa de moradia no estado de Minas Gerais. Os autores destacam que, por mais que os pilares autogestionários não sejam vivenciados em sua plenitude, o programa possibilitou uma autonomia, relativa, aos usuários dos serviços ofertados e, com isso, uma mudança de valores.
Estas experiências não são difundidas somente no Brasil, como já explicitado nos casos clássicos. Na Argentina, a “autogestão” foi tida como uma solução ao desemprego. Croucher e Ozarow (2014) pontuam que a “autogestão” tem destaque na Argentina num contexto de crise econômica mundial, nos anos de 2001-2002, a qual permitiu que os trabalhadores tomassem posse das empresas falidas que eram abandonadas por seus donos. Para os autores, foi por meio da iniciativa dos trabalhadores e, logo depois, do incentivo do governo, que milhares de empregos foram mantidos através das empresas autogeridas.
Outro exemplo de “autogestão” é o complexo de Mondragon, na Espanha, o qual está se espalhando internacionalmente (FLECHA; NGAI, 2014). Segundo Singer (2000), o complexo Mondragon consiste na experiência mais exitosa de cooperativas, visto que tem toda uma rede de autores envolvidos para dar sustentação a esse modelo de cooperação. Porém, têm-se ressalvas sobre o verdadeiro objetivo de Mondragon, compartilhando com a ideia de Levy (2005, apud FLECHA; NGAI, 2014) quando traz a questão desse complexo cooperativo ser somente uma alternativa ao desemprego. Além disso, Mondragon ganhou uma proporção a ponto de não conseguir estabelecer assembleias com todos os seus sócios, por mais que a tecnologia tenha ajudado (FLECHA; NGAI, 2014), comprometendo a democratização da gestão. Nessa mesma direção, Tragtenberg (1986) ressalta a tendência que as cooperativas têm de se tornarem empresas convencionais. Misoczky, Silva e Flores (2008) pontuam que as organizações de médio e pequeno porte são mais fáceis de preservar as características autogestionárias, diferente de uma grande empresa.
Essas experiências marcaram contextos distintos das ondas autogestionárias identificadas por Flach (2011). Para o autor, a autogestão vivenciou cinco ondas na trajetória da classe trabalhadora, sendo que a última consiste na economia solidária. Sendo assim, o tópico seguinte fará uma contextualização do que seja a economia solidária.