Nos tópicos anteriores trabalhei os seguintes aspectos: o surgimento das organizações burocráticas, suas características, seu processo de adaptação perante as mudanças no contexto econômico e o surgimento, ou ressurgimento, de organizações alternativas ao modelo hegemônico. Nesse processo, que não significa necessariamente serial evolutivo, observei que os formatos organizacionais ditos alternativos se apresentam com denominações e características variadas, mas que, por vezes,há elementos de convergência. Devido a isso, esquematizei a figura a seguir, a fim de situar esses formatos organizacionais.
Figura 1: Formatos organizacionais.
Fonte: Elaborada pela autora a partir da revisão bibliográfica.
Como observado na figura 1, as organizações burocráticas prevalecem no sistema social, corroborando com o argumento de Prestes Motta (2007) ao expor que a sociedade moderna é uma sociedade burocratizada. A mesma figura coloca a autogestão enquanto um formato que não está situada no sistema social vigente, por mais que surja deste. A autogestão é, de acordo com o significado histórico do termo, a busca da emancipação social, a construção de uma nova sociedade. Por isso ela ultrapassa o sistema social hegemônico.
No entanto, a autogestão é defendida por uma diversidade epistemológica, tendo a interpretação tanto da busca por uma nova sociabilidade, quanto à promoção de
organizações com característica autogestionária. Mesmo aqueles autores que defendem a autogestão a nível social, existem discordância nos métodos para se atingir a autogestão. Exemplo de Proudhon, este argumenta que a transformação societária ocorrerá de forma gradual (PRESTES MOTTA, 1981). Por isso, que a autogestão está contida na burocracia, uma vez que aquela nasce da contradição desta (PRESTES MOTTA, 1981)
Além da autogestão, a economia solidária também se apresenta enquanto uma nova economia, dissociada da capitalista. Devido a isso, parte dela é projetada foram da sociedade burocrática. Esse posicionamento é defendido por Singer (2000) que vislumbra nos empreendimentos econômicos solidários laboratórios de construção de novas relações de trabalho, que se erguerão com a queda da economia capitalista. Assim como a autogestão, a economia solidária perpassa por vários pensamentos teóricos e, com isso, nem todos almejam a constituição de uma nova economia, pautando-se apenas na geração de trabalho e renda para trabalhadores que não foram inclusos no mercado formal de trabalho (FARIA, 2009).
Outrossim é a isonomia, um sistema social pensado idealmente por Ramos (1989). Ele, diferentemente da autogestão e da economia solidária, não mira a constituição de uma nova sociedade. Mas, pauta-se na proposta de ter sistemas sociais distintos os quais vivem harmonicamente, dentre eles o sistema econômico e o isonômico, ou seja, não visa findar a sociedade vigente, embora proponha a construção de espaços nos quais não haja o predomínio do sistema social econômico.
Apesar dessas delimitações, todos os formatos organizacionais são imbuídos de características burocráticas, ao passo que as barreiras as quais demarcam apresentam lacunas pelas quais permeiam características dos distintos formatos organizacionais. Isso porque, essas organizações não conseguem sobreviver isoladamente, e, com isso, recebem influências uma das outras,em especial da burocracia (KLECHE; BARRETO; PAES DE PAULA, 2011), uma vez que não se tem como eliminar a burocracia (ROTHSCHILD-WHITT, 1979; RAMOS, 1989; SERVA, 1997; JUNQUILHO, 2004). Na citada figura, tem-se um ponto de interseção, no qual existe uma mescla das características dos diferentes formatos organizacionais. Denominei esse ponto de organizações alternativas, visto que elas buscam estabelecer diferentes práticas as quais se distanciam das características tipo ideal weberiana, o que não quer dizer extingui-las, mas também não são organizações autogestionárias, uma vez que, como defende Paes
de Paula et al (2011) e Faria (2009), a autogestão somente será possível num novo sistema social. Diante disso, ampliei a pesquisa trazendo formatos organizacionais como a economia solidária e a isonomia, a fim de, como ressalta Serva (1993), não analisar as organizações alternativas somente pelo dualismo burocracia-autogestão, sem perceber a diversidade que permeia essas organizações.
Ante o exposto, busquei entender as aproximações e distanciamentos do agir dos catadores da AMARIV em relação à burocracia e aos formatos organizacionais alternativos. Por isso, montei o quadro 1, exposto em tópicos anteriores, com as características autogestionárias, bem como contextualizei o que vem a ser a economia solidária e a organizações isonômicas com o intuito de ter subsídio para melhor identificar e analisar as características que apareceram no período de minha estada na Associação. Não se tem, com isso, a pretensão de montar um quadro teórico das características que prevalecerão na organização estudada. Almejo desmistificar a concepção de que as organizações existentes são predominantemente burocráticas. Também pretendo problematizar o que venha a ser uma organização alternativa, a fim de não despolitizar o conceito histórico da autogestão. Isto porque as novas configurações organizacionais também pregam modelos menos burocratizados, o que não quer dizer, concordando com Paes de Paula (2002), uma via de emancipação dos trabalhadores nos contextos organizacionais.
3 ASPECTOS METODOLÓGICOS
A natureza dessa dissertação é de caráter qualitativo. Nela analisei um estudo de caso cujo locus de pesquisa foi a Associação de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis da Ilha de Vitória (AMARIV). As técnicas de coleta de dados que utilizei foram: a observação participante e a análise documental. Devido a ter vivenciado parte do cotidiano da AMARIV, de ter vestido a camisa para identificar de perto as características da Associação, optei por escrever essa dissertação na primeira pessoa. No que se refere à análise dos dados, apropriei-me da análise de conteúdo, tendo como categoria analítica o tema.