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O presente capítulo se propôs a apresentar a visão de língua que adotamos, com subsídio nos estudos funcionalistas da linguagem, mais especificamente, na perspectiva da Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU), que articula pressupostos da Linguística Funcional Norte-americana (Desenvolvida por Christian Lehmann, Talmy Givón, Sandra Thompson, Paul Hopper, Joan Bybee, Wallace Chafe, Elizabeth Traugott etc.) e da Linguística Cognitiva (Ronald Langacker, William Croft, George Lakoff, Adele Goldberg, John Taylor etc.). Ambas as correntes se preocupam com o fenômeno linguístico sob a perspectiva da não imanência, da influência de diversas ordens de fatores modelando a estrutura e do uso real nas variadas situações de comunicação. Sob essa ótica, entendemos a língua não como um sistema rígido, mas um fenômeno multifacetado e modelável pelo uso real e sua frequência, sempre levando em consideração a eficácia dos propósitos comunicativos.

Categorização e prototipia foram as primeiras temáticas descritas neste capítulo. Adotamos a posição de Rosch (1973a, 1973b, 1977, 1978, entre outros) sobre a teoria dos protótipos e sua aplicação aos estudos linguísticos (GIVÓN, 1986; LAKOFF, 1987; TAYLOR, 1995; CUENCA; HILFERTY, 1999; FURTADO DA CUNHA; BISPO; SILVA, 2013, entre outros).

Com base nesses pressupostos, entendemos a intercalação de orações como um fenômeno que exibe efeitos prototípicos. Portanto, buscamos critérios que possam medir o

49 No trabalho de Cavalcante (2015), apresentam-se diversos autores que abordaram as Temporais, suas definições e conectores prototípicos.

grau de maior/menor aproximação ao protótipo de Temporal intercalada. Por exemplo, as que se inserem entre o verbo e seus argumentos seriam prototípicas; as que se inserem entre outros constituintes estariam mais/menos aproximadas do protótipo, o que sugere uma perspectiva escalar de análise.

Em seguida, discutimos acerca de marcação, expressividade e contrastividade, princípios que auxiliam a descrição e análise dessas orações, em uma interação com os procedimentos cognitivos determinantes da posição das Temporais. Por meio dos critérios de marcação (distribuição de frequência, complexidade estrutural e cognitiva) (GIVÓN, 1995, 2001a), pretendemos distribuir as orações intercaladas em um continuum de marcação, e hipotetizamos que as mais próximas do eixo marcado, e por isso, mais complexas, refletiriam o protótipo de intercalação. Nem sempre o protótipo representa o item mais frequente, mas é o que melhor reflete, redundantemente, a categoria representada. Por complexa que a língua é, nem sempre os princípios de marcação podem coincidir, o que motivou Dubois; Votre (2012) a propor o princípio da expressividade, postulando que estruturas marcadas podem ser mais frequentes ou menos complexas cognitivamente. Esse parece ser o caso das intercaladas não prototípicas pré-verbais, similares às antepostas, que são atestadas nos estudos como o padrão mais frequente, fato que pode, possivelmente, ser explicado pela função de guia que essa posição projeta na articulação oracional. Em suma, embora representem um padrão mais complexo, quebra do padrão canônico SVO(C), exercem um papel guiador, configurando-se em importante estratégia do enunciador para direcionar seu interlocutor durante o desenvolvimento da cena narrada. Outra importante função das Temporais intercaladas parece ser a expressão de contrastividade: é possível que a Temporal se intercale para apresentar sujeito novo, operando mudança tópica, ou para acrescentar informações adicionais ao referente-tópico em foco na narração. Mediremos topicalidade (alta, média ou baixa) por meio de parâmetros propostos por Givón (1995), distância referencial/acessibilidade anafórica e persistência tópica.

Outro princípio givoniano apresentado como relevante para explicar a posição medial das Temporais foi o de Iconicidade (GIVÓN, 1995, 2001a). Por meio das regras de sequência, acreditamos que as orações se posicionem na mesma ordem em que os fatos narrados se deram e, no que diz respeito às regras de espaçamento, hipotetizamos que a complexidade cognitiva característica das intercaladas prototípicas advém do fato de que rompem termos mais agregados, o verbo e seus argumentos, embora possa ser suavizada por sua função de guia.

Por meio do parâmetro da informatividade, observaremos, pautados na proposta de Prince (1981, 1992), qual o estatuto informacional do referente em posição de sujeito apresentado pela Temporal, se novo, operando constratividade, ou dado/inferível, ajudando a enriquecer o discurso com mais informações sobre uma mesma entidade, em geral, a primeira pessoa, a perspectiva mais comum por meio da qual as cenas são narradas (DELANCEY, 1981).

Agregando mais contribuições funcionalistas ao estudo da articulação de orações, discorremos acerca das noções de relevo discursivo (figura/fundo) e funções textual- discursivas. Por acreditarmos que as Temporais expressam tanto informações salientes como subsidiárias, propusemos a análise sob a ótica das seguintes funções: figura, fundo cênico (guia ou moldura), fundo avaliativo, ponto de inserção de sujeito novo e ponto de incidência/função fórica. Tal descrição funcional não se propõe a ser exaustiva, já que um mesmo dado pode apresentar mais de uma função e certamente a análise revelará novas funções.

Encerrando o capítulo, mostramos que as Cláusulas Temporais, além de encerrarem prototipicamente a noção de tempo, podem apresentar novas leituras, entre as quais, de causa, de condição, de proporção, de concessão etc. Consideramos que esses valores também podem exercer influência sobre a posição dessas cláusulas em relação às suas respectivas nucleares, o que mobiliza não apenas pressões advindas do eixo tático, mas também no lógico-semântico (HALLIDAY, 2004[1985]).

Expostas a teoria de base e as categorias consideradas relevantes para a análise das intercaladas, vejamos um apanhado de estudos que focalizaram a posição de Orações Temporais, para, ao final, delinearmos uma proposta de definição do procedimento50 denominado intercalação.

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No que tange à intercalação, diferenciamos o uso dos termos processo, procedimento e posição. Falar em processo implica considerar o complexo fenômeno da intercalação como um meio pelo qual a língua “acontece” no uso. Quando falamos em procedimento, colocamos em foco o falante, que se vale da intercalação como meio para atingir seus propósitos comunicativos, em especial, imprimir função de guia e retomada anafórica/(re)construção referencial. Ao mencionar posição, queremos destacar o mecanismo sintático propriamente dito de inserção de cláusula no período.

3 A ORDEM DE TEMPORAIS NO ESPANHOL

Neste capítulo, apresentamos estudos que focalizam a ordem de orações e, em especial, a ordem das Temporais. Dividindo-o em três subseções, discutiremos, em primeiro lugar, propostas que enfocam o modo como as orações se articulam, desde uma perspectiva normativa à descrição funcionalista. Em seguida, apresentaremos estudos e discussões que dizem respeito à anteposição e posposição de Temporais e seus contextos motivadores. Por fim, enfocaremos a descrição da intercalação, argumentando que deve ser vista como uma categoria de protótipos, cujos elementos constituintes distribuem-se em um continuum de maior a menor grau de prototipicidade, considerando, entre outros fatores, sua posição em relação a termos mais ou menos agregados entre si.