NT é um livro marcado pelos encantos e influências do jovem Nietzsche pela filosofia de Schopenhauer (“O mundo como vontade de representação”, 1844) e pelas ideias do músico e compositor Richard Wagner, amigo e contemporâneo de Nietzsche – a quem o livro é dedicado, quando este ainda acreditava que o drama musical wagneriano era uma expressão cabal do renascimento do trágico na cultura alemã. Posteriormente, Nietzsche romperá com tais
141 A arte geralmente é relacionada ao campo restrito da produção de atividades de caráter ficcional, simbólico e “artificial”,
feita por profissionais artistas. A “vida” aqui refere-se ao campo da existência, o que é geralmente relacionado a uma realidade não-ficcional, “verdadeira”, cotidiana, de amplo e variável espaço, com duração até a morte, envolvendo os variados modos de existir. O tema sobre as implicações e as fronteiras (ou ausência destas) entre arte e vida é bastante presente nas produções contemporâneas na área das artes, especialmente, na área das performances.
influências, criticando-as e ressaltando a sua a própria originalidade e genialidade acerca do pensamento do trágico, da visão dionisíaca e trágica do mundo.
Ao deparar-se com a questão sobre a presença do pessimismo ou a inclinação dos gregos para o terrível, diante do vigor e da supremacia da arte da tragédia, como a mais alta expressão e forma do trágico, Nietzsche tende a relacionar o sofrimento a uma possível experiência e condição de excelência para a criação artística. A experiência do sofrimento acaba sendo correlata a uma admirável capacidade de superar a dor e o terrível da existência, transmutados em beleza, fortitude e prazer, através da arte. Sendo assim, o aspecto tenebroso e indesejado da existência não faz com que a neguemos ou dela desistamos, pois o próprio sofrimento torna-se condição de superação e criação, transformando-se em vitalismo, desejo, potência de vida e arte.
Deste modo, a visão nietzschiana não corresponde ao pessimismo e à resignação schopenhaurianos142, mas à intensificação da vontade, das paixões e de toda sorte de acontecimentos que fazem parte das imprevisibilidades e arrebatamentos do correr da vida. A ótica pessimista de Schopenhauer conduz o homem a uma resignação, sendo esta uma espécie de utilidade da tragédia grega: uma via para suportar as tragédias da vida e seus aspectos tenebrosos de forma resignada.
Para Nietzsche, o jogo estético, a transmutação e a criação artísticas advindos do contato com a dor e o tenebroso da vida (como apresentados na tragédia grega), a tornam possível e desejável. Ao final, na perspectiva nietzschiana, o que a tragédia produz é a alegria e a exaltação dionisíaca.
Assim, a tragédia possibilitaria uma consolação metafísica, isto é, o consolo de que mesmo havendo o aniquilamento e o perecer das individuações (como a derrocada dos heróis), há o regozijo da vida em um fundo primevo, eterno e indestrutível, em que “sob o turbilhão dos fenômenos, continua fluindo a vida eterna” (NIETZSCHE, 1992, p. 108). Conforme Machado (2006, p. 240), a tragédia na perspectiva de Nietzsche é “pensada como um tônico, um estimulante capaz de fazer o espectador alegrar-se com o sofrimento e até mesmo com a morte porque a destruição da individualidade não é o aniquilamento do mundo, da vida, da vontade”. Porém, em seu texto posterior de “Tentativa de Autocrítica” sobre o NT, Nietzsche se contrapõe à sua ideia inicial sobre a consolação metafísica, e coloca:
[...] “metafisicamente consolados”, em suma, como findam os românticos cristãmente... Não! Vós deveríeis aprender primeiro a arte do consolo deste lado de
cá – vós deveríeis aprender a rir [...] talvez, em consequência disso, como ridentes
mandeis um dia ao diabo toda a “consoladoria” metafísica – e a metafísica em primeiro lugar! (NIETZSCHE, 1992, p. 23).
Tal reavaliação, escrita na fase final da produção de Nietzsche, traz o riso, a aprendizagem do riso e o saber rir (tornar-se ridentes). A capacidade de rir que dispensaria a necessidade de consolo ou de toda uma “consoladoria metafísica”, através da possibilidade de se colocar no “lado de cá” e desde aí rir (da própria metafísica e das coisas tidas como sérias). “O lado de cá” refere-se a este mundo, tal qual estamos vivendo, não um mundo metafísico, transcendente e ideal. Este mundo e esta vida que não carecem de consolo, nem de metafísica, e que, segundo Nietzsche, merecem a glorificação e a capacidade de afirmação trágica e dionisíaca.
Tanto no NT, quanto em várias de suas obras, Nietzsche realizará uma forte crítica à metafísica pelo forjamento Ideal do mundo e do ser humano, em detrimento e depreciação a este mundo e este homem – aqui e agora, que estamos sendo e em vias de vir-a-ser.
A metafísica configurou um mundo ideal em que a arte é desterrada e negativada, considerada um equívoco, uma mentira, uma espécie de difamação e deformação da verdadeira natureza, distante da Verdade, do Belo, da Essência e da Ideia a serem almejados e atingidos. O trabalho da metafísica também incutiu a dicotomia entre corpo e alma (intelecto), o menosprezo e a abolição do corpo, considerado como torpe invólucro (prisão e tumba da alma143), vulnerável ao arrebatamento de perniciosas paixões e sensações. Apenas a Ideia pura, através da razão, estaria capacitada à ascensão ao mundo perfeito, isto é, um além-mundo ideal. Para Nietzsche, a metafísica, o cristianismo e a moral são obras dos que tem fastio da vida, portanto não correspondem e são incompatíveis com o páthos dionisíaco ou trágico, com o pensamento, a existência e a afirmação trágicos.
Para Nietzsche, especialmente em suas produções posteriores, não há o que consolar, mas o que afirmar – afirmar aqui e agora, neste mundo, este mundo, este homem em contínuo processo de vir-a-ser, transformação e criação. A afirmação da vida relaciona-se ao saber trágico, e Nietzsche aporta Dionísio como símbolo máximo da afirmação trágica.
Neste movimento, Nietzsche põe em jogo uma série de contraposições, conclama e afirma a existência necessariamente atrelada e comprometida a este mundo, e não a um mundo ideal e metafísico. Traz a potência e a configuração do mundo como proliferação incessante e múltipla de aparências (criações e transformações de formas e sentidos), questionando a busca e a existência de uma suposta essência metafísica, recôndita, reveladora de uma verdadeira identidade ou ser.
Nietzsche enaltece a arte como forma fundamental de conhecimento, criação e potência, o que faz com que ele proponha uma perspectiva estética da existência – para que a vida se torne uma obra de arte. Assim como, o corpo é considerado uma “grande razão”, uma via para a aquisição constante de uma “grande saúde”144. Para o filósofo, o corpo um campo dinâmico de forças (de relação de afetos e impulsos plurais), perpassado pelo contínuo movimento cambiante de embates e rearranjos de forças múltiplas da vontade de potência145.