Como diz Rubem Alves (2004, p. 48):
O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era "ferramenta" e "brinquedo" do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender "ferramentas", aprender "brinquedos".
Compreendemos que existe uma relação de interdependência entre os conceitos de corpo, cultura e ambiente e que a partir da reflexão sobre a importância desta conexão perceberemos suas implicações para a ação educativa. A melhoria da qualidade da educação básica além de ser um dos temas recorrentes em qualquer debate pedagógico, é também um anseio da sociedade com relação ao futuro de nossa humanidade. Sendo assim, seria utópico imaginar que a educação por si só seja suficiente para eliminar os problemas da humanidade, entretanto o desafio para EA está justamente aí: antecipar a aparição de problemas e funcionar como uma vacina e não em remédio curativo.
Quando falamos em educação, não nos referimos somente às escolas, mas aos processo educativos que ocorrem dentro e fora dela, que se ligam por meio das diversas esferas da vida, dos processos que ocorrem na e para prática educativa, nos currículos da escola e nos currículos da vida. A educação não está separada da comunidade, da cultura, do corpo, do ambiente, ela não é uma caixa de conhecimentos descontextualizadas da vida real. Seguindo a inspiração dialética e dialógica, percebemos a expressão da conexão entre processos inter (sociais) e intra mentais (psicológicos) e as possibilidade de múltiplos sentidos e significados.
Uma das primeiras etapas nos processos educativos, pensando em educação ambiental, é (RE) descobrir quem somos, como nos relacionamos com as pessoas a nossa volta e como nos situamos no mundo que habitamos. Essas três dimensões justificam a compreensão dos
processos da identificação do sujeito(eu), das relações sociais(outro) e do lugar vivido (meio ambiente). Assim ao pensar a educação ambiental, sugerimos iniciar com uma conscientização de nossa ecologia interna, ou como diz Guattari (1990), realizar a ecosofia. Ou seja, refletir sobre nossa identidade, nossa subjetividade humana, nossos valores, nossas percepções de mundo e dos fenômenos.
Para o autor acima mencionado, (1990, p.15-16) a ecosofia:
[...]consiste em desenvolver práticas especificas que tendam a modificar e a reinventar maneiras de ser[...]. [...] reinventar a relação do sujeito com o corpo, com o tempo que passa, com os “mistérios” da vida e da morte, [...] procurar antídotos para a uniformização[...].
Assim, pensamos que a educação se instaura no cruzamento de múltiplos componentes, relativamente autônomos uns em relação aos outros, e as vezes discordantes. Não basta pensar para ser, como apregoava Descartes, existem várias maneiras de existir, de estar no mundo, fora da consciência, e o sujeito se obstina a apreender em si e na relação com os outros e com o mundo.
Compreendemos que o processo de produção do conhecimento é constituído nas interações sociais, mediados pela cultura, que determina as formas de aprender, de ensinar, de produzir e sistematizar as experiências vivenciadas no cotidiano dos grupos sociais e nas instituições em que o sujeito participa. Nesta concepção, a educação é um mecanismo social eficiente para a formação e humanização, considerando que toda pessoa é capaz de aprender e possuir um potencial a ser desenvolvido. Esta afirmação justifica-se pelo fato de o sujeito nunca estar pronto e acabado, mas em constante processo de desenvolvimento, de aprendizagem sobre si, sobre os outros e sobre o meio a sua volta.
Para Vigotsky (2007), a aprendizagem é fonte do desenvolvimento, pois engendra a área de desenvolvimento potencial, em que o processo de desenvolvimento segue o da aprendizagem, e, portanto, esses dois processos não são coincidentes, nem paralelos e não se produzem de forma simétrica, mas são diretamente ligados e influenciam-se reciprocamente. Segundo o autor, o ensino escolar orienta e organiza os processos internos de desenvolvimento. A natureza do desenvolvimento vai da transformação do biológico para o histórico-social. É a apropriação ativa do conhecimento social disponível, que tem como perspectiva um mediador especificamente humano, a linguagem.
Partindo de uma perspectiva interacionista, já discutida anteriormente, a educação ambiental discutida entende que na constituição de cada sujeito há uma construção social, mediado pelo
contexto cultural propiciando um desenvolvimento influenciado pelas dimensões históricas e sociais. Essa EA visa promover transformações das funções mentais e do mundo externo, refazendo o sentido da vida e de sua realidade, ressignificando o mundo externo e a si mesmo.
Esse desenvolvimento se dá primeiro entre as pessoas para depois ocorrer no sujeito (VIGOTSKI, 2007), num processo chamado de internalização. O sujeito vai aprendendo o significado dos símbolos e signos culturais presentes em seu contexto, os quais são transformados pelas subjetividades e desta maneira constitui sua identidade a partir do que lhe é transmitido.
O ser humano aprende e se desenvolve ao longo de toda sua vida, pelo seu modo de ser, de fazer, de conhecer, de acordo com o lugar em que vive, pelos hábitos, valores, costumes, formas de linguagem e cultura que partilha na interação social. Do ponto de vista geral a aprendizagem é entendida como uma mudança de comportamento, em que inicialmente o sujeito não sabia e posteriormente passa a saber, não possui a informação e em seguida passa a ter. Não demonstrava habilidade e passa a demonstrar Não sabia fazer algo e passa a ser capaz, hábil e competente para fazê-lo. Não estava acostumado a conviver com determinadas situações ou pessoas e passa se relacionar em constante interação. Não basta, contudo, apenas ter a informação, conhecer e enunciar conceitos, necessita aplicar o conhecimento produzido ou adquirido, utilizar coerentemente a informação na vida prática, numa transformação de si mesmo e de sua realidade para que as novas atitudes, habilidades e competências sejam consideradas apreendidas.
Neste contexto de aprendizagem o ambiente funciona como como uma categoria sociológica, que vai se modificar a partir da teia “[...]de relações complexas e sinergéticas geradas pela articulação de processos de ordem física, biológica, termodinâmica, econômica, política, cultural” (LEFF, 2001, p. 282). O ambiente engloba fatores vivos e não vivos, mas também engloba (e é englobado) por fatores sociais, saberes culturais e valores corporais. Esse conceito de ambiente vem reconfigurar o sentido de habitat e de habitar. Nesta visão, os processos de organização e ocupação de território são definidos pelos indivíduos que habitam, pela cultura e pela práxis que o transformam. Corroborando com Leff(2001, p. 283) “O habitat é habitado pela condições ecológicas de reprodução de uma população, mas, por sua vez, é transformado por suas práticas culturais e produtivas”.
Uma maneira de iniciar um projeto de educação ambiental inscreve-se em considerar outras perspectivas de compreensão dos fenômenos para além da ecologia, levar em conta as comunidades locais, reinventar os currículos, recuperar histórias e memórias, dialogar com o
corpo, integrar espaços e fronteiras, entre tantas outras possibilidades. Esse “novo” ambientalismo consiste em esforçar-se para que os projetos continuem existindo, ainda que modifiquem o fluxo dos tempos e as exigências das novas eras. Os múltiplos olhares nos farão descobrir que, mesmo através de conflitos inerentes aos processos de integração e desintegração, as realidades não são iguais. Jamais um conceito hegemônico poderá dar uma dar conta e propor explicação sensata e satisfatória. O corpus de conhecimento estabelecido pela EA não é uma patologia do capitalismo, visa construir um cidadão crítico e pensante que se configura na polissemia de sentidos, ainda que sem certezas. Devemos exercitar uma visão sistêmica, ou seja, uma compreensão de que o universo se revela como uma rede de fenômenos interligados e interdependentes, a fim de compreendê-los como uma ferramenta importante para compreensão e apreensão da realidade. Estamos falando de um olhar ecológico, inter-relacional, sistêmico, histórico, corporal, ético, social, entre outros.