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Seguindo a inspiração dialética (expressão cunhada pela filosofia e apropriada por Karl Marx em suas discussões sobre materialismo histórico e sobre a arte da discussão e da argumentação), e dialógica, expressão utilizada por Mikhail Bakhtin, para expressar a conexão entre processos inter (sociais) e intra mentais (psicológicos), como polifonia (muitas vozes) e possibilidade de sentidos e significados, discutiremos o processo de construção da corporeidade a partir do entrelaçamento do corpo com a cultura.

Cultura Corporal ou Experiência Corporal ou ainda Corporeidade é a forma de se expressar no mundo, é a cultura, é o corpo, é o que a história nos conta por meio das expressões corporais, que, como a linguagem, se expressa de formas diversas e variadas, bem além das possibilidades já sistematizadas em termos de conteúdos escolares, embora também por eles se expressem. Olhar a forma como as trançadeiras tecem, os pescadores pescam, as varredoras de rua varrem, a sua mãe faz doces... todo o universo de ações e expressões corporais, como você acarinha a sua filha, como as pessoas agem no mundo... Isso tudo é Cultura Corporal.É “[...] parte do acervo da humanidade e por isso indispensável ao conhecimento escolar para o entendimento da realidade social e do mundo do trabalho” (SILVA, 2004).

A cultura corporal deve ser compreendida em sua ampla possibilidade, contextualizando e relacionando-a aos interesses políticos, econômicos, sociais, culturais e que considere seus aspectos históricos e ambientais. Uma perspectiva que abarque o corpo no mundo e sua cultura, além das práticas corporais diversas produzidas e transmitidas historicamente através dos jogos, brincadeiras, esportes, danças, lutas e outras manifestações que são produzidas socialmente, culturalmente e corporalmente na relação do ser humano consigo mesmo e com a natureza. Nosso entendimento de cultura corporal foge do âmbito exclusivo do componente curricular da Educação Física, justamente por se aliar aos pressupostos da Educação Ambiental, assumindo uma postura de abertura a novos saberes, situando intencionalmente na contracorrente da disciplinaridade.

O corpo é assim, um território primordial onde a cultura vive em todo indivíduo. O lugar onde ela se manifesta e se revela sensível, viva. Desde o nascimento, admite-se que, até mesmo antes, a cultura é transmitida pelos mais velhos aos mais novos. Estes recebem-na sem contestação, inscrevem-na profundamente nas suas estruturas psicofisiológicas a partir de sua sensibilidade. É assim, no corpo que as primeiras marcas da cultura são inscritas profundamente no indivíduo.

Manifestações e práticas corporais foram elaboradas ao longo da história da humanidade e expressam sentidos-significados próprios das culturas e territórios em que surgiram e se desenvolveram, bem como um deslocamento de sentido em função do modo de produção e do jogo de poder estabelecido socialmente. É como a realidade se materializa nos corpos e como estes reagem a essa realidade, suas ações, posturas e práticas que são corporais e que dialética e dialogicamente se relacionam com o trabalho, cultura, lazer e a vida como um todo.

A corporeidade é o ensaio humano materializado, admite uma análise profunda de si, dos outros e da realidade do mundo. O reconhecimento enquanto corpo autoriza a crítica numa escala plural e singular, assim aproximando o indivíduo de sua natureza. A cultura corporal comporta em si um posicionamento no mundo e evidencia a “[...] necessidade de desmitificar certos modelos de corpo, propostos ideologicamente em nossa sociedade, precisa ser acompanhada de uma outra que avance em direção a uma visão mais revolucionária do corpo” (MEDINA, 2005, p.22).

Em estudo também realizado na mesma Vila recentemente, Brito(2012) percebe a íntima relação entre corpo e cultura no discurso dos moradores daquela localidade sobre as brincadeiras. Concluiu com sua pesquisa que a brincadeira expressava um perfil estético de imagem corporal da pessoa branca e loira como se fosse algo distante da realidade próxima, algo diferente e até como uma forma de “superioridade”, fruto de motivações históricas e culturais dentro de uma comunidade de pessoas pobres financeiramente, de pele escura e cabelos crespos. Para o autor é evidente que “a brincadeira, assim como outras atividades e práticas corporais (jogos, esportes, danças e etc.) que compõem a cultura corporal, está inserida dentro de um contexto sociocultural e é influenciada por isso” (2012, p.59), portanto as brincadeiras, como toda manifestação da cultura corporal, costumam expressar a materialidade da cultura vivenciada, a exemplo dos moradores daquela comunidade, de acordo com as condições ambientais e possibilidades que tinham, expressando a realidade e as potencialidades locais.

A inteligência humana permitiu significativamente o desenvolvimento da civilização e uma das formas encontradas foi por meio do aperfeiçoamento da linguagem o que tornou possível o convívio com outros indivíduos e a consciência de si como ser social. É neste momento de construção da história da civilização que o desenvolvimento da cultura se liga intrinsecamente a corporeidade pois permitiu o desenvolvimento de características e habilidade só presente no ser humano.

A cultura corporal é decorrente da maneira como os indivíduos assimilam e materializam os fatos e, mesmo que tenham vivido situações similares, as marcas resultantes são tão particulares como a individualidade de cada um. Tudo que é percebido fica registrado, fica armazenado na nossa memória corporal e cognitiva. A cada nova experiência comparamos as informações recebidas com as que já estão registradas e a partir daí formam-se novos registros. Assim, nossa expressão corporal vai sendo construída com base na forma com que percebemos a realidade do mundo a nossa volta, como também sofre modificações a cada nova vivência.

Silva (2004) analisa muito eloquentemente a proposta de cultura corporal como um contraponto ao entendimento que ultrapassa os aspectos bio-fisiológicos.

Os conteúdos – manifestações da cultura corporal – não poderiam ser pensados e nem explicitados isoladamente e, sim, vinculados à realidade social. Esta proposta que parte do entendimento da cultura corporal como uma totalidade formada por distintas práticas sociais – corporais, como o jogo, a ginástica, o esporte, a dança e a luta – se diferencia da que historicamente predominou na escola (balizada pelo parâmetro da aptidão física, do rendimento, da saúde).

É nessa perspectiva que aspectos físicos, cognitivos, afetivos e sociais interferem diretamente na construção da cultura corporal de cada um. Uma imagem internalizada e representada em processos que envolvem funções mentais superiores como percepção e memória, sentimentos, símbolos, signos e significação. Um verdadeiro caleidoscópio onde se fundem imagens, cores, cheiros, sabores, texturas, sentidos, significados, experiências e aprendizagens que se movimentam, mantém e transformam-se o tempo inteiro.

O que vemos, ouvimos, experimentamos, sentimos, tem muitos significados para nós. Essas vivências e experiências vão orientando e “disciplinando” o nosso olhar, definindo nossa visão de mundo e de nós mesmos. A forma como percebemos e conceituamos nosso corpo (imagem corporal), é fruto dos estímulos que recebemos do ambiente e do significado que eles têm para nós. Como analisa Sant’Anna (2000, p. 50):

O corpo, tal como a vida, está em constante mutação. As aparências físicas demonstram de modo exemplar esta tendência: elas nunca estão prontas, embora jamais estejam no rascunho [...]. Cada corpo, longe de ser apenas constituído por leis fisiológicas, supostamente imutáveis, não escapa à história.

Como seres sociais e culturais, estamos o todo tempo trocando informações e conhecimentos. Essa dinâmica permite diferenciações, comparações, atualizações. Assim, a nossa imagem corporal não só vai sendo construída, mas modificada, transformada, (re)estruturada. Sentimentos, emoções e significados simbólicos são, portanto, elementos fundamentais na

construção das subjetividades e da nossa autoimagem. Na essência do socio-interacionismo (VIGOTSKY, 1993) é a aprendizagem através das trocas, da intermediação, da presença do outro em nossas vidas.

Novamente é preciso retomar o desafio da educação ambiental em compreender o desenvolvimento humano de forma integrada, em que corpo e mente não se dissociam. Compreender de forma clara o papel das interações sociais, especialmente nas escolas, na construção da cultura corporal e a importância do outro na constituição das subjetividades de cada um. Silva(2009, p. 261) afiança que o sujeito histórico deve superar a descontinuidade entre corpo (registro da quantidade) e espírito (registro de qualidade).

O sujeito é marcado pela particularidade de seus movimentos, pela especificidade de seus gestos e atividades sociais. Com isso, as diferentes formas de experiência corporal (cultura corporal) nos indicam justamente que o sujeito assume sua existência de maneira decisiva, numa direção oposta à submissão e docilização corporal. [...] O corpo é antes de tudo, uma força produtiva específica, uma possibilidade de nos reinventarmos a todo o momento.

É neste sentido que a Educação Ambiental visa contribuir com a não normatização do processo de modelação de corpos e da cultura dos sujeitos, implica dizer que a EA pretende ser uma possibilidade na constituição de um estilo de vida. Estilo de vida que envolva novas formas de se apropriar do meio ambiente, de entender o corpo e de se relacionar com ele com os saberes locais para então se tornar um ator social.

A construção da corporeidade é um complexo processo que tem início na infância. Nesta construção diferentes fatores, interligados, nos constituem como seres singulares (únicos), e plurais (fruto de diferentes culturas, etnias, contextos...). Seres dotados de sentimentos, emoções, percepções, expressões psicológicas, físicas, motoras. Como afirma Gonçalves (1994, p. 152), em seus estudos sobre corporeidade, o corpo sente, expressa, comunica, cria e significa intermitentemente:

A relação de unidade do homem com o mundo é uma relação viva e funda-se na sensibilidade. O sentir é anterior ao pensamento (...) Na experiência corporal, sensação, percepção e ação formam uma unidade indissociável. O corpo sente, ao mesmo tempo que estrutura a percepção e se move. Os sentidos se intercomunicam, formando uma síntese perceptiva (...) O pensar assenta-se sobre essa experiência, em que o homem se abre para o mundo.

É preciso, portanto, educar meninas e meninos para a sensibilidade, a diversidade, a pluralidade, a aceitação de si e do outro, do corpo, da cultura Para que, reconhecendo a igualdade na diferença, possam exercitar suas potencialidades como sujeitos históricos dotados de inteligência, razão, capacidades, vontades. Aparato biológico(corpo) e experiência

sensorial(espiritual) dialogam e se entrelaçam em processos que envolvem sentidos, sexo, genética, cultura.... Não anulamos um para que o outro sentido se manifeste. Uma música, um toque, um sabor, um perfume, um olhar, acionam em nós memórias do que vimos, vivemos e experimentamos como seres humanos, sem que precisemos classificar, teorizar, justificar, explicar, hierarquizar. Sinapses, conexões, e memória constroem aprendizagens. Em diferentes níveis as realidades se misturam, dialogam, interagem, entrelaçam.

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