2. STRATEGY IN DEFINING THE CHARACTERIZATION PROGRAMME
2.6. Organization and responsibility
O Futebol demanda um deslocamento social entre os Kaingang de Palmas.
Este esporte assume uma importância fundamental na vida social Kaingang não
apenas em Palmas mas também em quase todas as Áreas Kaingang da região, como
aponta Tommasino (1995) com os Kaingang do Tibagi e como pude constatar entre
os de Mangueirinha e Xapecó. A equipe indígena de Mangueirinha, por exemplo, é
37 A relação de pais e alunos desta escola estão no anexo 4. Decidi incluí-las para que próximas etnografias realizadas na Area de Palmas possam ser remetidas aos nomes contidos nas listas. O mesmo efeito foi produzido durante meu trabalho de campo com o texto de Loureiro Fernandes (1333) que continha urna listagem dos Kaingang da época, parentes de muitos de meus inforittuntes. Todas as vezes em que pude mostrar a lista de Loureiro, os Kaingang falavam — numa espécie de exercício de rememorização coletiva, pois envolvia sempre a rede familiar presente — da saudade dos parentes relacionados e dos casos trágicos ou cômicos da vida destes.
famosa na região e entre os Kaingang de Palmas por conquistar seguidamente
torneios municipais (do município de mesmo nome), regionais e torneios entre
equipes indígenas. No Xapecó, existem vários campos de grama e de terra, de
diversos tamanhos, demarcados ou improvisados e uma quadra coberta, com
iluminação onde se realizam jogos noturnos.
No caso dos Kaingang de Palmas, muitos velhos afirmam que o Futebol fora
praticado por eles desde a infância, e que sempre se saíam bem em torneios com os
Brancos de Palmas ou da região. Contaram-me também que por serem temidos como
equipe de Futebol, muitas vezes os Brancos não os convidavam ou se recusavam a
disputar as partidas com eles, sob a alegação de que os Kaingang jogavam com
violência e deslealdade. Desta maneira, ao menos nos últimos 60 anos ou mais, os
Kaingang conseguiram montar e desmontar equipes que ora eram aceitas, ora
recusadas.
Durante meu
trabalho de campo, pude
acompanhar de bem perto o
espaço, o tempo e a paixão
que os Kaingang, criança e
j t
adultos, homens e mulheres, dispensam aos I Foto: Kamgang marcando um
90
! ; jogos de Futebol. Em tardes quentes dos fins de semana é comum ver nas encostaspartidas improvisadas por meninos e adultos até torneios e "jogos amistosos".
Acompanhei-os também na rearticulação das equipes e na disputa de alguns
torneios em lugares como acampamentos de Sem-Terra, cidades vizinhas e bairros
da periferia de Palmas. Para chegar aos torneios, “viajávamos" ora de trator, ora
de carona, ora na carroceria aberta e apertada de algum caminhão emprestado
para estes eventos. Sempre disputando com duas equipes, a montagem das mesmas
sofria a interferência das Lideranças da Área que reservavam vagas para filhos e
genros de seus membros. Desta maneira, nem sempre a equipe considerada como a
principal, era a que obtinha melhor desempenho e sucesso dentro do campo de
Futebol.
Os Kaingang conseguiram as primeiras colocações dentro da maioria destes
torneios que vi entre julho e setembro de 1997. As premiações eram as mais
diversas: troféus, caixa de cerveja, dinheiro vivo, porcos, ovelhas, bezerros e bois.
Na volta destes torneios para a Área, havia sempre menos espaço nos veículos que
nos conduziam, que eram então ocupados pelos prêmios. Tais prêmios foram
incorporados aos rebanhos comunitários da ACIPA.
O Futebol pode permitir, então, a interação e integração social dos
moradores da área entre si, destes com outras áreas e com a população e equipes
da cidade de Palmas, dado que vários amistosos são marcados com os Kaingang e
dado que alguns Kaingang participam de equipes rln cidade nas comoetições
municipais e regionais. Além disso, o Futebol permite a afirmação da etnia perante
N
a sociedade, já que são "temidos“ e respeitados como o "time dos Kaingancj' ou
simplesmente o "time dos índios".
Por outro lado o Futebol pareceu marcar a tensão das relações entre
Brancos e Kaingang de Palmas. Esta tensão se revelou no fato dos Kaingang terem
participado de um "teste" para incorporação na equipe do município de Palmas — o
i
"Caxias" — que subiu da terceira para a segunda divisão do campeonato estadual
paranaense. Indiquei alguns, em quem reconhecia mais talento futebolístico (um
conjunto de qualidades físicas tais como, velocidade, agilidade, força, "timing" e um
bom trato com a bola nos pés) para a realização de tais testes.
Não pude acompanhá-los nestes testes pois coincidia com minha saída do
campo. Quando voltei dois meses depois, perguntei a vários deles como tinham se
saído no teste: "ninguém passou, mas se fosse o p ro fe sso r (como alguns me
chamavam), certam ente e n tra ria no tim é'. Retruquei dizendo que não possuía tal
capacidade: "mas o p ro fe sso r é brancd', disseram, tentando expressar o possível
preconceito que sofreram no teste.
À primeira vista, o fato relatado poderia mesmo demonstrar a resistência
de integração entre índios e Brancos. Por outro lado questiono até que ponto os
Kaingang não se utilizaram de um discurso de vitimização da condição indígena para
justificar um possível fracasso no teste. Pertencer à equipe citadina, a uma equipe
profissional envolve questões que poderiam ser comparadas à questões do Futebol
*
brasileiro. E comum que qualidades futebolísticas não sejam propriamente as 90
principais prioridades de algumas equipes. O que procura um dirigente em seus
atletas? Nem sempre é um Futebol bem jogado. As vezes o que se procura é
acobertar atletas apadrinhados, ou mesmo se procura acatar as determinações de
uma empresa patrocinadora. Tudo pode ter ocorrido, inclusive o preconceito.
Fotos; torneios de futebol com a participação das equipes Kaingang
3. Sis t e m a de Cu id a d o s co m a Sa ú d e
V e think o f m edicine as a sym bolic form through w hich reality is form ulated and organized in a distinctive manner". (Good, 1990)
Os estudos de Antropologia da Saúde tiveram seu impulso inicial a partir,
deste século com Rivers nos anos 20, Clement nos anos 30 e Ackerknetch nos anos