3. IMPORTANT FACTORS TO CONSIDER IN DEFINING A WASTE
3.2. Accuracy considerations
3.2.4. Measurement methods
Dentre os setores de cuidados com a saúde dos Kaingang, os indivíduos
encontram, primeiramente, a doença na família. As decisões instituem terapias com
modalidades de tratamentos já conhecidos pelos membros da família. A família
também consulta suas redes de relações mais diretas, ou seja, amigos, vizinhos,
parentes, a respeito do que fazer com a doença.
Decididamente, as mulheres dentro das famílias estão mais envolvidas com
as decisões sobre a saúde (principalmente dos filhos) que os homens. Isto foi
alertado aos homens numa reunião da Liderança que assisti, para que atuassem
mais. Mas a predominância do papel das mulheres na tomada de decisões não
discursos aqui presentes demonstram, os membros dás famílias Kaingang de Dona
Luiza e de Twãk (homens e mulheres indistintamente) foram os primeiras a
perceber, interpretar, a tentar identificar as doenças e a indicar os possíveis
tratamentos.
Como dissemos anteriormente, a população da Área Indígena de Palmas está <
em cerca de 630 pessoas. Isto torna as redes de relações familiares bastante
próximas umas das outras, abrangendo a maior parte da população local. Ou seja, o
fato de haver uma população relativamente reduzida, implica em casamentos entre
parentes próximos e, portanto, na constituição de uma rede de parentesco
bastante estreita. Em outras palavras, a maioria dos Kaingang de Palmas possuem
algum vínculo de parentesco entre si. Esta consideração é importante para pensar
que a busca de soluções de saúde abrangeW-uma rede de relações mais extensa e
complexa, que pode envolver ou não diversos especialistas de dentro da Área.
3 .2 .2 S etor Tradicional entre os K aingang
O setor tradicional está representado nas categorias de especialistas que
os Kaingang de Palmas identificam em seu grupo e que servem para expressar sua
especificidade. Este é o seu sentido "êmico" ou a expressão utilizada por Geertz
(1998) — "experiência próxima", que significa a maneira que um nativo descreveria
"aquilo que seus semelhantes vêem, sentem, pensam imaginam etc. e que ele próprio
entenderia facilmente se outros o utilizassem da mesma maneira " (Geertz, 1998, 101
p. 87)40. O sentido da "experiência próxima" significa aqui o modo como os Kaingang
de Palmas reconhecem e classificam as práticas nativas de cura e tratamento.
Estas categorias do setor tradicional são apresentadas da seguinte maneira:
temos a f igura do Curandor, a dos Benzedores (as), a dos Herveiros (as) e a das
Parteiras. Existe também a categoria dos Rezadores do Kiki. Associadas
intimamente às praticas destes especialistas, estão duas noções: as noções de
força e de cuidados corporais, e o que é o veículo principal das terapêuticas locais,
ou seja, o conhecimento e a aplicação dos chamados "remédio-do-mato" e suas
dietas.
A . Noção de Força (Tár): A noção de Força para os Kaingang de. Palmas pode ser
associada primeiramente com a forma de organização social do grupo— a divisão de
metades exogamicas — e com a forma de nominação. Os Kaingang de Palmas, que
foram descritos por Metreaux (1946) como "Kamés", dizem ser esta a situação
atual, ou seja, que em Palmas, como antes, sempre teve muito mais Kamédo Kairú. E
Kaméé mais forte do que K airú — como, aliás, deScreve a mitologia de origem do
grupo — porque veio à terra primeiro e por isto é considerado mais forte. Pude
mesmo constatar certa jocosidade com que os Kamé se referem aos Kairú, ao 102
40 Para Geer+z (1998) o conceito de "experiência próxima" opõe-se ao conceito de "experiência distante", ou seja, "aquele que especialistas de qualquer tipo — um analista, um pesquisador, um etnógrafo, ou até um padre ou um ideologista — utilizam para levar a cabo seus objetivos científicos, filosóficos ou práticos" (Geertz, 1998, p. 87).
descreverem estes como de natureza mais fraca que a do Kamé, no sentido de que
eles são menos capazes para trabalhar e são mais suscetíveis a ficar doentes.
Outra explicação da noção de força está ligada ao sistema de nominação41.
Quando uma criança nominada em uma das metades nasce ou se toma fraca {Xín
K rõiri), ela pode receber também o nome da outra metade e se tornar Péne, ou seja
aquela que tem as duas marcas e que é considerada como tendo funções
cerimoniais. Esta característica da dupla nominação tem como função garantir que
as crianças fracas se tornem fortes. Isto ocorre com os Péríe em Palmas, para
aquelas famílias que ainda nominam seus filhos pelo sistema das marcas, segundo
contou-me Seu João Maria. Este é o caso de seu filho Durval, de 55 anos, que
nasceu Kamé mas era uma criança fraca, recebendo então a outra marca
Tornando-se Péne, ele restabeleceu sua força ( Tàr).
A noção de força se caracteriza pela oposição que os Kaingang de Palmas
utilizam entre Tàr (forte, força, fortalecer) e K róin
(fraco, fraqueza, enfraquecer, adoecer), ou entre Tár
e Kangá (doente, sendo que o estado K róin leva
inevitavelmente ao estado Kangà) para explicar
Foto: Durval \ algumas diferenças entre estar ou não doente. Ou seja, para i
eles, os Kaingang possuem uma "natureza" Tár (e os Kamé mais que os K airu) e esta
41 Segundo Veiga, "cada metade possui um repertório de nomes e a pessoa receberá um nome do
estoque dos nomes da sua metade, cujo pertenci mento é automaticamente estabelecido por
nascimento'1 (Veiga, 1994, p. 13).
noção se liga às condições de viver o cotidiano de seus papéis dentro da vida social
e econômica do grupo. Desta maneira, quando um distúrbio os atinge eles não negam
a ocorrência dos sintomas (quando se sentem Króin), mas não tão facilmente
admitem estar doentes (Kanga), enquanto lhes for possível viver tal cotidiano. Em
outras palavras, mesmo identificando alguns sinais da doença em seus corpos, os
Kaingang podem considerar que não estão doentes e tentam lèvar normalmente
suas atividades cotidianas.
Foi o que percebi quando houve o surto de gripe em junho de 1997 em
Palmas, muitos só se consideraram doentes, quando não podiam mais lidar com suas
atividades e, literalmente, caiam acamados. No caso da doença de Dona Luiza, os
outros membros de sua família que também estavam doentes, "extraíam TáH' de si
próprios com o propósito de ajudá-la e acompanhá-la, como pôde ser notada na
disposição dos passos de Seu João Maria para visitá-la no dia seguinte ao seu
internamento. Na mesma época, outros Kaingang insistiam em manter suas
atividades, se não os serviços do roçado, ao menos atividades como buscar lenha,
remédios na enfermaria ou alimentos na cidade.
O fato dos Kaingang considerarem-se Tár parece ainda marcar a identidade
do grupo e marcar a diferença em relação aos Brancos. Tal diferença aparece
indicada por eles no sentido de que os Kaingang, “gente do mato", possuem mais
Tár, ou seja, têm mais força c rcsistcr.cic física que cs Brancos da cidade. Ouvi
Capítulo H . "A g e n te fic a m ais levicm é' (n© sentido de leveza: agilidade e
velocidade), diziam, fazendo questão de reafirmar esta diferença a cada torneio
que venciam.