O ensino de Ciências tem como prerrogativa preparar o cidadão para entender não apenas os conceitos científicos, mas como esses influenciam sua vida, tanto positivamente quanto na possibilidade de alguns prejuízos. Faz parte do processo de ensino fornecer subsídios científicos para que o próprio aluno – mediado pelo professor por meio de diferentes ferramentas pedagógicas – possa ter um olhar crítico sobre os acontecimentos sociocientíficos que o permeia, com capacidade de intervir para a transformação social dele e da sociedade onde se insere. Dessa forma, essa formação científica pode ser entendida como Educação Científica.
Porém, o termo ainda levanta muitas discussões, já que a literatura mundial tende a colocar como sinônimos letramento científico, alfabetização científica e educação científica, o que não é verdade.
Sasseron e Carvalho (2011) explicam que o termo letramento científico é usado partindo do significado da palavra letramento para a linguística. Assim sendo, o letramento científico seria definido como um conjunto de práticas que o cidadão
utiliza para interagir com o seu mundo e com as particularidades que o mesmo apresenta, entre elas a ciência e a tecnologia.
Fig. 35 – Cebolinha e as placas de trânsito O papel do ensino de Ciências
Mais do que informar conceitos, o papel do ensino de Ciências é levar o cidadão entender o mundo, com certa criticidade. É o exemplo presente nessa tirinha: mais do que ler os sinais de trânsito, é preciso compreender sua funcionalidade em auxiliar em nosso percurso diário. É enxergar além do símbolo, vendo uma perspectiva mais ampla. Pois, como apresentado na história, tudo que sobe tende a descer, e ao ler além dos símbolos, somos capazes de prever e evitar acidentes futuros (Figura 35).
Por isso, entendemos que tal definição limita o real papel do ensino de Ciências que não consiste apenas em fornecer conceitos científicos aos cidadãos, mas contribuir para uma formação mais crítica e transformadora.
Outro termo muito difundido entre os estudiosos da área de Didática e Ensino de Ciências é a Alfabetização Científica. Dentre esses pesquisadores, temos Attico Chassot (2003) que considera a alfabetização científica como um conjunto de
conhecimentos que facilitariam aos homens e mulheres fazer uma leitura do mundo em que vivem.
Chassot (2003) se apoia na crítica em relação à língua materna, considerando que dos alfabetizados sejam exigidos mais do que ler e escrever, é necessário a eles a criticidade. Nesse contexto, o autor afirma ser desejável que os alfabetizados cientificamente não apenas tivessem facilitada a leitura do mundo em que vivem, mas entendessem as necessidades de transformá-lo para melhor.
Fig. 36 - Deus e Adão debatendo sobre a culpabilidade do aquecimento global A alfabetização científica e a capacidade de “ler o mundo”
Chassot (2014) afirma que através da alfabetização científica, os cidadãos serão capazes de ler o mundo, compreendendo-o. Esse processo de entendimento sobre os acontecimentos ambientais, é feito através do questionamento aprofundado para entender como eles surgiram. A tirinha (Figura 36), construída por Carlos Ruas, levanta questionamentos de ordem ambiental e de valores em uma mesma história a partir do diálogo de dois personagens que se evidenciam pelo tamanho que cada um ocupa na cena. O maior representa o Criador da Terra “derretida”, já o menor, apesar de pequeno, questiona de modo incisivo o Criador, o que traz para a história um aspecto humorístico. Ela faz crítica direta a ação humana nos problemas ambientais, além de usar o alívio cômico para levantar a dúvida da origem da humanidade. Se utilizada com a mediação do professor, pode levar a diversas discussões sociocientíficas amplas e capazes de ampliar a capacidade de criticidade dos alunos.
Entendemos que a alfabetização científica é um caminho inicial na apropriação do conhecimento científico e crítico adquirido pelo aluno. Assim como na alfabetização linguística aprendemos a ler os símbolos para compreender o universo em nossa volta, na alfabetização científica nos iniciamos no universo científico e na influência que ele exerce em nossa vida.
Se na alfabetização científica iniciamos nosso aprendizado científico, é com a Educação Científica que ampliamos essa aprendizagem. Demo (2010) lembra que existe um consenso sobre a importância curricular da educação científica no ambiente escolar. Porém, tal percepção relaciona-se mais com o baixo rendimento escolar nas disciplinas científicas, ao invés do entendimento de que o desenvolvimento científico seja decisivo para o desenvolvimento do futuro do país.
Fig. 37 – O progresso e a transformação da natureza
A educação científica para a transformação social
O papel da educação científica é além de permitir o conhecimento científico, provocar o questionamento. Ela pretende mostrar a importância da ciência e da tecnologia, sem esquecer os malefícios possíveis a sociedade e ao ambiente, como apresentado na Figura 37, onde os personagens iniciam a história conversando sobre as palavras e conceitos indígenas. Sabemos da relação de respeito que os índios estabelecem com a natureza, por isso a tirinha apresenta a dicotomia entre os valores indígenas e do homem branco quando os chamam de caraíbas e os responsabilizam pelo desmatamento. Da mesma forma que o personagem questiona o progresso gerado pela ciência e tecnologia, o cidadão educado cientificamente questiona-se até que ponto o progresso científico é responsável pela desigualdade social e a poluição ambiental crescente em nosso planeta.
Para Demo (2010) a educação científica não deve ser utilizada para a promoção de eventos e atividades pontuais como ocorre muitas vezes nos ambientes escolares. Segundo ele, o conhecimento científico deve ser fluído, permeado nas atividades constantemente, de maneira intencional naquele ambiente. Ele deve fazer parte da formação docente e, principalmente, estar presente na formação do aluno. Saviani (2008) lembra a importância do papel da escola na socialização do saber científico, criticando as práticas reducionistas que diluem o currículo e comprometem a aprendizagem científica.
Outro ponto que a educação científica busca estimular é a criticidade. Isso porque o desenvolvimento da ciência e da tecnologia colaborou para o crescimento do conhecimento e, com o progresso científico, surge uma sociedade de conhecimentos limitados a conceitos científicos, sem uma análise crítica dos mesmos. Entretanto, a ciência tem dois lados: um positivo e um negativo; e o papel da educação científica é questioná-los. Ou seja, mais do que enaltecer a ciência e a tecnologia, o indivíduo precisa usar esses conhecimentos científicos e tecnológicos para o desenvolvimento de uma sociedade mais igualitária, socialmente responsável e ética (TEIXEIRA, 2003).
Concordando com isso, Demo (2010, p. 21) afirma que “em termos práticos, educação científica significa saber lidar com a impregnação científica da sociedade
para aprimorar as oportunidades de desenvolvimento”, ou seja, é preciso utilizar a
ciência e a tecnologia para melhorar a qualidade de vida da sociedade e da coletividade como um todo.
Sendo assim, Demo (2010) e Teixeira (2003) concordam que para que a educação científica seja efetiva e transformadora na prática escolar, são necessárias algumas condições que subsidiem essa mudança:
Novas estratégias de aprendizagem multidisciplinares, mediadas pelo professor, capazes de contribuir com a autonomia do aluno e com o desenvolvimento de sua criticidade.
Repensar a formação docente, buscando uma maior interlocução entre teoria e prática, valorizando a pesquisa na docência e o professor como pesquisador.
Transformar a escola em um ambiente de estímulo à pesquisa, ao questionamento, à criticidade e à produção de conhecimento.
Transformar o aluno em um pesquisador potencial, por meio de uma aprendizagem teórico-prática, mediada pelo professor e dotada de criticidade e questionamentos.
Com essas ações conjuntas e o conhecimento em constante construção e reconstrução, a educação científica se firmará como a engrenagem necessária para reconstruir o conhecimento escolar, mediado por professores pesquisadores.
Entretanto, Santos (2008) lembra que é preciso ter cuidado para evitar que a educação científica e tecnológica não se transforme em algo alienante, pois muitas vezes, a educação se disfarça de transformadora, quando na verdade ela apenas reproduz a ideia elitista de dominação social.
Por isso Vale (2009) observa a necessidade de integração entre o Ensino de Ciências e os debates elencados pelo movimento CTSA, a fim de promover uma educação científica capaz de possibilitar a apropriação de conhecimentos necessários não apenas para a tomada de decisões relativas às questões de ciência e tecnologia, mas também às discussões de aspectos históricos, sociais, políticos e econômicos que influenciam diretamente o modus vivendi da sociedade como um todo.
Assim, como explica Vale (2009), atingiremos uma educação científica libertadora, capaz de transformar o homem em um ser livre, com possibilidades de executar as escolhas necessárias e decisivas para promover não apenas a transformação social do indivíduo, mas também da sociedade como um todo. Uma educação dialética e com perspectiva revolucionária, que garanta a consciência de que sem organização social não existe uma transformação revolucionária na sociedade (SAVIANI, 1996).
4.2
Atividades propostas
O papel da educação científica é trabalhar as relações existentes entre Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente, fornecendo subsídios necessários ao cidadão para que o mesmo possa ter uma ação transformadora na sociedade, de maneira crítica e comprometida.
Por isso, as atividades propostas nesse capítulo buscam a promoção da educação científica mediada pela Arte para uma transformação não apenas pessoal, mas social na vida dos alunos.
PROPOSTA 1
Tema: Educação científica, Aquecimento Global, Efeito Estufa, Arte e Ciência. Objetivos: Trabalhar diferentes linguagens (verbal e visual) para discutir a importância do conhecimento científico para a redução do aquecimento global e suas consequências sociais, através da educação científica e do movimento CTSA.
Infográfico-base: "O efeito estufa " [REVISTA NOVA ESCOLA. O que é o efeito estufa
e quais as suas consequências. Disponível em:
<http://novaescola.org.br/geografia/fundamentos/quais-consequencias-boas-efeito- estufa-488078.shtml>. Acesso: 30. jun. 2016.]