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ORGANES D’ADMINISTRATION

PARTIE III : PRESENTATION GENERALE DE L’EMETTEUR

V. ORGANES D’ADMINISTRATION

O termo “jornalismo-cidadão” - ou jornalismo cívico - se tornou popular na última década do século XX. É uma espécie de conceito “guarda-chuvas” para muitas manifestações. Em teoria, conforme explica Kelly (2009), ele pode ser definido como o trabalho jornalístico feito por não-jornalistas (ou por aqueles que não trabalham profissionalmente em uma mídia). Essas pessoas testemunham, reportam, capturam, escrevem e disseminam informações (Kelly, 2009 p.1). Dessa maneira, as informações não são mais produzidas exclusivamente por poucos produtores credenciados para o acesso de muitos leitores - na concepção mais massiva desse termo - e sim por outras pessoas que não fazem parte da equipe do jornal ou televisão.

Além de “jornalismo-cidadão”, outra terminologia dentre muitas outras utilizada para descrever esse tipo de colaboração é o “conteúdo gerado por usuário”. Se for empreendida uma análise do termo, é possível demonstrar o quanto o papel de quem produz a notícia mudou no mundo contemporâneo. Nas décadas anteriores o que definia usuário - ou, melhor dizendo, leitores, telespectadores - era o fato de se estar no final da cadeia produtiva das notícias, ser um mero consumidor. Hoje em dia, muitos desses usuários se colocam com um papel ativo nessa produção, participando dela seja com suas opiniões a respeito do que vêem, seja produzindo conteúdo para essa mídia.

Gilmour (2004) coloca essa discussão dentro de um cenário de mudanças percebidas nas grandes empresas de comunicação. Durante todo o século XX, os conglomerados de

informação trataram os que consumiam as suas notícias como simples leitores de conteúdo. Alguém que porventura viesse a escrever uma carta comentando ou pedindo mais detalhes sobre uma notícia poderia no máximo ver alguns trechos da sua mensagem publicados em edições posteriores do jornal. Afinal de contas, quem detinha o monopólio da informação e discernia o que tinha valor enquanto notícia eram os jornalistas. Nos dias de hoje, na visão do autor, os consumidores de notícias atuam como em um fórum ou seminário, onde podem se expressar. Isso implica que tanto jornalistas quanto usuários gradativamente mudam suas atitudes de produção e interpretação das notícias (Gilmour, 2004 p. XIII).

Segundo Kelly (2006), essa participação dos cidadãos no jornalismo se tornou possível principalmente por causa do barateamento das tecnologias de imagem e texto (câmeras portáteis, aparelhos celulares, gravadores de voz), e também pelo aprimoramento da internet, que aumentou a possibilidade de tráfego de informações e vídeos através de sua banda larga. (Kelly, 2009 p.6) É preciso compreender que antes esse compartilhamento era possível - basta ver casos como o do massacre na Praça da Paz Celestial, em 1989 que só chegaram ao mundo por causa das câmeras dos turistas que visitavam a China na época34 -, mas as possibilidades e o acesso à essas tecnologias ainda não eram tão comuns.

Esse novo cenário da comunicação traz a possibilidade de intercâmbio maior entre leitores e espectadores de programas e temas comuns à sociedade. Eles podem debater entre si o que vêem - e escolher em qual versão da história acreditar. E essa interação não acontece somente entre leitores: os canais de comunicação com os jornalistas e produtores de conteúdo em geral também se multiplicou; nos dias de hoje todos os principais jornais impressos brasileiros e mundiais possuem sites na internet onde é possível entrar em contato com os jornalistas via e-mail, ou mensagens em tempo real (Imagem 9)

Figura 11 - Redação Sportv em uma rede social: apenas um entre muitos exemplos possíveis da relação entre telespectador e a televisão mediada pela internet.

Fonte: Twitter do Sportv. Sítio da Internet. Disponível em: <twitter.com/Redacao_Sportv>. Acesso em 25/09/2014.

A prova de que esse tipo de colaboração é possível está na cobertura de grandes eventos, sejam desastres, sejam temas de comoção popular. Kelly (2006) conta relatos como os do Tsunami que devastou a Indonésia e as Filipinas em 2004. Segundo ele, nenhuma equipe de jornalismo mundial estava preparada para cobrir um evento tão inesperado. Dessa maneira, as melhores imagens veiculadas em canais por todo o mundo durante alguns dias foram as fotos e vídeos feitos por turistas de seus telefones celulares e câmeras digitais e, se algum canal de informação não mostrasse essas imagens, com certeza estaria por fora dessa história (idem, p.14). No Brasil, a cobertura das manifestações populares que pediam, entre outras reivindicações, uma reforma na política nacional, contaram com informações vindas de usuários, que relatavam abusos policiais, depredações a patrimônios públicos e opiniões

acerca do andamento dos eventos35. Os protestos deram relevância a movimentos culturais independentes como a Mídia Ninja36, uma comunidade de pessoas que registra e debate acontecimentos que, na visão dessas pessoas, não são tratados com o destaque merecido por parte da mídia em geral. Regionalmente falando, um acontecimento aparentemente inocente como a queda de neve em Curitiba, em julho de 2013, fez com que houvesse a postagem de inúmeros vídeos feitos por usuários para os sites de informação locais e nacionais, além de inúmeras participações de conteúdos semelhantes nos telejornais.37 Tais imagens podem ser tratadas como “imagens de testemunho” já que tem o poder de contar a visão de um indivíduo frente a um acontecimento de relevância para a comunidade regional, nacional ou internacional.

Outro ponto importante a respeito do jornalismo-cidadão é o fato de que ele pode ocupar diversos lugares diferentes sem perder sua essência: pode tanto estar em um telejornal de abrangência nacional quanto em um blog particular que mesmo assim continua sendo uma colaboração de uma pessoa no debate público de determinada questão. Nesse caso, não importa onde ele está presente, mas sim o que informa (idem, p.18). Mesmo assim, o pesquisador elenca algumas razões pelas quais os usuários contribuem com as informações: para ganhar exposição e notoriedade, por ativismo político ou social, para contribuir com um senso geral de comunidade ou simplesmente pelo prazer de colocar informações criadas pessoalmente em um nível de compartilhamento maior (idem, p.25). Segundo Gilmour (2004), esse movimento de produção imagética tem suas vantagens uma vez que os usuários são muitos e os jornalistas, poucos. Porém, na sua visão, o papel da imprensa na triagem e na organização dessas informações continuará sendo importante para a interpretação dos eventos (GILMOUR, 2004 p.111).

Uma questão importante a ser verificada é em que graus esse movimento de seleção e interpretação das imagens dessa natureza por parte dos jornalistas acaba distorcendo seu uso na programação televisiva. Se por um lado existe a vantagem de poder ilustrar os fatos com uma profusão de imagens sobre determinado assunto, por outro a apropriação desse tipo de imagem dentro da narrativa jornalística pode ter efeitos contrários. Nesse sentido, uma análise mais apurada a respeito desses usos revela de que maneira eles estão presentes na narrativa

35 “Vídeo mostra policiais agredindo jornalista em manifestação em São Paulo”, matéria disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2013-06-12/video-mostra-policiais-agredindo-jornalista-em- manifestacao-em-sao-paulo.html

36 Sigla que denomina o grupo, cujo significado é “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. 37 “Veja Vídeos da Neve em Curitiba e região”, matéria disponível em:

jornalística da televisão. O próximo capítulo apresenta algumas bases para essa discussão e providencia ferramentas para a análise de material jornalístico referente ao caso da tragédia em Santa Maria, escolhido para exemplificar os usos das imagens de testemunho.

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