PARTIE I : ATTESTATIONS ET COORDONNEES
II. LE COMMISSAIRE AUX COMPTES
Machado (1988) também relata que a fotografia e o cinema atuam como modos de ver o passado, de guardar a memória do que já passou. O vídeo, porém, possui a característica diferente de ser, em determinadas condições, o registro daquilo que está acontecendo naquele exato momento.
No universo da imagem técnica, só o vídeo pode restituir o presente como presença simultânea com a sua própria enunciação. Contrariamente à tecnologia da fotografia e do cinema, a análise da imagem pela câmera e a sua síntese no monitor de vídeo se dão de forma instantânea e simultânea, dispensando todo processamento intermediário". (Machado, 1988 p.67)
A noção de enunciação e recepção simultânea também e apontada por Dubois (2004) como uma das características principais do vídeo. Sua teoria é a de que o advento das tecnologias modernas de inscrição da imagem sofrem como que o efeito de um espiral, onde cada máquina nova que é acrescentada confere uma espécie de filtro mediador diferente sobre o olhar humano27. Antes do advento da fotografia o homem se valia de maneiras de
27 O surgimento de cada uma dessas tecnologias, alerta Dubois, traz um lado retórico e outro ideológico. O lado retórico procura dar ares de novidade e profetizar um novo cenário inovador frente a tecnologias existentes - a fotografia como a superação da pintura, o cinema como a representação da realidade em movimento, a TV como a tecnologia nunca antes vista de imagem ao vivo e a internet como a inclusão do mundo e de bilhões de usuários em uma rede comum. Esses discursos possuem um forte apelo teleológico e
representação que denomina “pré-visuais”, pois prescindiam de um suporte físico para serem produzidas e, além disso, eram mediadas pelo intelecto e as ferramentas do artista que pintava um quadro ou uma gravura por exemplo. A partir da invenção da fotografia – o primeiro elo das máquinas de representação na sua concepção -, a imagem continuou a depender de um suporte material para a inscrição da imagem; mas a produção dela passava pela mediação com um aparato técnico (a máquina fotográfica). A chegada do cinema traz uma nova forma de percepção da imagem, agora traduzida pelo movimento criado pelo fenômeno da projeção. Sem isso, a imagem cinematográfica perde a sua especificidade uma vez que sem as condições necessárias para a sua exibição (uma sala escura e um projetor), o cinema não se realiza enquanto meio, pois só podemos tocar a película enquanto imagens paradas e não como forma cinematográfica. No caso da televisão, a materialidade da imagem se esvai com uma facilidade maior ainda. A transmissão não permite sequer localizá-la enquanto realidade, uma vez que a codificação e a decodificação dessa imagem acontecem simultaneamente em vários lugares distintos ao mesmo tempo.
O que especifica a maquinaria televisual é a transmissão. Uma transmissão a distância, ao vivo e multiplicada. Ver, onde quer que haja receptores, o mesmo objeto ou acontecimento, na forma de imagem, em tempo real e estando sempre longe ou alhures. […] A imagem-tela ao vivo da televisão, que não tem mais nada de souvenir (pois não tem passado), agora viaja, circula, se propaga, sempre no presente, onde quer que seja. Ela transita, passa por diversas transformações, flui como um rio sem fim. Chega em toda parte, numa infinidade de lugares, e é recebida com a maior indiferença. Imagem amnésica cujo fantasma é um 'ao vivo' planetário, ela abre a porta à ilusão (simulação) da copresença integral. (Dubois, 2004 p. 46)
Para Charaudeau (2012), a televisão quando executa uma transmissão ao vivo acaba por abolir a distância e a própria noção de tempo; cria-se somente o tempo presente:
quando a televisão transmite ao vivo, o efeito de presença é tal que toda a distância espacial fica abolida, toda fronteira temporal desaparece e cria-se a ilusão de uma história se fazendo numa cotemporalidade com o fluxo da consciência do telespectador: o acontecimento mostrado, eu o vi, eu, em meu presente., ao mesmo tempo atual e intemporal, pois passado e futuro se fundem nele (Charaudeau, 2012 p.111)
Ideologicamente, a televisão foi o primeiro meio de comunicação que possibilitou a transmissão em tempo real de som e imagem entre o que se sucedia em um lugar e a recepção em outro muitos quilômetros de distância. Esse fato acarretou uma série de particularidades
para o evento jornalístico. Além do telejornal se apresentar como um discurso ativo construído no tempo como mostrado acima, a transmissão ao vivo também criou o improviso, a narração não planejada por parte do repórter que, ainda que seja treinado para evitar ao máximo as redundâncias do discurso, não sai ileso de possíveis erros gramaticais, vícios de linguagem e outros problemas de natureza técnica como falhas no sinal da imagem, quedas de áudio, intempéries ou intromissões não programadas de entrevistados ou indivíduos próximos.
Na televisão ao vivo, como nas performances de vídeo em tempo real, tudo aquilo que era 'lixo' para produção imagética anterior se converte em elemento formador, impregnando o produto final de uma marca de incompletude e de improviso que constitui uma de suas características mais interessantes. (Machado, 1988 p.69)
Além disso, o espaço da transmissão ao vivo também tem como particularidade a presença de “tempos neutros”, onde a notícia ainda não aconteceu ou se espera que aconteça. É comum que nesses momentos os repórteres digam informações redundantes sobre o que está acontecendo, enquanto as câmeras vagueiam por um espaço sem ação (como, por exemplo, no intervalo de um jogo de futebol quando os times ainda estão descansando no vestiário e são mostradas imagens dos torcedores sentados, aguardando o reinício da partida). Dessa maneira, a televisão nunca terá a mesma condensação narrativa que observa-se em um filme cinematográfico:
O relato videográfico ou televisual, se realizado realmente em tempo real, não pode nunca manter a mesma coerência narrativa que se costuma identificar nos filmes, porque o material obtido está constantemente maculado por anotações dispensáveis, como quando uma câmera espera a chegada de uma personalidade no aeroporto e vagueia aleatoriamente pelos rostos na multidão ou pelos ambientes vizinhos apenas para preencher com imagem o tempo de espera. (Machado, 1988 p.70)
Observar uma matéria gravada e ver a apresentação de uma notícia ao vivo, seja na voz de um repórter, seja no comentário de um estúdio, traz diferenças fundamentais. No material gravado, muitas vezes pode-se ver somente 'os melhores momentos' de uma notícia, com a voz modulada e calculada de quem lê para atingir o melhor impacto possível. Já no ao vivo, há o espaço para o improviso. Muitas vezes a voz do repórter está marcada pela imprecisão e redundâncias na fala e as imagens não são as melhores possíveis, uma vez que o evento pode já ter acontecido ou mesmo não acontecer. Nesse caso, muitas vezes a TV apela para a recuperação de imagens que 'aconteceram há pouco' como forma ilustrativa. A TV também revela aqui muitas vezes a produção barateada ou a impossibilidade de produção de
determinadas notícias, que ficam apenas na voz do apresentador no estúdio ou do repórter na rua.