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Os meses que José Oiticica passou na prisão, de acordo com os depoimentos de sua filha Sônia, sempre serviam para colocar as suas leituras em dia. No cárcere, ele concentrava- se na produção de poemas, artigos, até mesmo um livro. Ele próprio se referia à prisão como as suas “férias”, um momento em que era forçado a interromper as suas aulas e que usava para atualizar os seus estudos. Produzir na prisão era uma forma de resistência, de continuar o combate.

137 demandavam-lhe tempo e disciplina, pois para combater com profundidade as teses clericais, por dentro, e quebrar-lhes as “incoerências”, traduzindo-as de maneira clara para que todos a pudessem conhecê-las, utilizava seu tempo de reclusão para reforçar seu arsenal para o combate por meio das palavras. As campanhas anticlericais ganharam tal proporção que a Igreja combatia os livre pensadores em seus jornais.

Por essa razão, dificilmente passava desapercebida uma proposição de um jesuíta nos jornais, sem que um estudioso adepto do anticlericalismo e do livre pensamento entrasse em controvérsia com esse jesuíta. Afinal, a palavra era a arma de combate dos dois lados na conquista de corações e mentes. Provavelmente, as leituras que Oiticica realizou em suas “férias” na Ilha Raza e depois na Ilha das Flores, atualizou munição para o combate anticlerical, pois já no início de 1926, seis meses após a sua libertação, ele sustentou um debate117 com o padre Leonel Edgard da Silveira Franca.

A “troca” de argumentos ocorreu por meio de artigos publicados no jornal O Correio

da Manhã, onde Oiticica era cronista social. No entanto, as suas investidas anticlericais acabaram ganhando status de coluna ou sessão em vários periódicos libertários, pelo fato de conformarem uma série nomeada como “Resposta a um jesuíta”. O padre Leonel Franca (1926, p.8) refere-se a estas publicações da seguinte maneira:

Percorram-se os artigos do Snr. Oiticica. Desde a fábula do incêndio em Alexandria pelos Christãos até as declamações balofas contra o despotismo romano, lá se encontram quase todas as estafadíssimas objecções, mil vezes refutadas, eternos logares communs explorados pelos libellistas profissionaes. Custa pouco copiar excertos dos mil e um pasquins escritos contra a Igreja por adversários sem consciência; custa pouco folhear os annaes inglórios das heresias, com os farrapos de erros já vencidos, alinhavar uma túnica de ignomínia, que mal dissimule aos olhos de leitores ingênuos a nudez vergonhosa de uma polêmica sem escrúpulos. É fácil, não é nobre.

Do “debate”: padre versus “o professor bellicoso anarquista”, as respostas, réplicas e tréplicas foram reunidas, apostiladas e publicadas pelo padre Leonel Franca no ano de 1926 em formato de um opúsculo, intitulado Relíquias de uma polêmica. Esta publicação reuniu todos os artigos elaborados pelo padre Leonel Franca, e alguns dos artigos, na íntegra, do professor José Oiticica submetidos ao exame e comentários de seu organizador.

A discussão iniciou-se pelas provocações de José Oiticica a propósito de um artigo que o padre Leonel Franca escreveu, intitulado Catholicismo e modernismo. Os comentários do professor Oiticica apresentados no artigo Modernismo cathólico irritaram por demais o

117José Oiticica travou também debate com outros representantes do clero, como o Monsenhor Rosalvo Costa Rego, e o bispo D. Alberto Gonçalves.

138 religioso.

A interlocução provocativa de Oiticica foi desdobrada em cinco artigos, todos com o mesmo título: Resposta a um jesuíta. Três deles foram enfeixados no opúsculo mencionado; os dois outros que ficaram de fora continham argumentos que, segundo Oiticica, não foram respondidos pelo padre.

Na introdução, o padre Leonel Franca justificou a sua iniciativa de publicação do opúsculo da seguinte maneira:

[...] Coherencia lógica é uma outra condição essencial de qualquer discussão honrada.

O professor do collegio Pedro II não sabe conservar-se na firmeza de uma posição tomada. Aqui defende Tyrrell com calor apaixonado de um modernista dos

primeiros tempos, ali aggride a S. Justino com violência de um pagão desabusado, acolá fala de religião com a indifferença leviana de um sceptico vulgar. Multiplicar

assim os campos de batalha pode parecer valentia e é fraqueza. Não se desampara uma praça forte que se pode, com vantagem, defender. É fácil, não é

nobre. Com quem, portanto, esgrime só por gosto de esgrimir e toma as alforrias dialecticas que dessa atitude derivam, não é possível uma polêmica séria e honesta. Não me arrependi e nem me arrependo do meu primeiro silêncio. Continuo a negar a

minha cooperação aos exercícios desportivos do Snr. Oiticica no seu funambulismo infatigável. Pareceu-me, porém, no interesse da verdade, pôr ainda uma vez em relevo os processos de combate do bellicoso professor.

Para isso bastaria reunir em opúsculo os seus artigos e submetê-los ao exame demorado e comparativo dos leitores. O jornal é essencialmente ephemero. Entre os que lhe percorrem diariamente as columnas haverá, talvez, um entre mil que tenha paciência de conferir um artigo com o procedente, acarear uma accusação com uma resposta. Reuni, portanto, aos outros artigos relativos á questão todos os números da “Resposta a um jesuíta” do Snr. Oiticica, e, no intuito de facilitar a crítica pessoal dos leitores, apostillei-os com ligeiras observações.

Não pretendem essas notas salientar todos os erros e incoherências do professor; visam chamar atenção sobre os mais importantes e de mais conseqüências no curso das idéias discutidas. [...]Ante os olhos de todos ficam, na sua íntegra, os artigos do Snr. Oiticica e a brevidade de minhas apostillas, convidativas de ulterior meditação. [...].

Leonel Franca S. J.,

Nova Friburgo, 10 de abril de 1926. (FRANCA, 1926, p.8-9- grifos nossos).

O padre Leonel Franca (1926, p. 6-7), ao reportar-se ao professor José Oiticica no prefácio de seu opúsculo, ora trata-o como “o professor de português do Colégio Pedro II”, ora como o “bellicoso professor”, aquele que “discute por discutir”, ou que “esgrime só por gosto de esgrimir”. Coloca-se na posição de quem foi atacado, e após silêncio resignado, e movido pela a responsabilidade de “não desamparar uma praça forte que se pode, com vantagem, defender”, justifica seus motivos para se colocar frente à Oiticica como adversário. Seu esforço é deixar claro que fora forçado a lançar sua publicação, uma vez que, segundo a

139 sua opinião, o professor Oiticica teria transgredido a “regra de uma controvérsia séria” e diz: “não uma mas muitas vezes”.

No lado adversário, Oiticica (1926, p. 41) percorreu a literatura citada pelo padre Leonel Franca, e, a partir dos autores por ele mencionados, aproximou-se dessas leituras com o objetivo de criar para os leitores uma oportunidade de se informarem sobre as lutas religiosas, mostrando, com isso, que a “praça forte” vivia no início do século conflitos em razão da rebeldia de alguns religiosos. Ao mostrar tais conflitos, o leitor se inteiraria dâ inexistência do consenso obediente e poderia ver a força da rebeldia, no interior da “praça forte”.

Embora não seja intenção da pesquisa reconstituir todo o debate, nem mergulhar nas teses anticlericais defendidas por José Oiticica, nem mesmo acompanhar pelos jornais o peso que tiveram os argumentos trocados entre os dois debatedores, faz-se necessário apresentar o mote central desse debate, com o objetivo de, a partir dele, exemplificar uma das formas de manifestação das idéias anticlericais e de livre pensamento de José Oiticica, apreendida na ambiência dos costumes da militância da qual ele era participante.

O mote central da argumentação do padre Leonel Franca é a sua oposição à idéia da “volatilização progressiva dos dogmas cristãos tradicionais” da Igreja, que segundo sua interpretação, era obra de “modernistas influenciados pela tendência do ‘protestantismo liberal’, [que] dela bebiam as suas doutrinas subversivas”. Os “modernistas” faziam oposição à ortodoxia tradicional dos dogmas cristãos defendida pelo padre Leonel Franca em concordância com as orientações do papa (p.11-16).

Entre os autores apresentados e criticados por Leonel Franca estão alguns ex-membros da Igreja e algumas expressões filosóficas, agnósticos, como, por exemplo Kant e Spencer e “modernistas”, segundo ele, influenciados pelo protestantismo liberal e por Nietzsche. Entre os modernistas mais criticados estão: na Alemanha Gerbert; na Itália, o senador Fogazzaro e o padre R. Murri; na França, E. le Roy e na Inglaterra, o ex-jesuíta J. Tyrrell. Este último, nos dois lados do debate ganhou maior destaque em função da discussão sobre a Encíclica

Pascendi de 1907.

Para o padre Leonel Franca (1926, p.16), a Encíclica Pascendi de 1907 diz:, “[...] nos ambientes católicos foi acolhida com a submissão devida à palavra do supremo pastor a quem Christo confiou a missão de confirmar na fé a seus irmãos, mas ainda com o seu elevado valor doutrinal”. O documento de intervenção enérgica do papa Pio X condenando “[...] as diminuições injustificáveis de todos os agnosticismos, subjectivismos e relativismos [...] e defendendo a verdade absoluta dos grandes e immutaveis princípios que consttituem a alma

140 insubstituível da nossa vida intellectual” (IDEM, p.26).

Para José Oiticica, em seu artigo de resposta ao padre Leonel Franca, publicado no jornal Correio da Manhã com o título de Modernismo catholico, a reação frente à Encíclica de Pio X, Pascendi Dominici gregis, de 8 de setembro de 1907, foi de rebeldia do “pensamento modernista”, por ser esse um documento de defesa dos “dogmas tradicionais católicos. A encíclica é assim interpretada por José Oiticica:

[...] ora a encyclica é o coroamento de um trabalho multisecular de centralização da Igreja até o despotismo religioso mais ferrenho. Em vão se procurará, nos evangelhos, uma indicação política, um preceito de suzerania theologica, um esboço de hierarchia administrativa ou pedagogica. Todos ali são irmãos; Jesus era Mestre, mas não amo; seus discípulos eram discípulos e não servos. Seria monstruoso imaginar Christo dando a si mesmo o título de Bispo dos Bispos. Na primitiva organização eclesiástica o bispo era o pastor na sua diocese, não dependia de ninguém e ensinava a communidade sem theologia, transmitia os preceitos evangélicos, consubstanciados pela tradição dos primeiros séculos de vida religiosa. Seria absurdo ouvir um Bispo declarar ser elle a tradição christã, como o declarou, alto e bom som, o papa Pio X, la

tradizione sono io. Nos primeiros séculos da Igreja, o bispo de Roma não é superior em coisa alguma aos demais; é primeiro entre os irmãos (p.31).

Os “modernistas” criticados por Leonel Franca são defendidos por José Oiticica, como pode ser observado pelas suas impressões sobre o ex- jesuíta irlandez Geoge Tyrrel , que para ele é “[...] o mais denodado campeão [da] batalha anti-romana [...], o mais vigoroso escripto seu foi justamente a resposta à Carta Pastoral do Cardeal Mercier, endereçada, pela quaresma de 1908, aos fiéis da sua diocese” (p.29).

Sobre as expectativas dos modernistas criticados por Leonel Franca, Oiticica diz: O que o modernismo quer, antes de tudo, é unidade espiritual, tudo é constante experiência, isto é conformação de crenças espontaneamente provinda do sereno estudo e constante experiência religiosa, alicerçada nos ensinamentos mesmos do Christo. A uniformidade imposta não é conformidade, é regimen de centralização feroz que tira, tanto aos sacerdotes, quanto aos fiéis, a menor iniciativa pessoal ou conjuncta na pesquisa das verdades espirituaes [...] (p.30).

Para o padre Leonel Franca o modernismo era:

[...] uma tentativa frustrada de invasão do protestantismo liberal na vida e na doutrina catholica. Caracteriza-o uma tendência fundamentalmente anti-intellectualista, que se manifesta na inclinação a supervalorizar os elementos affetctivos e pragmáticos. A “popularidade” de José Oiticica, provavelmente tenha servido como chamariz aos leitores letrados e interessados nas teses clericais, próximas ao tradicionalismo dogmático, como também deve ter despertado algum interesse nos leitores que acompanhavam de alguma forma as manifestações libertárias do professor Oiticica. No entanto, a ação do padre Leonel Franca (1926), ao somar os seus artigos e comentários com algumas das respostas do professor José Oiticica em seu opúsculo, abriu-lhe maiores possibilidades para capturar, provavelmente, um número maior de leitores, como, por exemplo, pode ter se dado com

141 aqueles que acompanhavam o debate, tanto na leitura dos jornais da grande imprensa, como pelos inúmeros “pasquins” mencionados pelo padre Leonel Franca.

O alcance das ações de José Oiticica em seu combate pela palavra fica logo demonstrado no caso de Relíquias de uma polêmica, pelo fato de ter provocado no “adversário” a iniciativa de sua publicação. A preocupação em reunir os artigos de Oiticica no opúsculo, sob o argumento de que estes estavam espalhados na efemeridade do jornal, oculta possíveis preocupações que inquietavam o padre Leonel. O jornal tinha alcance a um número de leitores bem maior em relação aos leitores dos livros; quem escrevia esses artigos era um intelectual catedrático do Colégio Pedro II, conhecido também pelo público leitor dos jornais, tanto os da grande imprensa, como o jornal carioca o Correio da Manhã, quanto dos jornais da imprensa operária, destacando-se o jornal libertário A Plebe, de São Paulo.

Os procedimentos críticos de José Oiticica com relação aos textos publicados pelos representantes do clero católico não se enquadram nas constatações feitas nas pesquisas que trataram do tema da literatura e dos homens de letras no Rio de Janeiro dos inícios do século passado. Oiticica empreendia a crítica como uma das tarefas da militância libertária, anticlerical, do livre pensamento. Os grupos nela envolvidos posicionavam-se em um campo de lutas, e o arsenal de armas era detonado por meio da palavra, por meio da educação. Nessa direção, as várias correntes, com seus diferentes grupos, concordavam que o trabalho de militância demandava ampliar os espaços da educação da perspectiva libertária em contrapartida à educação da outra perspectiva. A nossa educação versus a outra educação. A

nossa, o nosso referiam-se á nossa imprensa, às nossas escolas, à nossa educação, ao nosso teatro, o nosso cinema, em contraposição à educação deles, a imprensa deles etc.

Em 1914, Oiticica participava ativamente de dois grupos ligados à imprensa ácrata, o Grupo Novo Horizonte e o Grupo Pró-Congresso Anarquista. Parte dos sujeitos participantes destes grupos, com os quais Oiticica mantinha interlocução de idéias e com os quais trabalhava nas sessões de propaganda social, eram maçons, intelectuais formados em Direito, como Benjamim da Mota, em Medicina, como Francisco Viotti. Outros eram militantes sindicais, anarquistas estrangeiros, outros brasileiros. Alguns autodidatas, como por exemplo foi o caso de Edgar Leuenrouth, conhecido anarquista, editor de A Lanterna e depois de A

Plebe, os dois periódicos, possivelmente mais expressivos em circulação e atuação no anarquismo brasileiro.118 Com esse jornalista, Oiticica manteve interlocução até a sua morte.

118Em São Paulo, as idéias anticlericais e do livre pensamento circulavam em jornais como A Lanterna –

Anticlerical e de Combate, antes assinado pela Liga Anticlerical, e depois passou a ser propriedade de uma sociedade anônima até 1903. Sua distribuição era gratuita. O número 1, de 07 de março de 1901, anunciava

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