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Após a aula de Educação Física, os alunos tinham um tempo para realizar as brincadeiras ou atividades do seu desejo. Alguns alunos (nas) iam brincar na pracinha, outros pegavam uma bola e ficavam rebatendo contra a parede, outros brincavam de pega- pega, algumas meninas dançavam, ou ficavam conversando paralelamente. Num grupo separado na quadra dos fundos da escola, reuniu-se um grupo com 4 meninos e 2 meninas, onde decidiram que iriam jogar futebol. Neste momento, fiquei a observa-los.

Pedro11: Tá vamos jogar, a gente vai desse lado da quadra

e vocês lá.

Maria12: Mas como a gente vai jogar só eu a Joana? Tem

que vir um de vocês para o nosso time.

João13: Tá, eu jogo no time de vocês, só não vou no gol.

Eu jogo e vocês ficam parada lá atrás no gol.

Joana14: Não, eu quero jogar, a Maria vai no gol um pouco

e depois eu vou.

Pedro: Tiago e Mateus vão ficar no meu time. Tiago15: Eu ataco

Pedro: Fecho, vamos joga.

João: A bola sai para o time do João, por que ele tá

jogando no time das guria

Tiago: Tá vamos logo, daqui a pouco vai bater para o

recreio.

Diário de campo, outubro de 2014.

As aulas de Educação Física terminavam as 15h00min, sendo que o recreio dos alunos era as 15h30min, deste modo os alunos tinham meia hora para fazer qualquer atividade ou brincadeira do desejo deles. Em umas dessas aulas configurou- se um jogo de futebol, onde alguns meninos e algumas meninas jogaram juntos. Sem resistências, conflitos ou preconceitos um perante os outros. Era visível que no time onde estava jogando as meninas, João que ficou no time das meninas, não passava a bola para Joana. Joana pedia a bola, e João se fazia de surto, ou se caracterizava-

11 Nome fictício 12 Nome fictício 13 Nome fictício 14 Nome fictício 15 Nome fictício

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se como o conhecido “fominha”. Joana já estava frustrada de não conseguia nem encostar na bola, e trocou de lugar com Maria que estava no gol e já tinha encostado na bola mais vezes que Joana que estava jogando.

A mesma cena aconteceu, Maria pedia a bola para João, que se fazia de “surdo”. Porém Maria não cansava e ia atrás da bola, e procurava confrontar os meninos, não se intimidava. Em certos momento conseguia pegar a bola, e por engraçado João pedia a bola e Maria não passava a bola e chutava ao gol, sem muita habilidade mas com muita vontade. Ali jogaram quase meia hora, até que João desistiu de jogar, pois estava perdendo o jogo, e o mesmo disse que o jogo já estava chato, por que seu time só levava gol. A imagem abaixo mostra o momento dos alunos (nas) jogando futebol, no momento final da aula de Educação Física.

Na cena anterior é possível notar que existe um processo dinâmico e contínuo de negociação, onde na medida que as meninas expõe que querem jogar, porém não tem condições pois, encontram-se em apenas duas. No outro lado, o menino se dispõe a jogar no time das meninas, porém com uma condição, sendo que ele não ataca e apenas joga, e ainda diz: Vocês ficam no gol e eu jogo lá na frente. Novamente uma das meninas dispõe que ela jogaria e que a outra menina ficaria no gol e que ambas trocariam de posição no decorrer do jogo.

Acervo de imagens registradas nas observações em campo. Agosto 2014. Aa

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De maneira geral, observa-se uma maior flexibilidade das meninas em relação à inclusão do menino no seu time. Perante isso, para se discutir essas relações de poder Foucault (1995, p.183) explica que “o poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede, não se aplica aos indivíduos, passa por eles”. Neste sentido, a relação de poder aqui mencionada, está relacionado ao jogo de futebol que aconteceu no momento extra da aula, onde tradicionalmente só quem joga nas aulas de Educação Física em geral são os meninos, sendo que no universo da criança o futebol é entendido como brincadeira de menino também, assim tornando os meninos como “donos” do jogo, das regras, decidindo quem joga ou não. Ao observar a cena, entende-se que as meninas deste grupo se inseriram no jogo de futebol, e tiveram que aceitar as condições propostas dos meninos.

Paramos para pensar, que se frequentarmos quadras esportivas em parques ou seja onde for, provavelmente nos depararemos com um número significantemente maior de homens do que de mulheres jogando. E dentro das escolas isto não é diferente, pois normalmente encontram-se os meninos durante o recreio, horário livre e até mesmo na hora da aula de Educação Física jogando futebol. Compreende-se que ocorre um enfrentamento no sentido ao fazer esportivo das meninas na escola, pois, em alguns casos as meninas resistem em atividades onde sabem que iram suar, e ter que que jogar junto dos meninos. Enquanto os meninos ficam ocupando os espaços da quadra, conversando e interagindo uns com os outros, as meninas costuma sentar e conversar me pequenos grupos, geralmente em voz baixa.

Uma questão importante a ser levantada diz respeito a possíveis diferenciações com relação aos padrões de resistência e as relações de poder. A resistência aqui mencionada refere-se ao momento que as crianças recusam-se a dançar em pares (menino/menina), alegando que se fosse do modo que a professora planejou ninguém iria fazer, estando a concluir que os alunos (nas) resistem ao que não lhes convém. Se olharmos para cena que as meninas jogam junto dos meninos, sem algum resistência, fica a compreender que participam juntos pois não tem contato corporal (mão junto a mão, ou o ato de abraçar). Destaca-se a autonomia dos alunos (nas), e suas organizações em brincar juntos e separados, de forma recreativa e sem contato corporal eles relacionam-se muito bem. No caso de jogar futebol juntos no momento

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livre da aula, problematiza-se que um grupo ocupa posições privilegiadas de poder nesta cena. Pois, os meninos estão em maioria, o futebol representa para eles na cultura onde eles estão inseridos o esporte que é para eles jogar, e as meninas estão inseridas já com uma diferença e em minoria, assim tornando-se dominadas.

Como refere Carvalho; Costa; Melo (2008, p. 13) “meninos e meninas continuam sendo educados dentro de rígidos padrões comportamentais psicológicos e sociais: menino não chora, só brinca de bola e super-herói; menina não pode subir em árvores, só brinca de boneca e panelinha”. A ideia de gênero está relacionada as diferenças culturais, assim implicando nas relações do feminino e do masculino. Ao problematizar a ideia referida acima, é possível evidenciar no cotidiano escolar, que meninas e meninos tentam aproximar-se em diferentes formar de brincar/jogar nas aulas de Educação Física. Como por exemplo, pode-se citar a invasão de um jogo de futebol por uma dupla de meninas, que queriam se fazer incluídas no jogo dos meninos. Poderia ocorrer nesta situação, que os meninos se recusassem a jogar junto delas, entretanto aceitaram dentro das devidas condições.

Para se inserirem naquele universo masculino, as meninas lançaram mão de estratégias. Primeiro, pensando em evitar conflitos, segundo permitindo que o menino jogasse sempre e não precisasse ir ao gol, ao conceder-lhes o papel de autoridade, elas fizeram da aparente aceitação do domínio masculino daquele esporte uma estratégia para conseguir jogar. Essas meninas, ao cruzarem as fronteiras das divisões de gênero, resistiam ao domínio masculino do espaço na escola. Por outro lado, se esta cena for imaginariamente associada a uma busca de demarcação de território, ela ilustra o empenho masculino na manutenção de seu domínio.

Não é novidade que para a área da Educação Física que alguns conteúdos são significados culturalmente próprios/adequados para um determinado gênero. Natural em falas que “futebol é coisa de menino” e “dança é coisa de menina”. Sendo assim, o que fazer quando um menino sente-se mais à vontade a jogar vôlei, pular corda ou dançar junto das meninas, ou ainda, quando uma menina prefere incluir-se ao universo masculino e jogar futebol junto dos meninos? No que se refere à intervenção docente, várias considerações podem ser feitas, dado o importante papel do professor ou da professora na aula.

Seguindo a ideia de Altmann (1998, p. 101) “a postura docente é uma referência que define como meninas e meninos agem e se relacionam entre si”. Meninos e

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meninas nem sempre reagem da mesma forma à intervenção docente, e um exemplo reside no fato de que meninos desobedecem mais a normas escolares e a solicitações docentes do que meninas. A presença dos professores entre os alunos (nas) pode diminuir a separação de gênero, pois, ao incentivarem a prática conjunta de meninos e meninas, os comentários pejorativos provenientes dessa interação são minimizados. Se faz a refletir, que são inúmeras as dificuldades dos educadores (ras) nas problematizações das questões de gênero presentes no cotidiano da cultura escolar, especialmente nas aulas de Educação Física escolar. Estas dificuldades acontecem, pois trata-se de valores e normas culturais que só passam/passaram a se transformar em um processo lento de socialização.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao entender os comportamentos dos alunas (nas) no que tange à produção dos corpos e gêneros, nas aulas de Educação Física escolar, os mesmos resistem ao que não lhes convém. Os alunos (nas) da turma de Educação Infantil observados na pesquisa, recriam situações para sobreviver a esse “mundo de gente grande”. As ordens impostas aos sujeitos, criam e dão ordem e significado no modo de produção dos corpos e gênero. As práticas do cotidiano da Educação Infantil, demonstram um mundo separado em alguns momentos. Pois, foi possível observar que a organização da fila e a distribuição das crianças nas mesas na hora de colorir, acabam sendo reforçadas a separação entre meninos e meninas, deste modo, ao invés de propiciar vivencias que possibilitem a integração, acabam, por afasta- lós ainda mais.

As filas impostas de um modo organizacional pela professora, divide meninos de meninas, que ao mesmo tempo ficam divididos na hora de colorir. Em outro momento a professora possibilita práticas interativas, ousando nas possibilidades do brincar, sendo o caso da dança. Que os alunos (nas), ao estarem envolvidos numa atividade de roda, dão-se as mãos entre meninas e meninos. Apropriando-se do pensamento de Vianna e Finco (2009, p. 268):

O corpo é alvo das práticas disciplinares. Há um aparato instrumental e institucional que busca constantemente discipliná-lo quando busca fugir e escapar, seja por meio de mecanismos, repressivos, seja por um discurso que impõe às crianças uma imagem estigmatizada de si mesmas .

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Um forma de disciplinar este corpo, ocorreu em uma das aulas observadas na turma dos Anos Iniciais, na qual um dos alunos leva uma boneca para sala de aula. Os brinquedos oferecidos muitas vezes as crianças, são carregados de expectativas, símbolos e intensões. Meninos e meninas ao longo do tempo, desenvolvem seus comportamentos a fim de corresponder ás expectativas de como se portar no contexto feminino e masculino. Muitas das vezes as características físicas e os comportamentos esperados para meninos e meninas são reforçados, às vezes inconscientemente, nos pequenos gestos e práticas do dia-a-dia. Meninos e meninas são educados de modos diferentes, sejam irmãos de uma mesma família, sejam alunos sentados na mesma escola.

Ao identificar como os alunos (nas) expressam, interpretam e reproduzem os comportamentos e produções dos corpos e gênero, é possível perceber como o corpo e a posição dos sujeitos são constituídos por meio da presença dos discursos da família e da escola. Um caso analisando das observações, traz num momento o aluno da turma de Educação Infantil, que queria ficar abraçando as colegas da turma, pois, em casa ele abraçava a mãe e o pai e também era abraçado. A família e a escola, são consideradas as primeiras e principais fontes responsáveis pela construção das dimensões de gênero e dos corpos. O corpo dos sujeitos pesquisados são constituídos em meio à presença de processos educativos e reiteram prescrições de gênero.

Cabe destacar também outros importantes momentos que marcaram o trabalho de observação na escola. Os conflitos aparecem como fonte de criação e intervenção docente, como de exemplo a cena da turma de Anos Iniciais, no qual os alunos (nas) ficaram resistentes a proposta da professora de dançarem em pares. Em função dessas tensões geradas, em alguns casos professoras e professores planejam suas aulas levando alguns conteúdos a serem excluídos de suas aulas, em função das tensões relacionadas ao gênero. Porém, por outro lado, é necessário analisar se tais conteúdos devem de ser ocultados e silenciados. O conflito é necessário desde que

haja intermediação por parte do educador.Á de se pensar formas e estratégias para

se lidar com tais resistências e conflitos, pois, o conflito é necessário desde que haja intermediação por parte do educador.

No que diz respeito à forma de expressão das meninas e meninos ou significados de gênero presentes no cotidiano das aulas de Educação Física escolar,

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é possível dizer que a escola convive com diferentes masculinidades e feminilidades ao mesmo tempo. Seguindo a ideia de Junior (2011, p. 5)

Alguns dos elementos/conteúdos da cultura corporal presentes nas aulas Educação Física admitem, através de suas práticas, que há mesmo toda uma organização e regulamentação onde os corpos são treinados e moldados em função da divisão sexual e social, condicionadas por uma cultura que impõe “normas, símbolos, mitos e imagens que penetram o indivíduo em sua intimidade, estruturam os instintos, orientam as emoções”

Na turma de Educação Infantil, os alunos (nas) no decorrer das observações brincaram muitas vezes em espaços juntos, entretanto numa simples atividade de colorir, separavam-se sem perceber. No caso da turma de Anos Inicias, no momento que se tinha estipulado para os alunos (nas) realizarem atividades que teriam que manter contato corporal com um sujeito do gênero oposto, já havia resultado emergencial de resistência. Porém, quando eram realizadas atividades livres, como no caso do futebol, os alunos jogavam juntos, dentro de um quadro de condições impostas pelos meninos.

Ao compreender gênero como uma construção cultural, compreende-se também que o mesmo é reflexo de tensões relativas de poder, desigualdades superioridades e inferioridades. Essas relações são evidenciadas no cotidiano escolar, as relações entre os sujeitos pesquisados impõe condições de conflitos, disputas e jogos de poder. Comportamentos, movimentos, entre outros aspectos durantes as observações em campo, foram sendo construídos e reconstruídos pelos alunos (nas), fazendo o campo da Educação Física um espaço de produções e reproduções de sentidos de feminilidade e de masculinidade. Nos momentos das brincadeiras, dos jogos e dos esportes, demonstrou-se a presença de sentidos e significados de feminilidades e masculinidades, principalmente nas práticas corporais que se encontram permeadas de construções simbólico- culturais, assim evidenciando maneiras de se portar e agir.

Finalizo com um pensamento de Louro (1997, p. 61) no qual, “gestos, movimentos, sentidos são produzidos no espaço escolar e incorporados por meninos e meninas, tornando-se parte de seus corpos. Ali se aprende a olhar e a se olhar, se aprende a ouvir, a falar e a calar”. É importante destacar que o espaço escolar e seus usos podem ser em alguns casos de inúmeras contradições, contribuindo para

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desigualdade de gênero, porém por outro lado também podem constituir-se numa possibilidade de transformação social e construção da igualdade. Pois, entende-se que o cenário escolar é rodeado de princípios sociais fundamentais para uma construção socioeducativa afetiva. E ainda, se forem pensados e elaborados espaços e tempos de brincar, interagir entre meninos e meninas, provavelmente teremos no futuro adultos menos preconceituosos, que não irão categorizar os espaços, os brinquedos e as brincadeiras como erradas ou certas, ou, como coisa de meninas ou coisa de meninos.

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