Dando continuidade ao estudo, apresenta-se o terceiro texto15, no qual Di Manno (2009b) analisa o silêncio como ação privilegiada do corpo contra as práticas educacionais que adotam o “Império Cognitivo da Educação Formal”.
As r ef lexõ es f ilo só f icas d esd e o in ício d e st e t ext o , t r azem u m en u n ciad o q u e p o d e se d escr it o d a seg u in t e m an eir a: “cad a exp er iên cia t em o seu silên cio ”. Ao p ar t ir p ar a o ap r o f u n d am en t o d o t em a, d est aca q u e o silên cio é o f u n d o n ão só d as p alav r as, co m o su g er ir ia u m a ab o r d ag em lin g u íst ica, m as d a p r ó p r ia exp er iên cia h u m an a, a q u e se p r o n u n cia e a q u e se cala. Ju st am en t e p o r q u e a exp er iên cia silen cio sa é m ais d o q u e a au sên cia d e p alavr as.
Em seg u id a, ap r o p r ia-se d e u m a id eia d e u m a m ú sica16, p ar a d izer
q u e o q u e ele p r et en d e d izer já f o i can t ad o e q u e “n ó s so m o s f eit o s d e silên cio e so m ”. De f at o , d o p o n t o d e vist a d a en u n ciação d e p alavr as
(so n o r as), h á t am b ém u m jo g o d e p r o n u n ciam en t o e silên cio : p alav r as e so m .
Tr an sp o r t an d o essa d iscu ssão p ar a a p r át ica ed u cacio n al, p r o p õ e t o m ar co m o p o n t o d e p ar t id a a seg u in t e p r o b lem at ização : a p r át ica ed u cacio n al é f eit a d e silên cio e so m , m as, p r io r it ar iam en t e, d e silên cio .
15
Palestra proferida por ocasião do 2º Seminário de Educação na UNESP de Franca em 27 de maio de 2009.
16
Não so m en t e d e silên cio d a p alavr a, m as d e u m silên cio ain d a m ais p r o f u n d o , q u e é o silên cio d o co r p o .
A p r im eir a r eação q u e lh e o co r r e é a d e lan çar u m m an if est o em f av o r d o co r p o , r ech açan d o a su a d o m in ação esco lar .
De in ício af ir m a q u e a id eia é a d e q u e p r ecisam o s en t en d er m elh o r esse silên cio co r p o r al, ain d a q u e est e silen ciam en t o n o s sir va p ar a in d icar a ig n o r ân cia co r p o r al d as in st it u içõ es ed u cacio n ais, ele ser á ain d a m ais esclar eced o r so b r e as est r at ég ias d o co r p o e so b r e a su a sab ed o r ia. Assim , at r ib u i ao s d o cen t es e f u t u r o s p r o f esso r es, a r esp o n sab ilid ad e d e ap r en d er as liçõ es d o silên cio d o co r p o . Su a af ir m at iva d est aca q u e e st a ser ia u m a g r an d e ch an ce d e m u d ar n o ssas r elaçõ es n o in t er io r d as in st it u içõ es ed u cacio n ais e d e exp er im en t ar e co n ceb er a so lid ar ied ad e co r p o r al.
É visan d o est e f im q u e p r o p õ e a r ef lexão so b r e o silên cio d o co r p o , n ão d e m an eir a r eat iv a, m as, ao co n t r ár io , d e m an eir a p r o f u n d am en t e p o sit iva e af ir m at iva.
Co m o p o d e ser vist o , est ab elece em seu ar r azo ad o u m et h o s (lu g ar ) p ar a o co r p o t r azen d o p ar a o t ext o u m a m et áf o r a: “ao m esm o t em p o em q u e é co n d ição p r ivileg iad a d o co n h ecim en t o in t elect u al n o esp aço ed u cacio n al – em d esvan t ag em p ar a o co r p o in t eiro – o silên cio é u m m o d o p r ivileg iad o d o co r p o . Qu an d o est á em silên cio , o co r p o est á em casa: ch ez so i.; h o m e sw eet h o m e” .
Assim , est ab elece u m a r elação d ico t ô m ica en t r e o silên cio exig id o n as salas d e au la e o silên cio d o co r p o p r o p r iam en t e d it o e d est aca:
n a ed u cação f o r m al o silên cio é u m d o s p r essu p o st o s d esse m o d elo ed u cacio n al q u e se co n cen t r a ap en as n o in t elect ivo e co g n it iv o , p o r su a v ez, o silên cio d o co r p o , é alg o m ais d o q u e a in d icação d e seu s co n st r an g im en t o s esco lar es. O seu silên cio é sin al d e u m a in t elig ên cia co r p o r al q u e vale a p en a ser exp lo r ad a. (ib id ., s/p .)
Mas isso n ão é t u d o , e co m p r o p r ied ad e t r az p ar a o t ext o o q u e ch am a d e “A exp er iên cia p o lissêm ica d o silên cio ”
Há u m silen ciar -se, im p o st o e au t o d elib er at ivo . Silen ciam en t o d a p alav r a, exílio , p r o ib ição , cast ig o à p alav r a n ão d esejad a, am eaça. Mas, t am b ém , m u t ism o in t en cio n al, r ecu sa, in d if er en ça, O silên cio ap o n t a p ar a u m in d izív el: d a exp er iên cia t r ág ica, d a n ão su p er ação , d o d esco n h ecid o , d a est r at ég ia, d a sed u ção , d a m aq u in ação . No silen ciam en t o o st en sivo , o co r p o se r ecu sa a f alar (m u t ism o d a p alav r a). Ou , ao co n t r ár io , se d iz, silen cio sam en t e e d iz m ais d o q u e m ilh õ es d e p alav r as e elab o r ad o s d iscu r so s. Po r isso , t o d o silen ciam en t o o st en sivo é o p o n t o f r aco d e t o d o s n ó s: a am eaça à t o r t u r a o u à m o r t e d o co r p o . Se o co r p o é am eaçad o d e m o r t e é p o r q u e o silên cio o b seq u io so o u o m u t ism o im p o st o , são in su f icien t es. Po r ser lu g ar p o r excelên cia d o silên cio , t en t a-se m at ar o co r p o , p ar a q u e n ão f iq u e o r isco d o silên cio d o co r p o , q u e é co m u n icat ivo e co n sp ir at ó r io . Ação in su f icien t e, p o is, m esm o m o r t o , o co r p o se co m un ica e in cit a as açõ es f ut ur as” (ib id ., s/p )
Na t r ilh a d as co n sid er açõ es f ilo só f ico -p ed ag ó g icas r eser va n o t ext o esp aço p ar a an alisar a Ed u cação e o silên cio d o co r p o .
Par t e, en t ão , d e u m a p er g u n t a in icial: p o r q u e asso ciam o s en sin o e silên cio ? Em p r im eir o lu g ar t r az a seg u in t e r esp o st a:
Pr im eir am en t e, p o r q u e est ab elecem o s u m a r elação en t r e co n h ecim en t o t eó r ico e en sin o . Na ed u cação f o r m al, o co n h ecim en t o t eó r ico o cu p a a q u ase t o t alid ad e d o en sin o . Pelo f at o d e o m esm o t er q u e ser assim ilad o e n ão d ialo g ad o , n ão h á t r o ca d e p alavr as, d iscu ssõ es o u d isp u t as. Cab e ap en as r eg ist r ar u m a p alav r a q u e é d it a e r eceb id a co m o u m d ad o . Ap r en d e-se silen cio sam en t e. Nu m sen t id o in ver so , q u an t o m aio r o alar d e d as p alav r as, co n clu i -se co m m aio r f acilid ad e d e q u e n ão h á co n h ecim en t o t eó r ico em elab o r ação . Qu an t o m ais o co r p o est iver en vo lvid o e q u an t o m aio r f o r o seu m o vim en t o n ão silen cio so , m ais f acilm en t e se co n clu ir á q u e est am o s d ist an t e d e u m a p r o b lem at ização t eó r ica. En sin o e silên cio , d e u m lad o , co r p o e m o vim en t o d e o u t r o . Não est á n o esco p o d est e t r ab alh o d iscu t ir co m m ais d et alh es a r ef er id a h ier ar q u ização d o co n h ecim en t o e d o en sin o e seu s d esd o b r am en t o s co r p o r ais. Est e assu n t o p o d er á ser t r at ad o em o u t r o m o m en t o . De f at o , o silên cio é ap r o p r iad o ao m o d o in t elect u al d o co n h ecim en t o , q u e se b aseia f u n d am en t alm en t e n a co n cen t r ação co g n it iva. O cér eb r o co n h ece silen cio sam en t e, n ão sen d o n ecessár io o “co r p o ” (q uer d izer , o s m em b r o s o u aq uilo q u e n ão é “cab eça”)”. (ib id ., s/p , g r if o s e p ar ên t eses d o au t o r )
Su g er e em seg u n d o lu g ar , q u e a p alavr a e o silên cio são d ist r ib u íd o s d e f o r m a d esig u al.
O d o cen t e assu m e a p alav r a, o d isce n t e o silên cio , co m o n a “ed u cação b an cár ia” cun h ad a p o r Paulo Fr eir e. O p alavr ead o co r r iq u eir o d o d ia a d ia d o co r p o d iscen t e vai ao lim it e d a d ecisão d e u m a p alavr a f in al d a au t o r id ad e d o co n h ecim en t o d o d o cen t e. Dian t e d e u m a p alav r a ú lt im a, se co n f o r m am t an t o o s d isp u t ad o r es q u e r eceb em a sen t en ça d o ju iz, co m o o s alu n o s f r en t e à au t o r id ad e co g n it iva d o d o cen t e17. (ib id ., s/p , g r if o s d o
au t o r )
Sen d o assim , é lícit o in f er ir q u e o am b ien t e d a ed u cação f o r m al acen t u a a d im en são n eg at iva d o silên cio , r est r in g in d o a su a p o lissem ia a sig n if icad o s r est r it ivo s, p r o ib it ivo s, d o m in ad o r es. O q u e f azer co m o s sen t id o s “p o sit ivo s” d o silên cio , co m o a sed u ção , o jo g o , a exp er iên cia in d izível?
Di Man n o su g er e n est e p o n t o , q u e a co n d u ção d o t em a p o d er ia seg u ir u m a via d a lam en t ação d o “p o b r e co r p o ” d o m in ad o n a r elação ed u cacio n al – via leg it im a e q u e exige ain d a an álises ext en sas. Po d er ia t am b ém seg u ir a via d e u m a co n scien t ização d o lu g ar d o co r p o n a ed u cação . Vizin h a à an t er io r , est a via se d est in ar ia a n o s levar a u m a t o m ad a d e co n sciên cia d a co n d ição silen cio sa d o co r p o n a ed u cação . Assim , a b an d eir a a alçar ser ia a d a u m a d ef esa d o d ir eit o ao so m d o co r p o , à su a m an if est ação , t r ab alh o ig u alm en t e n ecessár io e a ser f eit o .
Na co n t in u id ad e d e seu ar r azo ad o , ab r e -se u m a t er ceir a via, q u e esb o ça d a seg u in t e m an eir a:
Nas d u as p r im eir as vias, t o m am o s a ed u cação f o r m al (sit u ação ed u cacio n al) co m o u m d ad o , n o q u al in clu ím o s o co r p o , p o st er io r m en t e. Na t er ceir a via q u e p r o p o n h o , p ar t im o s d o co r p o (em seu silên cio ) p ar a co n sid er ar , em seg u id a, a sit u ação ed u cacio n al. Assim , n ão en q u ad ram o s o co r p o n u m a sit u ação ed u cacio n al d ad a, p r o n t a. Fazen d o o u t r a co isa, p er g u n t am o s co m o é q u e o co r p o sen t e, p er ceb e o u viv e essa sit u ação d e silen ciam en t o ed u cacio n al, a p ar t ir d e su a exp er iên cia silen cio sa m ais p r o f u n d a. (ib id ., s/p , p ar ên t eses e g r if o s d o au t o r )
17
Nesta citação, o autor remete ao seu texto: O silêncio dos docentes: uma nova configuração? Linhas Críticas, Brasília (DF), v. 14, p. 301-318, 2008.
Exp lica em seu q u e u m a t o m ad a d e co r p o d est a t er ceir a via, f ar á o u t r a co isa q u e u m a co n scien t ização co r p o r al, q u e est á n a b ase d as d u as vias an t er io r es. Nest e caso , t r at a-se d e p er scr u t ar o co n t ext o ed u cacio n al, seg u in d o o co r p o n as su as m an if est açõ es, n o s r ecu o s est r at ég ico s, n a evid ên cia d e su a in t elig ên cia co r p o r al.
Po r t an t o , n o lu g ar d e r ef let ir so b r e o co r p o n o in t er io r d a ed u cação e t o m ar su a d ef esa p o r cau sa d o s silen c iam en t o s su cessivo s a q u e é su b m et id o , p r o p o n h o aco m p an h ar as r eaçõ es d o co r p o n o cen ár io ed u cacio n al. Af in al, o q u e est á p o st o em q u est ão é m u it o m ais a in st it u cio n alização d a ed u cação d o q u e o co r p o . No s r ast r o s d o co r p o n a su a d eb an d ad a em silên cio p er ceb er em o s, se f o r m o s sen sív eis p ar a t an t o , a in ad eq u ação co r p o r al d as in st it u içõ es ed u cacio n ais. (ib id ., s/p )
Co m o p r o f u n d o co n h eced o r d o am b ien t e ed u cacio n al em su as vár ias m o d alid ad es, p r o p õ e em su a an álise u m p an o r am a p ar a t r at ar d o t em a ed u cação e co r p o . Sab e t am b ém q u e, e f et iv am en t e, h á u m silên cio lan çad o so b r e o co r p o : u m silen ciam en t o ed u cacio n al, p r o p r iam en t e f alan d o . En t r et an t o , h á o u t r o silên cio evo cad o p elo co r p o , co m o m ar ca, co m o t r u n f o , m elh o r d izen d o , co m o sab ed o r ia co r p o r al.
Ut ilizan d o -se d e u m a p ecu liar en g en h ar ia p ed ag ó g ica, d e f o r m a a d esen vo lver o t em a p r o p o st o , d escr eve u m cen ár io ap r o p r iad o , q u e vai d em o n st r ar o q u e ele en t en d e co m o “Im p ér io Co g n it ivo d a Ed u cação Fo r m al e In st it u cio n alizad a”.
O caso se p assa n a Esco la. Na ver d ad e, o q u e p ar ece in t er essar em seu t ext o é b u scar as r aízes h ist ó r icas d e u m d ico t o m ism o f u n d an t e d a sit u ação ed u cacio n al vig en t e (ed u cação f o r m al e in st it u cio n alizad a) e q u e essas r aízes ser ão im p o r t an t es p ar a est ab elecer alg o co m o u m est u d o d e caso co r p o r al. Est ab elece o an t ag o n ism o d ico t ô m ico d an d o o s p ap éis p r in cip ais à “Alm a” e ao “Co r p o ”, e seg u n d o seu p en sam en t o o d eb at e é m ais o u m en o s silen cio so . De f o r m a in t elig en t e co n vid a o leit o r a seg u ir o s seg u in t es m o vim en t o s:
A Alm a f ala, ar g u m en t a, se p r o t eg e. O Co r p o se d ef en d e, se silen cia o u se evad e. O d iscu rso d a Alm a – A Alm a, suas t est em u n h as e seu s d ef en so r es t êm ar g u m en t o s q u e cr êem ser suf icien t es p ar a p r o var q ue a Esco la, ef et ivam en t e, “n ão é u m lugar co r p o r al”, vist o q ue se t r at a d e um esp aço p r ivilegiad o d o en t en d im en t o , d a r azão . (ib id ., s/p , g r if o s d o au t o r )
Den o m in a esses m o vim en t o s co m o sen d o ver d ad eir o s in cô m o d o s co r p o r ais n a esco la q u e d ep en d em ap en as d e aju st es
q u e ser ão f eit o s à m ed id a q u e o in f an t e in g r essan t e p er m an ece lo n g am en t e em seu in t er io r . Desd e a m ais t en r a id ad e, q u alq u er
sin t o m a co rp o ral é d et ect ad o co m o p at o ló g ico . O co r p o r al é
p at o ló g ico . Co n seq ü en t em en t e, t o d o at r aso esco lar (co g n it ivo ) t em d ir et am en t e o u in d ir et am en t e a v er co m u m r et ar d am en t o co r p o r al. A in t elig ên cia est á d e u m a f o r m a o u d e o u t r a lig ad a à co n d ição co r p o r al d o s est u d an t es. Po r isso m esm o , a p r esen t e t est em u n h a p o r t a co m ela t o d o s o s d o ssiês q u e asseg u r am o em b asam en t o p ed ag ó g ico , cien t íf ico , f ilo só f ico , in st it u cio n al d est a p er sp ect iva. (ib id ., s/p , g r if o s d o au t o r )
Dian t e d esse cen ár io , Di Man n o en t en d e q u e o co r p o r eag e. A o p o sição en t r e a ar t e e o co n h ecim en t o r acio n al, sem elh an t em en t e à d ico t o m ia co r p o e alm a, p er m eia q u ase t o d a a o b r a d im an n ian a, co m p r ed o m in ân cia p ar a o sen sível, q u e v alo r iza a est ét ica d a sen sib ilid ad e, q u e p o r su a vez d á vo z ao co r p o q u e p er ceb e, sen t e e r essen t e essa sep ar ação q u e é d esf av o r ável a ele:
O Co r p o p er ceb e, sen t e, r essen t e essa sep ar ação , q u e é co n t r a ele. Às vezes co n t est a, d ist r aíd o p o r in st an t es, esq u ecen d o -se q u e as co n d içõ es ad ver sas t o r n am su a ar g u m en t ação f r aca d em ais p ar a ser su st en t ad a d ian t e d o s r acio cín io s d a Alm a. Po is est a n ão est á só , u m a v ez q u e est á p r o t eg id a p o r ap ar at o s q u e a su st en t am an t es m esm o q u e ela p r o n u n cie q u alq u er p alav r a. Po r isso o Co r p o en t en d e q u e o am b ien t e lh e é am p lam en t e d esf avo r ável. (ib id ., s/p )
Co m ef eit o , t o d o esse m o vim en t o d esf av o r ável in d u z o co r p o a en co n t r ar ,p o r si m esm o , u m a saíd a e o f az, sep ar an d o -se d elib er ad am en t e d est e am b ien t e, ain d a q u e p er m an eça n ele (co r p o p r esen t e). Já en t en d eu o am b ien t e sect ár io d a Esco la: est a q u er ap en as
p ar t e d ele, a su a cab eça, a in t elecção , o r acio cín io , a in t elig ên cia. Já ap r en d eu as liçõ es d o silên cio .
Ab o r d an d o p r o p r iam en t e o co r p o , d est aca q u e ele é p o u co exig id o . Ressalt a q u e a ed u cação f o r m al e in st it u cio n alizad a p r ivileg ia ap en as o car át er p er f o r m at ivo d e su a in t elig ên cia (o u d aq u ilo q u e est a ed u cação en t en d e p o r in t elig ên cia): h ab ilid ad es co g n it ivas, o p er açõ es d o p en sam en t o , r acio cín io , ar g u m en t o , ar t icu lação o r al, r ef lexão , p r evisib ilid ad e.
Lem b r a ain d a q u e o co r p o já vem in st r u íd o d e casa, o n d e in st r u i - se t am b ém n o co t id ian o n o co n t at o co m as r elaçõ es f r u st r ad as o u d aq u elas q u e lh e f izer am b em . Evid en cia q u e o silên cio é f u n d am en t al n as r elaçõ es. Per ceb e q u e m ais d o q u e o silên cio , a p alavr a p r o n u n ciad a p assa a ser u m t r u n f o n as m ão s d o s o u t r o s.
Co n sid er a em seu t ext o q u e u m a p alavr a d it a ser ve p ar a q u e o o u t r o o am eace d izen d o “vo u r evelar seu seg r ed o ”, e ao m esm o t em p o en t en d e q u e o silên cio t am b ém é u m a ar m a, u m escu d o co n t r a a in vasão alh eia, q u e n o s au xilia e n o s lan ça n o jo g o , n o d o m ín io , n a b at alh a, n a lu t a p ela so b r evivên cia.
Nest e p o n t o p o d e-se in f er ir q u e o co r p o d ico t o m isad o é ext r em am en t e sen sível e p o r isso cala-se n a esco la u san d o a in t elig ên cia e r et o m a as su as m em ó r ias d o silên cio , co m o co n t r o le d o o u t r o , ch ar m e d a cr ian ça, sed u ção d o o u t r o , a cu m p licid ad e, o su sp en se, o m ed o , a co var d ia, a co m p aixão , a in u t ilid ad e d as p alavr as. A q u est ão d o ín t im o e d o f o r o ín t im o , q u e ch am a d e r ed u t o d e seg u r an ça d o su jeit o é t r at ad a co m o f o r t aleza q u e r esist e m u it as vezes at é a t o r t u r a.
Mesm o assim , g u ar d am o s o seg r ed o em n ó s m esm o s, p o is p o d em o s d izer aq u ilo q u e o t o r t u r ad o r q u er o u vir , sem jam ais d izer o q u e r ealm en t e silen ciam o s em n ó s – sem co n t ar q u e se silen cia em n ó s u m m ist ér io , p o is n ão sab em o s t u d o d e n o sso silên cio e d e n o sso silen ciam en t o . (ib id ., s/p )
Den t r o d o co n t ext o d as r eaçõ es d o co r p o , ver if ica-se q u e o f iló so f o t ece co m en t ár io s r eco r r en t es so b r e a cat eg o r ia co r p o -est ét ico , t em a ab o r d ad o em seu ar t ig o “Fo r m ação Co n t in u ad a Co m o Pr o cesso Tr an sf o r m ad o r ”18:
A t o d o esse co n ju n t o d e co n h ecim en t o s ad vin d o s d a exp er iên cia, so m a-se a exp er iên cia est ét ica d o silên cio . Os p r azer es d o Co r p o se n ão in t eir am en t e en vo lvid o s co m o silên cio , o f aceiam em t o d as as exp er i ên cias. Fech ad o s o s o lh o s, o Co r p o m al co n seg u e se exp r essar q u an d o d eg u st a o alim en t o q u e o sacia e lh e d á p r azer ; O silên cio aco m p an h a o d esejo sexu al, q u e so licit a n o seu clím ax a au sên cia d a p alavr a ar t icu lad a, su p o r t an d o ap en as o g r it o o u a g r u n h id o , em d ir eção a u m silên cio em q u e o s co r p o s en vo lvid o s en co n t r am -se n o m ais ín t im o d e su a vivên cia est ét ica Co m seu s co n h ecim en t o s n ão f o r m ais, casu ais, exp er ien ciais, viven ciais (a ep ist em o lo g ia d o co r p o ), o Co r p o se silen cia d ian t e d a r ed u ção d as exp er iê n cias q u e a ed u cação f o r m aliza e in st it u cio n aliza. Não so m en t e p o r q u e a esco la é u m lu g ar p r o p o sit al d e silen ciam en t o d o Co r p o , m as p o r q u e o Co r p o en t en d eu o q u an t o o s an t ico rp o s ed u cacio n ais n ão ser ão v en cid o s se ele f alar . Ele se cala, p o r t an t o . (ib id ., s/p )
É p o ssível, a m eu ver , co n sid er ar esse co m p o r t am en t o u m at o h u m an o p ar t icu lar m en t e im p o r t an t e, p o r q u an t o o calar é p r ó p r io d o ser es h u m an o s. Não p o r casu alid ad e an t e as co n st at açõ es ver if icad as, o t r ab alh o d im an n ian o ag o r a se p r eo cu p a em d esf azer o cen ár io p o u co p r o p ício às lid es ed u cacio n ais. Seu ar r azo ad o é cat eg ó r ico : “Se a esco la n ão é lu g ar d o co r p o , est e já en t en d eu b em a m en sag em ” (ib id ., s/p ). Seg u n d o su a ó t ica, q u e n ad a t em a ver co m a t r ad ição acad êm ico - ep ist em o ló g ica, o co r p o r eco n h ece o p r ed o m ín io d o in t elig ível e a ir r ed u t ib ilid ad e d o s p r o cesso s ep ist em o ló g ico s d a ed u cação f o r m al, b em co m o a in t r an sig ên cia d a g est ão e d a p o lít ica ed u cacio n ais. Cer cad o d esses m o vim en t o s an t ico r p o s, o co r p o t em ciên cia d o co t id ian o in t elig ível d a esco la.
Par a Di Man n o , o co r r e n est as o casiõ es aq u ilo q u e p ar a ele é a ch am ad a “d eclar ação d e Deb an d ad a”, p o r q u e o p r azer n ão est á ali, n ão h á n ad a a d esco b r ir , in exist e clim a h eu r íst ico , n ad a t em a ver co m a
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Texto produzido juntamente com a Profa. Dra. Maria Leila Alves, abordado nesta pesquisa, às páginas 54-57.
im ag in ação . O q u e o co r r e é a in sist ên cia d a n ecessid ad e d o est u d o in t elect u al, a sist em at ização d a p r át ica d o in ven t ár io t eó r ico d o s escr it o s d o s g r an d es n o m es, a r ep et ição e t r ad ição d o s g est o s r acio n ais ar r aig ad o s n as p r át icas d id át icas e a esp ecialização e d o m ín io d e d ad o s.
Daí n asce a p er g u n t a: “Po r q u e co n t in u ar vin d o à esco la? A r esp o st a vem car r eg ad a d o sen t id o est ét ico q u e é p ecu liar n o p en sad o r :
É f alt a d e sen sib ilid ad e co r p o r al n ão p er ceb er q u e seu s p asso s n a esco la n ão in d icam r ast r o s d o s q u e vêm , m as d o q u e p ar t em . Po r isso são as r elaçõ es f r at er n as, am o r o sas, co m co leg as e alg u n s m est r es (q u e se são r eco n h ecid o s co m o am ig o s) q u e o f azem r et o r n ar . (ib id ., s/p )
A p ar d o sen t id o est ét ico e t en d o u m a co n o t ação d e lam en t o , r ef er e-se t am b ém ao sen t id o p r ag m át ico u t ilit ar ist a q u e as p r o m essas