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A imposição da racionalidade social e espacial do circuito superior, gerando fragmentos racionalizados na cidade, proporcionou também um conflito político e ideológico entre as feiras livres e os agentes do circuito moderno apoiados pelo Estado. Assim, a persistência das feiras livres no atual período de globalização é marcada por esses conflitos (JESUS, 1992).

O surgimento dos primeiros agentes do circuito superior na cidade de Natal, desde o final da década de 1970, provocou o início de um conflito, principalmente quando os jornais da cidade mostravam a decadência e a redução de consumidores na feira do Alecrim. Os jornais noticiavam que a feira do Alecrim criava problemas de trânsito, sujava as ruas, gerando assim, conflitos entre os moradores e os comerciantes fixos do bairro, já o Estado não intervinha esperando o desaparecimento da feira (FERRETTI, 2000).

Nesse conflito político, observa-se que o Estado protege e atende, sobretudo, aos interesses dos agentes do circuito moderno com investimentos diretos e indiretos, em infraestrutura e incentivos fiscais principalmente. O Estado atende, portanto aos interesses do circuito superior, deixando de investir em serviços universais de educação, saúde, segurança, moradia, e lazer, que são de interesse da população em geral. O Estado também aumenta o número de normas, através de diretrizes e leis, que fiscalizam e sancionam as feiras livres. Em Natal, a Lei Nº. 6.015, de 10 de dezembro de 2009, dispõe sobre a regulamentação das feiras livres. A administração desses eventos sócio-espaciais compete a SEMSUR, bem como a fiscalização do funcionamento dessas, o licenciamento da atividade, a autorização de

permanência dos feirantes, e a punição que resulta das infrações, portanto a aplicação de penalidades para os feirantes (PMN, 2009).

A normatização das feiras livres provocou um constante remanejamento dos locais das feiras e dos horários de seu funcionamento, o recadastramento dos feirantes e a limitação do número de barracas por feira livre. Essas ações conjuntas da prefeitura municipal de Natal com o Ministério Público Estadual tornaram-se alvos de protestos e insatisfação por parte dos feirantes.

No conflito ideológico, os agentes do circuito superior investem em publicidade e propaganda, e aproveitam as mídias de massa para buscarem tornar seus empreendimentos positivos e mais interessantes ao público. Enquanto isso, a mesma imprensa e a mesma mídia enfatizam a extinção das feiras, a venda ilegal de animais silvestres e pescados, a falta de higiene, a sujeira, o abandono, e os assassinatos ocorridos nas feiras livres, ou seja, passa-se aos leitores desavisados que a feira livre é um problema sem fim em Natal. O Quadro 05 mostra as notícias sobre as feiras livres de Natal, entre os anos de 2006 e 2011, publicadas em um jornal da cidade.

Quadro 05 – Notícias sobre feiras livres publicadas em um jornal da cidade de Natal-RN.

Notícia Data da publicação

Ministério Público pede a suspensão de três feiras livres 02 de Junho de 2006

Ibama faz apreensão de 150 caranguejos em feira-livre 25 de Janeiro de 2007

Prefeitura padroniza feira do Alecrim 11 de Março de 2007

Feiras livres vão ganhar barracas 22 de Março de 2007

Feira do Alecrim muda de horário 12 de Maio de 2007

Feira do Alecrim ganha bancas padronizadas 16 de Junho de 2007

Bom Pastor ganha nova feira livre com 284 barracas 20 de Outubro de 2007

Feira Agroecológica: filosofia de comer bem 07 de dezembro de 2007

Grupo de alunos realiza estudo sobre a feira livre das Rocas 19 de Abril de 2008

Feira livre da Cidade da Esperança vai ganhar galpão e praça 15 de Agosto de 2008

Feiras livres sofrem com abandono e falta de padrão 14 de Abril de 2009

Semsur deve relocar tendas da feira do Carrasco 22 de Abril de 2009

Feirantes são contra remanejamento da feira do Carrasco 23 de Abril de 2009

Audiência discute remanejamento da Feira do Carrasco 07 de maio de 2009

Moradores pedem algumas mudanças na feira do Carrasco 10 de Junho de 2009

Feiras livres de Natal terão novas barracas até dezembro 17 de Junho de 2009

Semsur apoia apresentações culturais nas feiras livres 13 de Julho de 2009

Semsur debate padronização das feiras com secretário de Belém 21 de Julho de 2009

Feira da Esperança vai ganhar galpão multiuso 02 de Agosto de 2009

Ação pede humanização das feiras 12 de Agosto de 2009

Feirantes criticam retirada de energia elétrica em feiras livres 17 de Agosto de 2009

Horário para fim da feira é motivo de reclamações 18 de Agosto de 2009

Semsur oficializa parceria para viabilizar padronização das feiras livres 01 de Setembro de 2009

CMN aprova projeto que regulamenta feiras livres de Natal 25 de Novembro de 2009

Venda de lanches é proibida nas feiras livres de Natal 11 de Dezembro de 2009

Poda e lixo de feira vão virar adubo em Natal 12 de Janeiro de 2010

Feiras das Rocas, Carrasco e Alecrim terão horário diferenciado 09 de Fevereiro de 2010

Polícia apreende pássaros em feiras livres 11 de Julho de 2010

Homem é executado na feira de Nova Natal 25 de Julho de 2010

Semsur reloca R$ 4,4 mi para recuperação de feiras livres e canteiros 30 de Julho de 2010

Prefeitura tem 90 dias para regularizar feira das Quintas 28 de Outubro de 2010

Feiras livres: Problema sem fim em Natal 07 de Novembro de 2010

Prefeitura tem 90 dias para regularizar feiras do Alecrim, Planalto e

Pajuçara 07 de Dezembro de 2010

Polícia Ambiental apreende 86 animais silvestres em feiras livres 03 de Abril de 2011

Moradores reclamam dos transtornos causados pela Feira da Cidade da

Esperança 25 de Julho de 2011

Prefeitura e Estado promovem ação na feira da Cidade da Esperança 30 de Julho de 2011

Barraca do incêndio na Cidade da Esperança agora funciona com

fritador elétrico 31 de Julho de 2011

Feira livre como práticas de ensino/aprendizagem 06 de Agosto de 2011

Dados: Tribuna do Norte, 2011.

Geralmente, as notícias publicadas nos jornais da cidade enfatizam diversos problemas e questões relacionadas às feiras livres de Natal. Não se deve negligenciar que é necessário um aprimoramento em higiene, boas condições sanitárias, limpeza, fiscalização, policiamento e um bom ambiente de venda, de compra e de convivência dentro das feiras. Mas, por trás dessa normatização e de tais notícias existe um aparelho político e ideológico, que negligencia, despreza, deturpa e oprime as feiras livres, de forma a causar inquietação e até transtornos à população que reside próximo aos locais das feiras, gerando ainda uma má impressão sobre esses eventos espaciais. Esse tipo de manifestação contra as feiras livres atende, sobretudo, aos interesses e a racionalidade imposta pelos agentes hegemônicos do circuito superior sob a tutela do Estado. Mesmo assim, reconhece-se a persistência, resistência e até expansão das feiras livres em Natal.

Apesar dessa intensa disseminação de uma ideologia contra a s feiras livres, estas são utilizadas e apropriadas, contraditoriamente, pelos agentes do circuito superior como forma de capilarização dos seus produtos. Assim, as feiras livres e os feirantes são cooptados e inseridos na lógica de reprodução do capital, a partir da presença dos agentes do circuito superior, por exemplo, com vendedores de chips de telefonias móveis, bancas de venda de títulos de capitalização, vendedores de TVs via satélite por assinatura e revendedores de motocicletas.

Diante da persistência e resistências das feiras livres em Natal, se pode periodizar esses eventos espaciais em três grandes momentos, como mostra a matriz de periodização na Figura 01. Não há uma ruptura definitiva entre esses três grandes períodos propostos, pois, elementos de um período anterior, continuam a existir em outro período. Esta proposição mostra apenas um olhar particular, que poderia ser diferente a partir de outra concepção teórica e metodológica, não se tratando, portanto, de uma periodização enrijecida.

Elaboração: Thiago Augusto Nogueira de Queiroz, 2011. Figura 01 – Matriz de periodização das feiras livres de Natal.

No primeiro período, entre 1870 e 1970, nota-se um crescimento populacional e da mancha urbana de Natal, com a criação das primeiras feiras livres nesse espaço, um elemento cultural e tradicional trazido pelos imigrantes, que se tornou expressiva na economia urbana da capital potiguar. O segundo período é marcado, primeiramente, pela continuação do crescimento urbano e populacional, como também pelo “transbordamento” da macha urbana de Natal para outros municípios, pela expansão dos vetores da economia moderna da globalização, e pela expansão e normatização das feiras livres, gerando um conflito político e ideológico.

As notícias de jornais, também mostram um lado positivo, abordando os novos usos das feiras livres. Por exemplo, um grupo de professores de uma escola pública, da cidade de Natal, trabalha o conteúdo escolar, levando os alunos às feiras, aproveitando o potencial em termos de conhecimentos, saberes e manifestações culturais presentes nesses eventos.

As feiras das Rocas, Carrasco, Alecrim, Lagoa Seca, e Cidade da Esperança, foram beneficiadas com a padronização e turistificação iniciada em 2006. Mas, a negligência por parte dos governos municipais fez com que o projeto não fosse concluído, e as primeiras

feiras com tendas padronizadas já estão precisando de uma nova manutenção. Também foi de suma importância a liberação de apresentações artísticas e culturais nas feiras livres da cidade, tornando-se fonte de sobrevivência para diversos artistas locais.

Esses novos usos nas e das feiras livres leva-nos a acreditar que estamos em transição para um novo período, um terceiro período. Seria o período popular da história:

Para a maior parte da humanidade, o processo de globalização acaba tendo, direta ou indiretamente, influência sobre todos os aspectos da existência: a vida econômica, a vida cultural, as relações interpessoais e a própria subjetividade. Ele não se verifica de modo homogêneo, tanto em extensão quanto em profundidade, e o próprio fato de que seja criador de escassez é um dos motivos da impossibilidade da homogeneização. Os indivíduos não são igualmente atingidos por esse fenômeno, cuja difusão encontra obstáculos na diversidade das pessoas e na diversidade dos lugares, Na realidade, a globalização agrava a heterogeneidade, dando-lhe mesmo um caráter ainda mais estrutural.

Uma das consequências de tal evolução e a nova significação da cultura popular, tornada capaz de rivalizar com a cultura de massas. Outra é a produção das condições necessárias à reemergência das próprias massas, apontando para o surgimento de um novo período histórico, a que chamamos de período demográfico ou popular (SANTOS, 2000, p. 142-143).

Portanto, esse período popular caracteriza-se pela valorização da cultura popular em contraposição à cultura de massa, quando outros e novos usos dos objetos técnicos atuais são postos à tona, visando um mundo como possibilidade, evidenciando-se a força do lugar, dos “homens lentos”, e a “flexibilidade tropical”, no caso específico, a partir dos novos usos das feiras livres.

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