Para além do terceiro momento da cultura digital, que trata o lugar como eixo central de funcionalidade e articulação, o quarto momento identificado traz dois elementos concomitantes em sua estrutura principal. O primeiro deles tem a ver com o acesso à internet e à produção de conteúdo, tendo a mobilidade como novo paradigma desse momento. Embora ainda se possa acessar a internet por meio de computadores fixos, as viabilidades técnicas dessa fase já ultrapassa- ram o conceito de computador estático e lidam com as ideias de ubiquidade e computação espalhada. Potencialmente, espera-se que boa parte dos objetos co- tidianos estejam conectados em rede e sensíveis ao contexto espacial – muita embora o telefone celular seja o exemplo maior dessa hiperconectividade.
A mobilidade, nesse cenário, diz respeito não só à possibilidade de locomo- ção como também à relação dos objetos e dispositivos eletrônicos com seu entor- no. O lugar continua tendo um papel preponderante, mas não necessariamente
precisa lidar com as manifestações experimentais das primeiras iniciativas em mídias locativas (que realmente o colocavam em destaque): ele pode servir, afi- nal, como contextualizador das dinâmicas sociais. É esse papel levemente des- centralizado que nos faz indicar a ocorrência de um novo momento. Se, nas ex- periências iniciais das mídias locativas a relação com o lugar precisava do papel principal a fim de angariar as atenções às novas capacidades técnicas daquele momento, agora a localização pode ser posta num papel dialógico com outros recursos tecnológicos.
O segundo elemento que compõe o eixo desse novo momento são as redes sociais mantidas e visualizadas por meio técnico. Os sites de redes sociais não criaram o conceito de “rede social”, uma ideia trabalhada em áreas diversas, como Ciências Sociais e Matemática, mas conseguiram erigir uma metáfora para um novo tipo de ambiência paradigmática – que, a um só tempo, nem são blogs pessoais nem comunidades virtuais, mas trouxeram um pouco de cada. Nessas ambiências, a persistência, a visibilidade, a espalhabilidade e a buscabilidade (BOYD; ELLISON, 2011) dos dados digitais possibilitam que todo o conteúdo, in- cluindo os laços estabelecidos, assumam um aspecto de portabilidade. Ou seja, podem ser “transportados” para diferentes tipos de ambiências e acessos, in- cluindo os aplicativos para smartphones.
Em outras palavras, ao se depararem com o potencial (desestabilizador, a priori, mas repleto de oportunidades, a posteriori), os sites de redes sociais precisaram se reinventar em suas proposições. Uma vez que os sites de redes sociais passaram a atuar como ambiências eletrônicas cujo alicerce é a identi- ficação e a ligação de pessoas entre si, as invenções posteriores, especialmente a transposição dessa estrutura nodal para o dispositivo móvel, possibilitaram a imediata correlação de indivíduos com a prática do espaço – daí o surgimento de redes sociais baseadas em localização. (SUTKO; DE SOUZA E SILVA, 2011) Mas o próprio movimento visualizado em nosso histórico nos leva à compreensão de que plataformas de redes sociais estão se deslocando para os dispositivos móveis e sendo mescladas a recursos georreferenciais.
A passagem do século XX para o século XXI trouxe a capacidade de pessoas mapearem digitalmente a si e a seus laços sociais, sublinhando a ocorrência de uma espécie de olhar rizomático que traça linhas (invisíveis, mas rastreáveis) a ligarem os indivíduos e explorarem as decorrências dessas ligações. O espaço, nesse caso, vai além de acolher as pessoas, estabelecendo um diálogo que, a um
só tempo, cria as bases para sua própria transformação e desafia a forma como os elos e as dinâmicas sociais se estabelecem.
É diante desses desafios que enxergamos um movimento duplo de integração e incorporação de sensibilidade à localização e elos sociais como fomentadores de dinâmicas em rede. Nesse contexto, tanto a espacialidade quanto os laços que uma pessoa tem com outras atuam na maneira como os dados em rede são coletados, contextualizados e ofertados de volta sob a forma de serviços, conteúdos, buscas, dentre outras possibilidades. Isso significa que não só a espacialidade é apreendida e construída de forma a depender desses laços, como as próprias redes sociais já não mais se localizam num espaço etéreo e, supostamente, sem relações com a materialidade cotidiana. Esse cenário, diante de tais correlações de dados, oferece algumas possibilidades que já se desenham com certa clareza, como o uso da localização para a proposição de dinâmicas momentâneas e o uso concomitante de dados georreferenciais e de laços sociais, ambas possibilidades aplicadas a serviços, softwares e dispositivos digitais. Além disso, frisa-se com isso a natureza social do espaço (LEFEBVRE, 1991) e que lugares e localizações não independem do olhar e das dinâmicas hu- manas. Compreende-se, assim, que espacialidade pode influenciar diretamente na oferta, no consumo e na produção de informações, tanto quando baseadas na localização quando baseadas na temporalidade das ações e até no histórico de movimentações individuais e de amigos próximos.
Na medida em que essa quarta fase toma as ligações sociais dos indivíduos para a formação do seu eixo central, ela ainda sublinha a pessoa e sua indivi- dualidade como elemento crucial para o funcionamento de serviços, aplicativos, sites etc. A própria localização, afinal, também ressalta essa dimensão indivi- dual, especialmente ao criar um elo entre um perfil pessoal e suas movimenta- ções. Isso nos leva ao entendimento mais claro de que, para todos os efeitos, esse momento se distancia das proposições temáticas daquele primeiro visualizado e toma os mesmos eixos do segundo e do terceiro momentos, integrando essas duas colunas paralelamente. Dessa forma, nem os laços sociais nem a localiza- ção contam mais que o outro: os dois tipos de dados ajudam na composição e na proposição de dinâmicas em rede. Contudo, esse movimento e seu caráter indi- vidual não implica num isolamento da pessoa (mesmo porque ela está conecta- da a outros indivíduos): apenas sublinha o aspecto personalizado que modelos de negócio, aplicações e produtos diversos nesse contexto se apresentam.
Tendo em vista esses aspectos considerados, propomos no Quadro 1 uma atualização do que já foi apresentado, alocando um quarto momento da cultura digital, o qual tem, como eixo central das dinâmicas sociais e do funcionamento de aplicações e serviços, uma dupla arquitetura e utilização de dados relativos à espacialidade e aos elos sociais dos indivíduos em rede. Nesse quarto momento, assim, localização e redes sociais entrecruzam-se, arrematando em si um aspec- to de materialidade e disposição de informações em rede.
Quadro 1 - Momentos da cultura digital quanto à relação do espaço com as formas sociabilidade em rede
Momento Eixo central das articulações em rede
O papel
do espaço Relação entre o espaço e as formas de congregação social
Paradigma de acesso à internet / natureza das informações
1º momento Tema como eixo central.
O espaço e suas constrições são vencidos.
Espaço como metáfora.
Espaço serve de tema e contextualização das pessoas (cidade natal, cidade de moradia etc.). Criação de ambiências pautadas em metáforas (salas, canais etc.)
Computador fixo e pessoal; informações comuns a todos.
2º momento Pessoa como
eixo central. Espaço desconstruído e expandido: as ambiências não lidam com metáforas e um novo espaço é erigido.
Ligações interpessoais pautadas em indivíduos como nós de uma rede.
Computador fixo e pessoal; informações e interações personalizadas. 3º momento Lugar como eixo
central. Espaço interfere no funcionamento. Congregações presenciais; o espaço serve de contexto. Telefones celulares; informações e interações personalizadas. 4º momento Localização e elos sociais no eixo central Espaço desconstruído e expandido: sites de redes sociais explodem em networked publics. Espaço interfere no funcionamento.
Ambiências acessíveis por dispositivos móveis. Dinâmicas sofrem interferência dos elos sociais e da espacialidade Dispositivos móveis em geral (smartphones, tablets, smartwatches); informações e interações personalizadas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao questionarmos o papel do espaço para as interações eletronicamente media- das, buscamos, neste texto, entender como a sociabilidade encontrou formas específicas perante a espacialidade e as ambiências digitais. Está claro que, em termos comunicacionais, outros formatos próprios desse campo de estudo (jor- nalismo, fotografia, audiovisual, política etc.) apresentam seus próprios históri- cos, seus marcos e suas estruturações distintas. Portanto, quando visualizamos
o caminho apresentado, compreende-se que esse resultado se remete a uma di- mensão interacional do cotidiano.
A estruturação desses momentos (especialmente o quarto) não diz respeito ao futuro, mas aos anos recentes e, no máximo, às tendências visualizáveis para etapas a seguir. Nesse sentido, tanto as áreas de criação de aplicações e soluções digitais quanto as das pesquisas científicas devem seguir atentas aos dispositi- vos móveis como campos de interesses, de produção da cultura, de incorpora- ção tecnológica e de desenvolvimento social. Assim, é necessário entender que as dissociações e as preocupações territoriais de outros tempos já não fazem o mesmo sentido. Se as décadas de 1990 e de 2000 testemunharam uma massiva “migração” para a web enquanto seara de atuações, com suas metáforas visuais e conceituais (desktop, interfaces gráficas), a fase de “download” do ciberespaço (LEMOS, 2009) já punha em xeque aquele espectro de “alucinação consensual” anteriormente frisado e, agora, os dispositivos móveis - quer sejam celulares, quer sejam wearables – devem ser entendidos como o paradigma de conexão constante e de mediações nas interações. Ao mesmo passo, a ubiquidade e a pervasividade da cultura digital serão outras dimensões a explorarem o espaço conceitual e empiricamente.
A espacialidade, agora atrelada aos elos sociais, apresenta-se como um dos recursos tecnológicos e simbólicos que interferem significativamente nas re- lações, interações e congregações efetivadas em rede. O espaço não mais é um elemento entendido como continente nem meramente físico: é apreendido e produzido por meio de códigos-fonte, softwares, sensores e ferramentas digitais. Além disso, saiu de um patamar de uso metafórico e de contextualização (salas de chat, por exemplo) para um nível em que, ao mesmo tempo, sublinha sua mate- rialidade e imaterialidade: é atribuído ao cotidiano sob a forma de metadados de localização, que são produzidos efetivamente a partir da própria espacialidade.
Em conjunção, tecnologias que lidam com o espaço e as redes sociais cami- nham para um amadurecimento em termos de funcionalidade de serviços em rede. Essa ideia já se mostra com clareza quando visualizamos o modo como aplicativos e recursos básicos dos smartphones realizam a leitura da localização e de contatos pessoais. Serviços voltados à locomoção (Uber, 99, Waze), à pa- quera (Tinder, Grindr, Happn), à busca espacial (Google, Foursquare) e mesmo as principais redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram) abarcam a localização e a contextualização espacial como dados produtores de novas relações de uso,
fruição e sociabilidade – agora não mais de maneira experimental, mas de forma silenciosa e mesmo subentendida. Essa incorporação discreta do espaço e da lo- calização aos serviços, às redes e às tecnologias em geral é um demonstrativo de que informações, interações e funcionalidades estão sendo compostas e progra- madas a partir de contextos espaciais e sociais, ou seja, levam em consideração não apenas localizações específicas, cidade natal ou de moradia, mas também buscam realizar leituras de elos sociais (amizades, laços de trabalho, familiarida- de etc.) para compor dinâmicas individualizadas e circunstanciais. Dessa forma, cada um dos momentos é um indício de demarcação paradigmática, com uma consequente superação de cada um deles em busca de novos formatos e práticas sociotécnicas. Espera-se, assim, que, tendo em vista conceitos como cidades in- teligentes, objetos conectados, computação pervasiva e wearables, uma vez mais o espaço passe por novas transformações conceituais e empíricas diante do sur- gimento e da ampla adoção dessas novas tecnologias.
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