O segundo momento identificado é aquele que começa a se articular a partir do surgimento de blogs, desaguando, como forma de estruturação nodal egocen- trada, nas redes sociais mantidas por tecnologias digitais. A expressão máxima desse momento se dá com os sites de redes sociais (BOYD; ELLISON, 2007) que, estabelecendo um meio termo entre os blogs e as comunidades virtuais, já não mais adotam simplesmente uma proposta temática como eixo central das dinâ- micas em rede: a partir de então, são as pessoas, suas expressões e ligações indi- viduais que contam como fundamento e razão desse tipo de ambiência.
Em termos interacionais e representacionais, é notória a diferença: se antes se lidava com pseudônimos (nicks) e avatares (imagens e/ou personagens repre- sentativos), neste segundo momento, usuários de redes sociais, como Twitter e Facebook, costumam adotar elementos identificadores mais próximos das ca- racterísticas “reais” – como nomes verdadeiros, imagens condizentes ao aspecto físico do indivíduo etc. As formas de relacionamento nesse novo cenário estão intensamente voltadas para a identidade e para as correlações de outros elemen- tos que com ela podem se estabelecer. (BAYM, 2010)
Os discursos sobre a cultura digital saíram do patamar da inteligência cole- tiva (LÉVY, 1996) ou de uma sociedade em rede (CASTELLS, 2000) para um ce- nário de conexões individuais. É notório que cada site apresente configurações, categorias e opções diversas para a exteriorização da identidade pessoal – uma espécie de movimento constante de negação do anonimato e uma reiteração do
aspecto individual das informações ali dispostas. Os sinais mais importantes aí utilizados seriam o nome e a fotografia pessoais, o que confere não só a per- cepção de autenticidade, confiança e unicidade – ou seja, uma corrente que liga nome, imagem e a existência factual de uma única pessoa –, mas também a pos- sibilidade de replicar ali os laços já estabelecidos fora daquele ambiente. (BAYM, 2010) Isso nos leva a um ponto característico das redes sociais digitais: são os perfis individuais que tomam o foco central desse tipo de ambiente.
Saímos, assim, de uma experiência em rede baseada em coletividade (es- paços metafóricos como salas de bate-papo ou fóruns) para um tratamento do indivíduo enquanto o nó mais importante ou estável daquela rede. (WELLMAN, 2011) Essa importância e essa estabilidade se dão na compreensão de que tudo pode mudar – de temas abordados a elos amistosos, mas o indivíduo é sempre um nó disponível a partir do qual se podem tecer novas ligações. Diferente de uma sala de bate-papo, as estruturas dos sites de redes sociais apresentam um caráter de persistência (BOYD, 2011) quanto aos cadastros individuais e quanto aos elos sociais. Com essa nova fase inaugurada por esse tipo de ambiência, des- ligar o computador deixou de significar uma ausência imediata da ambiência interacional associada.
Efetivamente, assuntos específicos e lugares de contextualização (cidade natal, moradia, instituição de estudo etc.) ainda entram em cena nesse contexto, mas o motivo maior da existência dos sites de redes sociais, da maneira descrita anteriormente, sublinha o elo entre indivíduos em rede como a estruturação ge- ral dessa fase. As pessoas passam a utilizar essa estrutura tecnológica de modo tal a terem um espaço de expressão e de ligação entre amigos, colegas de traba- lho, familiares etc. – o que as coloca diante de uma espécie de “reencontro” no ainda dito ciberespaço.
Esse aspecto individual e egocentrado não indica um suposto isolamento das pessoas: apenas denota uma forma de elo que deixa de lado a predominância do caráter relativamente amorfo das comunidades e traz à tona a possibilidade de modelagem e visualização de nós, seus vínculos e suas interações. Ainda que haja essa centralidade no modo de fruição e utilização desses serviços, são os elos entre esses membros que fazem um determinado site ser uma rede e ter sen- tido de utilização e pertencimento. A pessoa, nessa fase, é atomizada ao passo que suas individualidades contam radicalmente para esse cenário como elemen- tos distintivos e identificadores. Em outras palavras, passa-se a ter a percepção
exata de que não é com qualquer pessoa que alguém traça elos sociais: é com um indivíduo específico, o qual representa um elo de significado e índice material em seu cotidiano.
Uma das características principais que podemos sublinhar das estrutu- ras sociotécnicas desse momento, notoriamente nos sites de redes sociais, é a natureza perene dos elos sociais – o que nos coloca num patamar totalmente inédito. Diferente do momento anterior, pautado em acessos efêmeros, agora temos estruturas que mantêm, tecnicamente e de maneira automatizada, as ligações entre as pessoas. Nesse contexto, uma desconexão repentina não im- plicava mais num esfacelamento imediato dos elos entre indivíduos: as pessoas não precisariam voltar a se “procurar” e reiniciar a interação, pois o elo seria mantido pelo sistema. Dessa forma, tornou-se possível assumir diferentes tem- poralidades para as interações em rede, uma vez que tantos os laços passaram a ser persistentes quanto os dados a serem recuperáveis. (BOYD, 2011; RIBEIRO, SILVA, 2013) Igualmente, as estruturas interacionais dos sites de redes sociais passaram a permitir que as conversações fossem estabelecidas de modo assín- crono, dispensando uma “presença” concomitante de todos os atores envolvidos em determinadas interações ou trocas comunicacionais. Sem a percepção clara de ajuntamentos sociais, esse alastramento temporal complexifica a criação e a manutenção de situações e conversações, que parecem se arrastar indefinida- mente e sem clareza de fechamento.
Esse momento também sublinha a possibilidade de congregação para além das imediações – o que também tem a ver com o propósito central desse tipo de ambiência. Se a ideia das comunidades virtuais era propiciar uma ambientação para conversações pautadas em temas, a lógica por trás dos sites de redes sociais foi a de replicar amizades já efetuadas no cotidiano, como já indicado por Baym (2010). Essa visão, vale ressaltar, ainda traz algum ranço das distinções entre off-line e on-line (pois teimam em fazer um upload das relações “reais”), mas essa dualidade já começa a se enfraquecer, nesse momento, à medida que as intera- ções transcorridas em ambiências eletrônicas têm reverberações “na vida real” (especialmente por conta das identificações pessoais e da visualização pública de laços sociais). Assim sendo, o que se replica em termos de elos não é referente apenas ao imediato espacial (o bairro, a cidade) e temporal (com quem alguém interage em dado momento), mas também quanto àqueles que já se encontram distantes tanto cronológica quanto espacialmente: em teoria, todas as pessoas
que estabelecem relações com um certo indivíduo têm a oportunidade de “man- ter o contato” por meio da persistência técnica efetivada pelo próprio site.2 Se na
primeira fase a ideia de “comunidade” carregava uma carga acolhedora, intimis- ta e comunal – mesmo com toda a imprecisão de não se saber exatamente quem está “do outro lado do computador”–, nessa segunda fase o conceito de rede problematiza essa percepção e dota de mobilidade e diferentes distanciamentos os elos de alguém. Em outras palavras, um indivíduo não precisa ter apenas uma conexão por vez pautada num tema único nem mesmo delimitado por proxi- midade física: ele administra seus contatos à mercê dos próprios interesses e mantém, a todo momento, ligações perenes que independem, teoricamente, das constrições espaciais e temporais. Daí ele vir a ser o eixo central desse momento.
O lugar como eixo central
O terceiro momento identificado destaca o “desacoplamento” das pessoas de seus computadores pessoais. Essa fase é aquela em que o acesso à internet por computadores fixos deixa de ser o modelo padrão e na qual se assiste à vazão de dispositivos móveis que possibilitam, potencialmente, a conectividade em qual- quer lugar. Nesse contexto, o que se busca é o acesso à internet independente de terminais fixos. Celulares e tablets passam a ser os novos paradigmas de compu- tação e comunicação mediada.
Junto à mobilidade, surgem experimentações que buscam dialogar dire- tamente com o lugar e seu entorno, tomando a localização como elemento de fruição e de interveniência nas atuações em rede. Esse é o momento das mídias locativas (LEMOS, 2009; SANTAELLA, 2008), tendo jogos pervasivos, anotações urbanas e smartmobs como alguns de seus reflexos. Essas experiências e outras similares põem a localização e a relação dos dispositivos eletrônicos com o lu- gar na base das suas funcionalidades, ressaltando que as atividades transcorri- das em ambiências e temporalidades on-line não estão separadas da realidade material.
2 Embora tal ação demande, supostamente, esforços de ambas as partes. Se na primeira fase as intera-
ções precisavam ser (re)iniciadas e os elos, retomados, agora estes já estão mantidos, mas os atores em rede ainda precisam de pistas fáticas para retomar a intimidade com algumas pessoas, o que cor- responde, pois, a uma dimensão muito mais simbólica e interacional do que a uma questão técnica a ser resolvida.
Tendo os microprocessadores e peças similares como bases de funciona- mento, essa fase vê a atualização do que havia sido descrito muito tempo an- tes como computação ubíqua por Mark Weiser (1991). A expressão se remete a um cenário de poder computacional generalizado no espaço e nos objetos, para além do uso pessoal e concentrado em computadores fixos. Ou seja, processa- dores, chips, sensores e demais dispositivos digitais dispostos em rede seriam capazes de ler e transformar o cotidiano urbano. A internet, assim, também seria compreendida como uma rede descentralizada e ligada a diversos objetos – não apenas a computadores do tipo desktop – e teria o potencial de agir sobre práti- cas sociais as mais diversas.
Muito desse marco teórico se concretizou nessa fase sob a forma de funcio- nalidades de georreferenciamento e mapeamento a partir de serviços gratuitos e de simples utilização, os quais passaram a prover informações geográficas de alta precisão (pelo menos para utilizações não-militares) na internet e para um público sem formação ou conhecimentos profissionais. Além disso, tecnologias sem fio (wi-fi, bluetooth) aliadas ao Global Positioning System (GPS) permiti- ram o surgimento de serviços baseados em localização (GORDON; DE SOUZA E SILVA, 2011), os quais sempre punham em evidência o lugar e a relação do dispo- sitivo eletrônico com a espacialidade em volta.
Ao colocar a mobilidade e a localização interferindo nas funcionalidades de dispositivos móveis, os atores da cultura digital também repensam o papel estabelecido ao espaço. Se na primeira fase o espaço é tema e metáfora para a constituição de ambiências eletrônicas, na segunda ele vem a ser “explodido” e expandido, tomando a estrutura disforme e maleável de rede, o que contribui diretamente no modo como ele entra em jogo nesse novo momento: nele, o es- paço não é apenas uma entidade de aspecto continente a dar lugar às pessoas e objetos, mas ele mesmo vem a se infiltrar nas redes, fazendo parte das estruturas nodais e se reconfigurando junto às ações que nela transcorrem. Já longe das metáforas dos idos 1990, a espacialidade passa a interferir diretamente na pro- dução e na leitura de conteúdos, bem como na interação entre os indivíduos em rede.
Esse momento, contudo, também encontra seus patamares de desafios e complexificação, o que ocorre quando da interlocução das capacidades sensí- veis à localização com as estruturas sociotécnicas – ou seja, em diálogo direto com os sites de redes sociais. Quando as pessoas, que são os nós das redes sociais
notórias do segundo momento, ganham mobilidade (em termos de comunica- ção e interação) por meio de seus dispositivos comunicacionais móveis, surgem aí conceitos como redes sociais móveis-locativas (DE SOUZA E SILVA; FRITH, 2010), as quais dão ênfase ao modo como as pessoas podem ser conectadas pe- rante a sensibilidade de dispositivos móveis à localização. Nesse sentido, o lugar, mais do que o objetivo final das articulações sociais, é o meio pelo qual estas se dão, evidenciando a hibridização do espaço (ambiências eletrônicas ligadas à materialidade, com reconfigurações em ambos os lados), a permanência e o rastreamento dos elos sociais e as reações dos dispositivos tanto ao contexto de localização como aos elos individuais.
Quando visualizamos o encontro de dados de localização com laços sociais, aquelas fruições e dinâmicas que se baseavam estritamente no agora passam a extrapolá-lo como eixo central – embora ainda se pautem na mobilidade en- quanto modo de acesso – e trazem uma dupla ambivalência para os dispositivos móveis: ao mesmo tempo, espacialidade imediata – ressaltada pelo lugar em que alguém se encontra – e elos sociais – que não precisam lidar com tal pro- ximidade física imediata – encontram novos caminhos para as interações em rede. É precisamente esse encontro que entendemos como um quarto momento nessa classificação.