Nesta subcategoria, englobam-se as práticas que promovem tanto o desenvolvimento educacional quanto o convívio social da criança e do adolescente. Desenvolvimento educacional compreende-se aquele decorrente da educação formal obtida na escola, em relação ao qual os pais sociais exerciam alguma influência. Quanto às áreas cultural, esportiva e de lazer, identificaram-se as práticas dos educadores que viabilizavam o contato ou a participação do acolhido em atividades dessa natureza.
Conclui-se que ajudar nas tarefas escolares (3.3.1) era uma prática desempenhada pelas mães sociais, em sua maioria, conforme preconiza a CBO (MTE, 2002) na área de atividades denominada incentivar
a cultura e educação. Na presente análise, ajudar referiu-se a dar
atenção à criança durante a realização das atividades escolares em casa, estando disponível para auxiliar na superação de dificuldades sentidas durante essa situação. De acordo com o modelo teórico de Gomide (2006), incentivar e acompanhar a vida escolar da criança são formas de os cuidadores exercerem a monitoria positiva e o comportamento moral, já que demonstram valorizar o estudo e seus benefícios para a vida dos filhos. A seguir, um exemplo ilustrativo:
A prioridade de um pai social é cobrar as atividade escolar, né? [...] porque a criança que já tá assim com a mãe, tá tão chocada, que às vezes não tem interesse de estudar. Você procurar um sentimento ou interesse dela, pra ela fazer, você tem que acompanhar. É bom acompanhar isso aí. (PS2)
Esse pai social destacou a importância de incentivar e acompanhar a vida escolar da criança acolhida, considerando-se seu histórico de sofrimento vivido na família e/ou decorrente do afastamento familiar. Ao pai social cabe despertar o interesse dela para dedicar-se aos estudos, segundo PS2. Entretanto, ele admitiu na entrevista que não tinha tempo para um acompanhamento próximo e contínuo, o qual era realizado por sua esposa.
Constataram-se algumas diferenças entre as instituições participantes no que tange ao acompanhamento diário das tarefas escolares e de outras
atividades ligadas à vida escolar dos acolhidos. Na instituição 1, a babá auxiliava os acolhidos na casa a, o que foi justificado pelo fato de o pai social ser analfabeto. Na casa b, a mãe social e a babá dividiam essa responsabilidade. Nessa instituição, existiam também professores de reforço e de inglês voluntários. Na 2, as mães sociais dedicavam-se aos momentos de lição escolar das crianças e adolescentes e ainda eram responsáveis por irem a reuniões na escola, pegar o boletim e acompanhar as notas. E na 3, que possuía uma estagiária da área pedagógica, além de uma psicopedagoga e de um professor de reforço voluntários, as mães sociais não assumiam a responsabilidade por se relacionarem com a escola. Elas ajudavam nas tarefas em casa conforme sua disponibilidade, mas não como um compromisso exigido pela instituição. Alegaram que o tempo dedicado às atividades domésticas e de cuidados básicos dos acolhidos prejudicava o acompanhamento na hora da tarefa escolar.
Outra forma de garantir o desenvolvimento educacional foi observada pela prática de levar e buscar a criança e o adolescente na escola (3.3.2). Os pais sociais assumiam exclusivamente tal atividade, tanto na instituição 1 quanto na 2 por meio do acompanhamento dos acolhidos a pé ou com o transporte público (PS1), ou do transporte de Kombi da instituição (PS2 e PS3).
Conforme orienta a CBO (MTE, 2002), outras atividades de incentivo ao desenvolvimento educacional da criança e do jovem são selecionar
jornais, livros revistas, materiais de leitura em geral, e ler histórias e textos. Assim, verificou-se que alguns participantes tinham por hábito a
leitura de histórias para os acolhidos, o que determinou a demarcação da prática de incentivar a leitura, ler livros e contar histórias (3.3.3), como ilustrou um pai social:
Eu gosto mais de ler histórias pra eles. Mas histórias assim, não Chapeuzinho Vermelho... Eu gosto de ler história de livro [...]. Pra eles ir memorizando como que é a vida, sabe? (PS3)
Esse educador enfatizou que as histórias de sua preferência eram aquelas que despertavam a visão crítica do jovem, que discutiam valores e princípios sobre a vida humana ou sobre questões típicas da adolescência, como relacionamentos afetivos, sexualidade e drogas. Parece que, por meio desse recurso, PS3 procurava orientar aqueles de quem cuidava.
Na instituição onde ele trabalhava, assim como na 1, havia uma biblioteca, mas segundo os relatos dos participantes e as observações feitas, os pais sociais não a utilizavam cotidianamente, não existindo
momentos específicos em que eles acompanhavam os acolhidos para o uso desse espaço.
Vale mencionar que, nas casas lares da instituição 3, existia uma sala destinada a brinquedos, livros e gibis. No entanto, as mães sociais não utilizavam esses recursos para coordenar atividades com as crianças. Percebeu-se que era um espaço de uso do terapeuta ocupacional, da psicopedagoga e dos demais profissionais que precisassem.
A prática de acompanhar ou de participar de atividades esportivas (3.3.4) ocorria na instituição 1, onde as crianças e adolescentes praticavam natação em um clube da cidade, por meio de um convênio. Para participar dessas aulas, eles eram acompanhados tanto pelo pai quanto pela mãe social. PS1 acompanhava o grupo de meninos, e MS1, o de meninas, sendo responsáveis pelos cuidados na hora de trocar a roupa e tomar banho após a aula.
Já na instituição 2, os pais sociais (PS2 e PS3) afirmaram que tinham o hábito de jogar futebol e vôlei com os acolhidos no campo próximo às casas lares. Tais atividades vão ao encontro do que a CBO (MTE, 2002) declara sobre estimular o gosto pelo esporte. Além disso, no caso da instituição 2, o futebol e o vôlei entre cuidadores e acolhidos era uma forma de proporcionar a aprendizagem de regras e valores e o convívio social. Praticar esportes e acompanhar às aulas de natação também eram meios de os pais sociais exercerem monitoria positiva (GOMIDE, 2006).
Acompanhar a criança e o jovem em atividades sociais e culturais,
assim como planejar e fazer passeios são atribuições da mãe social, de acordo com a CBO (2002). Nessa perspectiva, identificaram-se práticas que demonstraram esse acompanhamento, não só em eventos externos, mas também em atividades caseiras, em que os acolhidos tivessem contato com a cultura ao assistir filmes, escutar música e dançar, por exemplo (prática denominada acompanhar em atividades ou eventos sociais e culturais - 3.3.5).
Esses momentos também podem ser vistos como oportunidades de convivência entre pais sociais e crianças e adolescentes, nos quais a monitoria positiva dos cuidadores poderia estar presente. MS1 tinha o costume de colocar músicas animadas e de incentivar as meninas a dançarem na sala da casa lar, ocasião em que participava junto com as crianças. Filmes eram programas comuns entre pais sociais e adolescentes, nas instituições 1 (casa b, pai social PS1) e 2 (casa d, pais sociais PS3 e MS3).
Passeios a parques da cidade foram citados pelos pais sociais da instituição 1, e passeios à mata próxima à instituição, por PS2. Assim
como as brincadeiras e jogos, os passeios ocorriam mais aos finais de semana e nas férias escolares. A participação dos acolhidos em festas em datas comemorativas, como Páscoa, Dia das Crianças e Natal era acompanhada pelos pais sociais de todas as instituições.
3.4 Relacionadas à formação religiosa/espiritual da criança e do