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Biocompatibility assessment

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Identificam-se aqui situações que interferiam negativamente na operacionalização das práticas, segundo a percepção dos pais sociais.

Dos dez participantes, sete afirmaram possuir pouco tempo para se dedicar às crianças e adolescentes. Embora reconhecessem a importância de dar atenção a eles por meio da conversa e da brincadeira, consideravam que era difícil colocar isso em prática. A partir das narrativas desses pais

e mães sociais, bem como de observações de campo, verificou-se que eles eram absorvidos pelas tarefas domésticas e externas (2.3.1), sendo que estas eram exercidas pelos pais sociais da instituição 2, pois tinham a função de motoristas.

Uma das questões da entrevista pedia que relatassem se havia algo em seu trabalho com os acolhidos que deveria mudar. Em resposta a ela, citam-se as seguintes percepções:

Uma coisa que eu gostaria de ter é mais tempo pra ficar com eles. Mais tempo pra fazer as coisas com eles. Porque a gente fica muito envolvido com as coisas da casa, porque é bem corrido, né. Você vê, é lavar, é limpar, é cozinhar. [...] E ter mais tempo pra eles eu acho que é importante. Mais tempo pra ficar a toa, mais tempo pra conversar, pra brincar, pra fazer lição, pra sentar, entendeu? Pra cuidar deles assim, cuidar do cabelo, cuidar deles mesmo. (MS4)

Como a gente tem a casa pra zelar, tudo pra cumprir, né, às vezes fica faltando atenção pra elas. Às vezes ela vai contar alguma coisa, daí você nem tem o tempo teu pra ouvir. Ou elas querem te mostrar uma coisa e você olha, mas não presta muita atenção, só olha assim... Então acho que falta tempo pra gente ter assim, tipo assim, conversar, orientar, sabe? É bem complicada essa parte. (MS6)

[...] Eu vejo a minha ausência, de ser como motorista hoje aí, de ficar pilotando, levando, levando... Eu tô mais fora do que próximo deles aqui. O ideal pra mim, pro pai social, que eu vejo, se pudesse ter mais tempo com eles.(PS2)

Para complementar, vale transcrever uma nota registrada pela pesquisadora, ao visitar uma casa lar:

A mãe social ocupa-se mais com os afazeres da casa do que com a atenção às crianças. As crianças ficam ‘por conta’, sendo acompanhadas por vários adultos – o marido de MS, o terapeuta ocupacional, a pedagoga e uma voluntária – e até pela filha adolescente da mãe social. Neste dia, especificamente,

também participei interagindo e supervisionando as crianças, em função de suas próprias solicitações e aproximações. (Trecho das anotações de campo –

Registros do Pesquisador, 2009).

Cabe aqui considerar que o funcionamento da instituição influenciou sobremaneira a existência da percepção entre os pais sociais da qual eram absorvidos por atividades domésticas e externas. Como se viu na subcategoria anterior, as mães sociais da instituição 2 (MS2 e MS3) dividiam tarefas domésticas com outras funcionárias. Isso pode explicar por que não relataram que se sentiam sobrecarregadas e com falta de tempo para atender as crianças e adolescentes. Nessa organização, chamou atenção o fato de os homens, pais sociais (PS2 e PS3), afirmarem que o serviço externo os impedia de dar mais atenção aos acolhidos. Já as mães sociais da instituição 3 (MS4, MS5, MS6 e MS7) apresentaram o fator do excesso de atividades domésticas como prejudicial para a dedicação às necessidades das crianças no que se refere ao diálogo, à brincadeira, ao carinho, à supervisão das tarefas escolares, por exemplo.

Na instituição 1, apenas o pai social (PS1) afirmou que sentia dificuldade para dar mais atenção aos acolhidos nos finais de semana e feriados, pois de segunda à sexta-feira, ele contava com a colaboração da babá e da auxiliar de serviços gerais. Mas o pai social também era responsável por levar e buscar as crianças em atividades externas, ou seja, possuía algumas responsabilidades fora da instituição, o que tomava seu tempo e poderia contribuir para sentir-se sobrecarregado.

Tais resultados também foram encontrados por Arruda (2006), que afirmou que a rotina extenuante observada em seu estudo comprometia a qualidade do trabalho das educadoras. Yunes, Miranda e Cuello (2004), da mesma forma, mencionam uma pesquisa feita por Yunes et al. (2002) em abrigos, cujos resultados apontaram uma sobrecarga de tarefas e um atendimento pouco eficaz.

Pode-se relacionar a rotina rigidamente programada e acelerada com a falta de tempo para supervisionar e interagir com os acolhidos, verificada na presente pesquisa. Com um agir mecânico, automático, questiona-se até que ponto os pais sociais conseguiam planejar e promover atividades prazerosas em que pudessem dar atenção genuína às crianças e adolescentes. O que se observou foi que tinham pouco ou nenhum tempo para isso no cotidiano, ou tinham pouco espaço para tal, pois era comum, nas três instituições, outros adultos, como técnicos e/ou voluntários, ocuparem o dia das crianças com atividades dirigidas ou recreativas. Verificou-se nas observações de campo que, quando não

estavam em atividade com outros profissionais ou voluntários, as crianças e adolescentes permaneciam brincando, assistindo TV, desenhando, enquanto os pais sociais realizavam as atividades ligadas a casa. De acordo com os relatos dos participantes, os finais de semana, férias escolares e feriados eram os momentos em que tinham mais facilidade para realizar atividades em conjunto com as crianças.

Tal característica de funcionamento da casa lar pode ser comparada com o cotidiano atual de muitas famílias completas (pai, mãe e filhos) que têm poucos momentos de interação no dia-a-dia, e os pais acumulam várias atividades, realidade influenciada pela crescente tendência de ambos os genitores trabalharem fora, ou pelo aumento das famílias monoparentais chefiadas pela mulher que trabalha. Nesse contexto atual, pode-se pensar no que as crianças esperam de seus pais. Um exemplo pode ser encontrado no estudo de Goetz e Vieira (2009), que constataram que as crianças esperavam dos pais mais cuidados, atenção, manifestação de carinho (beijar, abraçar, acariciar) orientação e momentos de brincadeira e, das mães, mais interações por meio de passeios e brincadeiras e mais manifestações de carinho.

Nas casas lares estudadas, o tempo que os pais sociais dedicavam a tarefas como preparar e servir refeições, limpar a casa, lavar roupa, cuidar da higiene das crianças e realizar serviços externos (no caso das instituições 1 e 2) era superior ao tempo despendido para ouvir as crianças/ adolescentes, manifestar carinho, orientar comportamentos, supervisionar tarefas escolares, passear, brincar, contar histórias. Especialmente na instituição 3, as mães sociais sentiam-se sobrecarregadas pelo acúmulo de funções e mais ausentes do que presentes em seu papel de educadoras/cuidadoras em relação às crianças e adolescentes. Nesse sentido, trouxe-se à tona a comparação entre o funcionamento de muitas famílias e de um sistema interacional como a casa lar, de modo a apontar um modelo de cuidado institucional subjugado ao trabalho dos pais sociais e marcado pela restrição de interação entre seus integrantes, seja ela instrutiva ou calorosa, pela expressão de afeto.

Frente a essa realidade, delimita-se outro impasse identificado pelos pais sociais para a operacionalização de suas práticas, a falta de profissional de apoio (2.3.2) no dia-a-dia. Foi comum entre sete entrevistados o reconhecimento de que o pai/mãe social precisava de um profissional de apoio dentro da casa lar e com permanência constante. Esses pais sociais, provenientes das três instituições, afirmaram sentirem falta de uma pessoa ajudando-os nas tarefas diárias, embora existissem outros funcionários também responsáveis por atividades domésticas ou

com os acolhidos, como já foi apresentado na subcategoria anterior. Segue o relato de uma mãe social, demonstrando esse impasse:

Acho que a gente precisa de mais pessoas pra trabalhar dentro da casa lar. Que assim [...] sobraria um pouco de tempo a mais. Porque pra uma pessoa trabalhar sozinha, praticamente sozinha dentro da casa, é muito corrido. [...] o que precisaria era uma pessoa a mais, mais uma mãe, mais uma tia. Ou então mais uma faxineira pra trabalhar, daí a mãe cuidaria mais das crianças e não da faxina, da limpeza. (MS7)

A fala de MS7 exemplifica o cotidiano de muitos pais sociais participantes, e a falta de um profissional de apoio pode ser relacionada ao elemento de análise anterior, a absorção pelas tarefas domésticas e externas, impedindo uma maior dedicação às crianças e adolescentes.

É válido considerar que não houve queixas de que o número de crianças era elevado para uma pessoa atender, mas foi manifestada a expectativa de que seria melhor existirem dois funcionários dividindo tarefas. Verificou-se que em todas as casas lares desta pesquisa o número de acolhidos não ultrapassava dez, estando de acordo com as regulamentações (CONANDA/CNAS, 2009; BRASIL, 1987). Somando-se os acolhidos com os filhos de pais sociais, nas casas onde esses residiam, a quantidade de crianças e/ou adolescentes não era superior a onze.

Todavia, não se encontrou em nenhuma das organizações participantes o auxiliar do educador/cuidador residente recomendado pelo CONANDA/CNAS (2009). Esse material regulatório expressa que o auxiliar deve atender dez usuários a cada turno de trabalho, exercendo o papel de apoio ao educador/cuidador em suas diversas atribuições, nos cuidados aos acolhidos e ao lar. Uma hipótese levantada nesta pesquisa para justificar a ausência desse auxiliar é a dificuldade financeira das instituições para atender todas as necessidades, visto que os próprios participantes utilizaram esse argumento nas entrevistas.

O último impasse identificado a partir da coleta de dados foi a convivência entre crianças e adolescentes (2.3.3) na mesma casa lar, que aqui está ilustrado pela resposta de PS1 ao ser questionado sobre o que poderia melhorar na instituição:

Tirar os adolescente de junto dos pequeno. Esse aí era uma coisa boa que melhorava muito a Instituição 1. Se a casa pudesse abrir uma casa de

adolescente, pra ter das criança e dos adolescente, era uma coisa muito boa, né? Mas como não pode, daí tinha que levar pra outra instituição que é adequada dos adolescente. (PS1)

Essa dificuldade foi apresentada por PS1 e MS1, ambos da instituição 1, e por MS3, funcionária da 2. Ressalta-se que nesses abrigos a idade limite para o adolescente era 18 anos e, por isso, a presença de crianças e adolescentes no mesmo ambiente era inevitável. Já na instituição 3, a criança que completava 12 anos era transferida para abrigos destinados a adolescentes. Portanto, isso explica por que as mães sociais da 3 não consideraram essa dificuldade.

Ao afirmaram que a convivência entre crianças e adolescentes deveria acabar, os participantes justificaram sua opinião pela questão do controle do comportamento e da atenção diferenciada para cada fase do desenvolvimento. Cuidar de faixas etárias distantes dificultava a atuação do pai/mãe social em relação à manutenção da harmonia na casa lar, visto que crianças e adolescentes têm interesses e características diferentes, envolvendo-se em conflitos com facilidade. Em concordância com Nogueira e Costa (2005a), considera-se difícil para um só educador/cuidador, ou mesmo dois, atender eficientemente às necessidades e ao ritmo de cada abrigado, em um contexto em que habitam crianças pequenas até adolescentes de 18 anos.

Quanto à diferença de idades entre crianças e adolescentes e sua convivência na casa lar, não se encontrou nenhum documento ou estudo que discutisse essa questão de forma detalhada e específica. Isso denota a necessidade de mais investigação na área, a fim de possibilitar uma análise mais profunda e a elaboração de orientações com relação à idade dos acolhidos numa instituição de abrigo. Verificou-se nas orientações técnicas para serviços de acolhimento (CONANDA/CNAS, 2009) que a casa lar não deve atender faixas etárias muito próximas, como por exemplo, apenas bebês, e que deve privilegiar os grupos de irmãos e os acolhidos com perspectiva de abrigamento a médio e longo prazo. Portanto, essas orientações reforçam a tendência a agrupar diferentes idades na mesma casa lar, e ainda os irmãos, como pode ser observado nesta pesquisa.

Embora as leis e regulamentações ligadas aos direitos da criança e do adolescente institucionalizado preconizem o não-desmembramento de grupos de irmãos, o cotidiano dos abrigos mostra que essa é uma prática relativamente comum. Constata-se que algumas instituições, como a 3, encaminham o adolescente a partir dos 12 anos de idade a

uma república, modalidade cujo objetivo é prestar atendimento específico às demandas dos adolescentes. Via de regra, as repúblicas são organizadas de acordo com o sexo, não havendo a convivência entre meninos e meninas. Por fim, afirma-se que a estruturação de um abrigo, incluindo a casa lar, de acordo com a idade e a existência de irmãos, ainda é controversa e deve ser melhor avaliada pelos setores envolvidos com a medida de acolhimento institucional.

A partir da compreensão das principais diretrizes que norteavam a operacionalização das práticas dos pais sociais nas diferentes instituições, apresenta-se a próxima categoria, que descreve as práticas identificadas por meio da técnica de análise dos dados empregada.

3. DESCREVENDO AS PRÁTICAS REALIZADAS PELOS PAIS

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