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OPPORTUNITÉS FONCIÈRES ET SITUATIONS DE PROJETS

Muito se fala sobre as consequências, especialmente as materiais, da dominação de gênero. Entre elas, certamente, está a violência física, inclusive

sexual, mas estão também desigualdade salarial, exploração do trabalho, duplas e triplas jornadas de trabalho, dificuldade no acesso ao conhecimento, dificuldade no acesso à funções de liderança e exclusão do exercício de certas funções no âmbito eclesial. Tais “diferenças sociais entre homens e mulheres são a materialização” da violência simbólica (DUARTE, 2007, p. 18).

Segundo Bourdieu (2012, p. 46), a violência, seja física ou simbólica, faz parte de um conjunto de armas com que o ser humano, como agentes específicos, e instituições, como família, igrejas, escola e Estado, contribuem no trabalho histórico e incessante de produção de estruturas de dominação.

A violência simbólica se institui por intermédio da adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante [...] quando os esquemas que ele põe em ação para se ver e se avaliar, ou para ver e avaliar os dominantes [...], resultam da incorporação de classificações assim naturalizadas, de que seu ser social é produto (BOURDIEU, 2012, p. 47). Assim, para Bourdieu, é nos esquemas de percepção, avaliação e ação que constituem o habitus, e não na lógica consciente e cognoscente, que se dá o efeito da dominação simbólica, seja esta de etnia, gênero, cultura, língua etc. Portanto, ela produz os efeitos duradouros exercidos pela ordem social sobre mulheres e homens, para harmonizarem uma lógica da dominação masculina e da submissão feminina que é tanto espontânea quanto extorquida (BOURDIEU, 2012, p. 49, 50).

A força simbólica é uma forma de poder que se exerce sobre os corpos, diretamente [...] sem qualquer coação física, mas [...] só atua com o apoio de predisposições colocadas [...] na zona mais profunda dos corpos. [...] [E]ncontra suas condições de possibilidade e sua contrapartida econômica[...] no imenso trabalho prévio que é necessário para operar uma transformação duradoura dos corpos e produzir as disposições permanentes que ela desencadeia e desperta; ação transformadora ainda mais poderosa por se exercer, nos aspectos mais essenciais, de maneira invisível e insidiosa, através da insensível familiarização com um mundo físico simbolicamente estruturado e da experiência precoce e prolongada de interações permeadas pelas estruturas de dominação (BOURDIEU, 2012, p. 50-51).

Cabe aqui perguntar: qual é a noção de papéis de gênero que sustenta a violência contra a mulher? Especificamente, a violência contra a mulher surge na relação de gênero desigual, hierarquizada e naturalizada que confere ao homem um estatuto de mandatário e à mulher o papel de submissa e obediente. Esse tipo de relação exerce uma força invisível sobre as mulheres. “A força particular da sociodiceia masculina lhe vem do fato de ela acumular e condensar duas operações:

ela legitima uma relação de dominação inscrevendo-a em uma natureza biológica que é por sua vez [...] construção social naturalizada” (BOURDIEU, 2012, p, 33). Assim, nem homens nem mulheres conseguem, em geral, questionar tais estruturas, pois apresentam uma consciência dominada, construída a partir de tais critérios.

As relações de gênero são um constructo sociocultural que ajudaram a sedimentar nossas identidades masculina e feminina. Essa construção de identidade pessoal e social é forjada num procedimento de dinâmicas de relações de poder dentro de estruturas sistêmicas patri-quiriarcais de subordinação, nas quais as instituições e os meios de comunicação atuam como fator substancial para manutenção de status quo, persistindo em formas sutilmente diferenciadas até hoje (RICHTER REIMER, 2010, p. 45). Para falar das relações de poder, é preciso utilizar o método de Foucault (2012, 1988). Ele entende o poder não como uma unidade invisível que pode pertencer a alguém, mas iguala-o ao saber e o vê como uma multiplicidade de práticas e relações dinâmicas de estratégias presentes em todo lugar e tempo no meio de relações de força desiguais e móveis que constituem o corpo social. O poder seria como uma rede capilar que circula por toda a sociedade como parte constitutiva do tecido social, em múltiplos lugares e modalidades. Ele estaria, então, em toda parte, e provindo de todos os lugares, logo, deveria ser compreendido como uma multiplicidade de correlações de forças, e, portanto, dinâmico e circulante. Seu exercício tem objetivos, mas não é resultante da escolha de um sujeito, e sim como conjunto de redes (STRÖHER, 2004, p. 109).

As relações de força têm um papel reprodutor, pois são resultado do compartilhar, das desigualdades e dos desequilíbrios que se produzem em si mesmas, enquanto se formam e atuam nos aparelhos de produção, na família, em grupos restritos e instituições (como igrejas, escolas e aparatos estatais), dando suporte divisões que percorrem do corpo social. Elas são dirigidas por um dispositivo (estratégias de relações de força que sustentam e são sustentadas por tipos de saber) de conjunto, o que as torna intencionais e objetivas. Tais relações de força são imanentes, constituindo a organização do domínio onde se exercem, se cristalizam e tomam forma nos aparelhos estatais, leis e hegemonias sociais.

Foucault (2012) reforça a importância das microrrelações cotidianas com essa perspectiva de circulação de poder, elas é que podem influenciar e reforçar as macrorrelações. Além disso, é importante notar que implícita na relação de poder, há uma relação de resistência, como outra forma de exercê-lo. Tais concepções abrem

a uma análise do cotidiano e do detalhe como fontes das relações de poder/resistência, ou seja, todas as pessoas exercem poder de alguma forma, sem oposições binárias, mas reforçando ou negando as disputas por poder em diversos níveis.

Para Foucault (1988), os discursos sobre o corpo, sexualidade e a divisão hierarquizada dos seres humanos entre mulheres e homens são, então, tanto efeito como instrumento de poder e se tornam formas de partilhar o mundo. Isso torna a categorização do ser humano em homem e mulher identidades passíveis de dissolução através da partilha de saber e da mudança das microrrelações. Portanto, em um processo interpretativo da sociedade, é importante perguntar como o poder é exercido e também quais são as experiências e resistências que o discurso tenta invisibilizar ou normatizar.

Esse raciocínio implica em que, observando a dominação masculina na sociedade ocidental, não é o caso de entender que as mulheres sejam destituídas de poder. Este é exercido, por exemplo, na resistência ou na colaboração e utilização de redes de poder para seus objetivos. Consequentemente, as mulheres não devem ser pensadas simplesmente como vítimas, e sim como pessoas que participam do exercício do poder, resistindo ou reproduzindo as redes de poder, mas que dentro da sociedade tiveram experiências e discursos invisibilizados. Nesse sentido, a própria identidade feminina é estratégia, mas também objeto e alvo, de sistemas de saberes e poderes, não apenas um dado da natureza.

Em relação à violência contra a mulher, o método foucaultiano, permite apreciar que, muitas vezes, na disputa pelo poder, a violência se faz presente com um meio de alcançar um fim. Mas a violência não está caracterizada como demonstração de poder e sim de dominação (BERGESCH, 2002, s/p).

Com base nessas ideias, é possível afirmar que uma violência contra a mulher não é um ato isolado, mas permitido culturalmente pela sociedade que, por convicção ou negligência, silenciosamente permite que espaços, públicos e privados, de violência, seja física, psicológica ou simbólica, sejam criados.

Os papéis de gênero, aprendidos transgeracionalmente, aprisionam tanto homens quanto mulheres em modelos enferrujados e deterministas. Assim, quando um homem, partindo destes pressupostos, legitima o seu ato violento, está também retransmitindo um imenso entrecruzar de discursos patriarcais e normalizadores que pertencem à própria história da

masculinidade, e das relações de gênero como um todo (WINCK e STREY, 2008, p. 116).

Da mesma forma que os papéis femininos exploram seu trabalho, dificultam o acesso e a produção de conhecimento e formam um construto de violência simbólica que aprisiona as mulheres,

o privilégio masculino é também uma cilada e encontra sua contrapartida na tensão e contensão permanentes, levadas por vezes ao absurdo, que impõe a todo homem o dever de afirmar, em toda e qualquer circunstância, sua virilidade. [...] [A] virilidade, entendida como capacidade reprodutiva, sexual e social, mas também como aptidão ao combate e ao exercício da violência (sobretudo em caso de vingança), é, acima de tudo, uma carga. [...] [A] virilidade tem que ser validada pelos outros homens, em sua verdade de violência real ou potencial, e atestada pelo reconhecimento de fazer parte de um grupo de “verdadeiros homens” (BOURDIEU, 2012, p. 65-66).

As masculinidades são múltiplas e definidas por diversas situações: a posição social, vivências e construções sexuais, a identidade étnica e cultural, experiências e opções pessoais de vida, dentre muitas outras. Mas percebe-se a existência de um paradigma androcêntrico, androcrático, dominante, tradicional e hegemônico. Dentre suas características está o caráter dualista e hierárquico, que identifica normalmente o subjetivo, a arte, a natureza, o espírito, o privado com o feminino e o contrário com o masculino. Duas das consequências desse paradigma são a separação e hierarquização, ou seja, a valorização exclusiva do polo masculino como bom e importante. Esse paradigma androcêntrico, dualista e hierárquico se torna possível pela associação que as sociedades patriarcais fazem entre a masculinidade e a capacidade de homem de exercer domínio (TONINI, 2007, s/p).

Segundo Grossi (2006, p. 22 e 23), uma das principais características da masculinidade ocidental é que o masculino é ativo, tanto sexualmente quanto em termos de agressividade. O homem precisa ser forte, independente e competitivo e isso acaba se tornando em agressividade, contra si contra outros homens e também contra mulheres. Esse modelo de relações sexistas e masculinidade compulsória forma desde o interdito da expressão de sentimentos, ao descuido masculino com o próprio corpo e a exposição ao perigo, desgaste e violência (SCHULTZ, 2004, p. 190).

A violência contra as mulheres é uma das principais vias de impedimento às posições de igualdade em todas as esferas da vida social e privada. “Representa

uma dominação masculina de amplo espectro, histórica e culturalmente construída, para além de sua manifestação nos corpos das mulheres” (BARSTED, 2011, p. 348). Ela se caracteriza por ser uma violência difusa, muitas vezes tolerada e invisibilizada. Em especial quando ocorre no seio doméstico, no ambiente de trabalho ou instituições públicas. Essas características dificultam o acesso da vítima qualquer mecanismo de proteção do Estado e da sociedade.

A violência contra a mulher se dá de várias formas. Além dos sistemas simbólicos e da violência física direta, depende também de fatores de opressão econômica, política e social. Elizabeth Schüssler Fiorenza (2009, p. 126 e 127) estabelece sete critérios bastante úteis para se falar em opressão, em especial com relação às mulheres: 1) a exploração econômica, cultural, política e religiosa de mulheres em todo o mundo; 2) a marginalização, seja na sub-representação nas instituições sociais, culturais, científicas e religiosas, ou na ausência de posições de liderança ou ainda na desconsideração de suas contribuições; 3) falta de poder político-público; 4) o imperialismo cultural, que age através da invisibilização; 5) violência sistêmica, atribuída a erros e debilidades das mulheres e não vista como violação de direitos humanos; 6) silenciamento; 7) desprezo e difamação. Com essa lista, faz-se notar que a violência contra a mulher se dá tanto de forma silenciosa como aparente, através de um sistema de castração de atitudes e de produção intelectual. Ela é amplificada quando se acumula com outros tipos de violência, seja oriunda da divisão de classes, de etnia, de religião, de orientação sexual, gerando experiências de violência diferenciadas, corporais, sociais e políticas que têm em comum, e como fator de aprofundamento, o fato de serem cometidas contra mulheres.

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