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Na nossa divisão do texto de Gn 32,23-33, os versículos 32 e 33 são considerados conclusivos. A narrativa retorna ao itinerarário: “Depois de dar nome ao lugar, Jacó segue adiante”. A informação temporal: “e o sol saiu para ele quando atravessava Penuel” (v. 32) aponta para o v. 27. Jacó resistiu na luta de vida e morte até o amanhecer subir. O agressor perdeu seu poder e Jacó se sentiu salvo para seguir a sua viagem. Ele escapou vivo do encontro com um poder sobre-humano e agora pode ir sem medo ao encontro do seu irmão. O toque na articulação da sua coxa dexou uma marca. O fato de mancar, traz-lhe à memória o perigo mortal do qual escapou por pouco. Essa conclusão da narrativa pode ser conciderada secundária. Sua função é de ligar o evento do encontro com a divindade de Jaboque ao contexto do itinerário de Jacó com a sua família.

O toque na articulação da coxa de Jacó e sua consequência, o fato de mancar, servem

para fundamentar um tabu alimentar dos “filhos de Israel” (

ל ַּ֜ א ָר ְש ִי־יֹּֽ נ ְב

) (v. 33). O texto informa que os israelitas são proibidos de comer o tendão do nervo ciático que está sobre a coxa. Essa proibição não aparece em nenhum outro lugar do Antigo Testamento. A razão dada para tal proibição é difícil; a proibição diz respeito a uma parte do corpo de um animal, enquanto o acontecimento que lhe deu origem dizia respeito a uma pessoa. A explicação mais

provável é que essa parte do corpo estava sujeita a tabu porque era considerada como pertencente à área reprodutiva. Segundo Westermann, essa adição pode ter sido feita “no período rabínico”, no pós-exílio. Nesse período, argumenta o autor, era costume fundamentar mandamentos que não constavam na lei do Pentateuco fazendo adições em passagens bíblicas (WESTERMANN, 1985, p. 520).

Graves e Patai, nos seus estudos, tentam explicar a origem dessa proibição alimentar. Os lexicógrafos árabes, segundo esses autores, explicam que a natureza da claudicação produzida pela lesão do tendão da coxa faz com que a pessoa afligida ande na ponta dos dedos dos pés. Tal deslocamento do quadril é comum entre os lutadores e foi descrito pela primeira vez por Harpócrates. O deslocamento da cabeça do fêmur estira os tendões da coxa causando espasmos musculares, o que faz com que a pessoa ande permanentemente na ponta dos dedos, como no episódio atribuído por Homero ao deus Hefesto (GRAVES; PATAI, 2005, p. 228).

4.6 Conclusão parcial

O texto de Gn 32,23-33 é provavelmente constituído em uma base narrativa de uma lenda sobre a origem do santuário de Penuel, “o rosto de El”. É provável que nos tempos antigos desenvolveu-se entre a população da região de Penuel e Jaboque a lenda sobre uma poderosa luta travada entre Jacó e um ser divino. A luta terminou com o triunfo de Jacó e o seu oponente o implorou pedindo a permissão para uma retirada segura. O objetivo de tal lenda provavelmente era para explicar o fato de o rio Jaboque circula turtuosamente como um lutador entre as montanhas gêmeas de Tulul adh-Dhahab, onde se localiza Penuel.

Tal saga é adotada pelos autores de Gn 32,23-33, eliminaram alguns elementos e acrescentaram outros, para explicar a origem do nome de Israel (v. 29). Com isso, o caráter da narrativa não é mais de uma saga local ou uma lenda sobre o santuário, mas se torna uma narrativa etiológica. Para esse objetivo os autores usaram o termo “um homem” ao referir-se ao oponente de Jacó (v. 25b), foi adicionado o termo “ver Deus face a face” (v. 31b) para referir-se ao evento de luta (v. 25b-26a) e foram acrescentadas: a explicação de que naquela luta a vida de Jacó “foi salva” (v. 31c), a articulação de sua coxa foi atacada (v. 26b) e como consequência Jacó ficou manco (v.32b).

Apesar desses acréscimos que resultam da mudança do foco da narrativa, o estudo semântico de Gn 32,23-33 mostra que há vários elementos literários que remontam a antiguidade e a compexidade dessa narrativa.

A análise semântica do verbo “lutar” (v. 25b), o medo do oponente por “amanhecer” (v. 27a), a menção espacial de “Jaboque” (v. 23) e a “bênção” dada ao Jacó (v. 30c) nos levam a interpretar que, provavelmente, o “homem misterioso” nessa luta seja um deus do rio, que leva o mesmo nome do rio, Jaboque, provavelmente uma das representações da divindade

El. O motivo da luta provavelmente é para defender o seu território, como em outras sagas em

outros lugares. Em todo caso, esses elementos literários revelam a parte mais antiga da narrativa. Se o toque do adversário de Jacó tem a função de encerrar a luta e o deslocamento da articulação da coxa de Jacó seja um acréscimo posterior, podemos sugerir que “tocar a articulação na coxa” nesse texto seja um gesto ou sinal de selar o juramento ou pacto, cujo conteúdo se encontra nos versículos 27-31. Nesse sentido, o caráter do divino nessa narrativa é um Deus que se aproxima com o humano, luta como um ser humano, sabe reconhecer a força do ser humano, está disposto a dialogar e fazer pacto com o ser humano.

Outros elementos literários estudados são os verbos de ação de Jacó, “levantau-se à noite”, “tomou” e “fez atravessar” o vau de Jaboque toda sua família e todos os seus (v. 23- 24), podem indicar a identidade de Jacó como um herói. Tal identidade de Jacó se reflete também pela sua coragem de “lutar” (v. 25b) com um ser divino e “prevaleceu” (v. 26a e 29b). A grandeza desse herói se revela também pela sua preferência de “fazer pacto” com o divino para conquistar a bênção e tomar posse de Penuel (v. 27-31). É bem provável que tal identade de Jacó, que “lutou com deus e com os homens e prevaleceu”, seja motivo da sua identificação como Israel (v. 29).

É provável que a etimologia de Penuel, “ver Deus face a face” (v. 31b), seja uma adição posterior com intenção de adaptar a experiência de Jacó em Penuel com a visão teológica de que é imposível um ser humano lutar com Deus, pois só ver a face de Deus, a vida é ameaçada (Ex 32,20; Jz 13,22). A desvalorização dessa experiência do encontro de Jacó com o divino em Penuel se expressa também pelo fato de que Jacó não ergueu um altar ou uma pedra memorial no final do relato. Contudo, a nálise semântica do termo “ver face a face” revela que essa frase pode indicar também o contato físico, o confrontamento (2Rs 14,8- 11). Além disso, a menção dos dados temporais “amanhecer” ou “aurora” (v. 25b, 27a), “a noite” (v. 23) e “o sol” (v. 32) coincidem com os nomes dos filhos de El que ocupam o segundo nível da estrutura do Panteão Ugaritico ou Caneneu. Nesse sentido, podemos interpretar, de maneira hipotética, que a narrativa da luta em Penuel, na sua forma oral, se refere a uma lenda da assembleia divina cujo El é o patriarca dessa família e Penuel seja o seu santuário. Nesse santuário, provavelmente se celebrava ou e se difundia a tradição de Jacó pelos “filhos de Jacó”.

A importância do santuário de Penuel como centro religioso dos “filhos de Jacó” e a popularidade da lenda de luta de Jacó com o ser divino em Jaboque podem ser motivo pelo qual os autores de Gn 32,23-33 inserirem nessa lenda a mudança de nome de Jacó para Israel. A partir do estudo semântico se percebe que os autores do texto procuraram remover certos elementos literários que eram incompatíveis com sua mensagem teológica e inseriram outros que fossem admissíveis. A impossibilidade de apagar completamente as tradições que tinham sido passadas oralmente de geração em geração significava que os autores tinham que adotar uma abordagem diferente: permitir um pouco das histórias e usar alguns de seus detalhes, ao mesmo tempo, em que as revisavam, possivelmente alterando a maioria dos elementos originais.

No próximo capítulo, trataremos a importância de Penuel e da tradição de Jacó refletida no texto de Gn 32,23-33 na formação da identidade coletiva de Israel.

5 CONTRIBUIÇÃO DA TRADIÇÃO DE JACÓ NA FORMAÇÃO DA IDENTIDADE

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