Os romances distópicos normalmente apresentam um mundo tecnologicamente mais avançado que o mundo do autor. Contudo, esse progresso não é utilizado pelo governo para o bem-estar de todos os cidadãos, mas sim como
ferramenta de fortalecimento e manutenção do poder e da barbárie. No romance distópico de Huxley a medicina avançada serve para manter o controle dos sentimentos humanos e dos seus comportamentos. Em 1984, as pessoas são obrigadas a deixar as TVs ligadas durante todo o dia, ficando submetidas tanto à propaganda do governo como à vigilância do estado dentro de suas próprias casas; o governo modifica seus jornais já publicados para dar novas versões sobre fatos ocorridos; e, ainda, emprega instrumentos avançados de torturas contra os que discordam do poder vigente. Na distopia The uglies, as pessoas são forçadas a passar por cirurgias que as deixarão próximas aos padrões de beleza daquela sociedade, mas, secretamente, o governo diminuir a capacidade de raciocínio dessas pessoas tornando-as néscias.
Diferente das distopias anteriores, o romance de Paul Auster (1988) apresenta um mundo que carece de recursos tecnológicos: não há nenhuma indústria de produção, e, consequentemente, a escassez toma conta, restando à sociedade sobreviver unicamente do reaproveitamento de lixos e de sucatas. In the
country of last things trata a tecnologia de forma diferente das demais distopias uma
vez que apresenta um mundo em que a falta de tecnologias é o fator que o transforma em um mundo pior que o do autor.
Na distopia de Collins, a tecnologia é bastante avançada: em Panem há veículos aéreos amplos capazes que se movimentam em alta velocidade, além de serem capazes de camuflarem-se e de trazer pessoas para dentro deles através de campos de força (COLLINS, 2008, p. 82); drones de filmagem do tamanho de insetos (COLLINS, 2008, p. 41); dispositivos de comunicação através de hologramas44 (COLLINS, 2010a, p. 274); e a existência de campos magnéticos de
força; a cirurgia plástica se desenvolveu a tal ponto que pessoas modificam desde o tom de suas peles, até as características humanas, visando a semelhança com animais (COLLINS 2008, p. 61-62).
As inovações apresentadas no romance não servem somente para o bem- estar dos moradores de the Capitol; também como ferramenta de ameaça, silenciamento e de pavor contra os habitantes de Panem. De acordo com Katniss, durante a guerra em que District 13 foi destruído e que serviu de justificativa para os jogos, the Capitol desenvolveu vários animais geneticamente modificados, como
44 Apesar da referência aos hologramas aparecer apenas no terceiro livro da série, fica evidente que
armas para enfrentar os distritos; deram a esses animais o nome de mutts (COLLINS, 2008, p. 43), assim como foram desenvolvidas frutas venenosas (COLLINS, 2008, p. 314). Apesar de não ser citado em the Hunger Games, nas sequências do livro – Catching Fire e Mockingjay – é revelado para Katniss que the
Capitol se utiliza de diferentes formas de torturas para conter os pequenos atos de
resistência dos seus habitantes, como o método de mudar as memórias dos indivíduos através de alucinógenos (COLLINS, 2010a).
Além disso, a tecnologia serve para acentuar a desigualdade entre os distritos e the Capitol. Não há em The Hunger Games referências a invenções que resolveram problemas de escassez e fome dos distritos ou que simplesmente melhoraram suas vidas. Assim como a “cidade sem nome” do romance de Auster,
District 12 é tecnologicamente mais atrasada que nosso mundo, enquanto o grande
centro é extremamente avançado.
Quando Katniss nos apresenta seu distrito, descreve um lugar onde falta energia elétrica (COLLINS, 2008, p. 81), há escassez de alimentos (COLLINS, 2008, p. 81), as negociações comerciais acontecem através de escambos (COLLINS, 2008, p. 8), não há hospitais e a sua mãe é quem cuida dos enfermos e os medica com remédios caseiros (COLLINS, 2008, p. 21). As pessoas em grande maioria transitam a pé, pois não têm condições de adquirir carros nem existem transportes públicos (COLLINS, 2008, p. 41): um lugar onde sobreviver já pode ser considerado uma vitória (COLLINS, 2008, p. 105).
Por outro lado, ao conhecer the Capitol, Katniss fica extasiada com a luminosidade e cores da cidade que parece um campo de vagalumes; as comidas estão à disposição, ao apertar de um botão; os medicamentos curam grandes ferimentos em questão de segundos; e os carros e trens são bastante velozes (COLLINS, 2008). Todos esses recursos com que se mantém o grande centro vêm dos distritos:
The districts contain sparkling waters, lush forests, majestic mountains — and miserable people. These people fish those waters, fell those forests, and mine those mountains, all to meet the Capitol’s needs. But there is no feast quite big enough, no fashion quite new enough for the Capitol. The people of the districts give their labor — they give their lives — all to feed the Capitol’s insatiable appetites. Meanwhile, people are starving45 (EGAN,
2012, p. 5).
45 Tradução nossa: Os distritos contêm águas cintilantes, florestas exuberantes, montanhas
majestosas - e pessoas miseráveis. Essas pessoas pescam nas águas, derrubam as florestas e mineram as montanhas, tudo para atender às necessidades de the Capitol. Mas não há nenhuma
Assim, a tecnologia é mais uma ferramenta de que the Capitol utiliza-se para demonstrar sua força: enquanto o centro de poder usufrui de conforto tecnológico, fartura, e de uma medicina avançada, impõe a outros distritos o atraso, a fome e o sofrimento. O progresso tecnológico desse mundo avançado não é capaz de resolver os problemas de Panem, uma vez que, para o governo vigente, a pobreza e a miséria dos distritos não são avaliadas como questões que precisam ser resolvidas. Muito pelo contrário, the Capitol se posiciona contra qualquer mudança da ordem social ou de questionamento de sua autoridade e se utiliza da tecnologia para garantir a imobilidade do sistema.