Deuteronômio, datação, lugar, autores e leitores. Foi feita também uma análise do conteúdo da perícope de Deuteronômio 16,1-17 que foi uma seção mais extensa e com detalhes de conteúdo.
Foi realizada uma análise das três principais Festas judaicas segundo os livros do Êxodo, Números e Levíticos, procurando identificar as principais diferenças das Festas judaicas e suas mudanças com o passar do tempo. Identificou-se como as Festas sofreram suas mudanças e se tiveram alguma influência na sociedade judaica. Uma breve comparação dos livros de êxodo, Números e Levíticos com o texto de Deuteronômio 16,1- 17 identificou as mudanças que as Festas sofreram.
Este capitulo tem como objetivo falar da origem popular das principais Festas judaicas “Pesah, Semanas e Tendas” a partir do desenvolvimento da análise dos textos bíblicos dos capítulos I e II. Como cada uma delas sofreram as suas mudanças e quais foram as suas principais relevâncias para o povo de Israel. Falaremos também do nome de cada Festa, o calendário destas Festas, bem como se sofreram algum tipo de mudança. Analisaremos o calendário judaico e suas transformações no decorrer do tempo.
3.2 A ORIGEM DA FESTA DO PESAH
Ao falarmos da origem do pesah entramos num campo de muitas incertezas, e não conseguimos ter dados suficientes para esclarecer sobre a celebração no período pré- israelitas. O que podemos perceber através dos estudos dos textos no Antigo Testamento é que o pesah tinha, na sua origem, um sabor tipicamente pastoral: migração para novas pastagens na lua cheia da primavera; vestimentas para a viagem; alimentos de ocasião (ervas amargas e pão cozidos sobre chapas de pedra); sacrifício para a fecundidade do rebanho e sangue propiciatório contra as ciladas da viagem (RAVASI, 1985, pg. 59).
O pesah tem como sua origem uma celebração em que os pastores têm como o recurso mais importante e precioso o rebanho. Quando colocamos o pesah como uma celebração de pastores, estamos distinguindo o pesah das outras três Festas (Festa dos Ázimos, Festa das Semanas, Festa das Tendas), estas Festas são consideradas como Festas de peregrinação mencionadas nos mais antigos calendários litúrgicos (Êx 23,14-17; 34,18- 23), nota-se que a Festa do pesah não está representada nestes textos. No judaísmo, é a etapa mais solene do calendário civil e litúrgico. Ocupa, porém, essa posição privilegiada somente depois de ter percorrido um complexo itinerário, cujos inícios se perdem nas
arcaicas tradições nômades de povos pré-israelitas.
Para o pesquisador Lacoste (1998) o pesah era chamada de Festa da primavera, a celebração ocorria durante a lua cheia, desenrola-se, portanto, de noite e reunia toda a família. Seu ponto alto é a oferenda de um animal a YHWH, em sinal de dedicação e num gesto de súplica, visando obter a proteção divina. A partir da imolação de um animal, cordeiro ou cabrito, de um ano de idade, o pai de família cumpria o rito do sangue, depois presidia uma refeição em que a carne da vítima tinha sido previamente assada. A vítima oferecida é comida em uma refeição que sela a unidade dos membros da família entre si e com YHWH (LACOSTE, 1998, pg. 1349).
Provavelmente no início, esta oferenda não era para YHWH, mas a alguma outra divindade protetora do rebanho. Essa divindade talvez tivesse ligada à fertilidade ou a doenças do rebanho, e sua ira precisava ser aplacada com oferendas. Só mais tarde é que YHWH é incorporado na tradição até se tornar uma Festa anual do templo, sendo introduzido como norma para todo o povo.
O rito do sangue e a refeição pascal são os elementos mais característicos do antigo sacrifício do pesah. De início era só refeição, o pascal é um acréscimo posterior, quando a Festa passa a ser ligada à tradição do Êxodo. O rito do sangue está associado ao rito da refeição, que a completa manifestando a comunhão com a divindade que concede a chuva e favores a fecundidade do rebanho. Dessa forma, o ritual está nitidamente separado do âmbito secular. O sentido é que essa refeição alimenta, mas de forma diferente, não devendo ser confundida com as refeições regulares.
A intenção do redator bíblico é mostrar que a revelação bíblica está associada à história ou pretende ser histórica, pois o povo sabe que o lugar privilegiado para o conhecimento e a celebração é a história. O pesah, nascido como rito não histórico e naturalista, também faz parte da corrente histórica e humana, é retirada da natureza e é inserida na história. O rito do sangue consiste em ungir as entradas das tendas com sangue da vítima pascal, é um rito de proteção de valor, destinado a desviar as potências hostis e a proteger delas a morada.
Com o sangue nas portas das tendas para afastar toda a força maligna, ou “o
exterminador” (no hebraico maxehit, Êx 12,13.23) ou saqueador, bando de destruição (1
Sm 13,17; 14,15), o exterminador maxehit poderia ser qualquer tipo de agressor, enfermidade, desgraça, peste ou acidente que poderia ocorrer com os membros da família ou os seus animais.
trazer danos à vida dos pastores (Êx 12,1-13. 21-28). O rito é destinado a afastar os seres que se encontravam fora da morada, já que a aplicação do sangue é feita só sobre as ombreiras da entrada (Êx 12,23), mas também visava a proteção dos animais da família. Não temos nenhuma referência de um santuário, nem sacerdote no pesah pré-israelita, era uma celebração noturna e familiar.
Para Vaux (2003) o pesah aparece como um ritual de pastores e é um sacrifício de nômades ou seminômades, aquele de todos os rituais israelitas que mais se aproxima dos sacrifícios dos antigos árabes: não há intervenção de sacerdotes, não há relação com o altar, mas há a importância do rito de sangue. Acontece na primavera o sacrifício de um animal novo para obter a fecundidade do rebanho. É uma Festa que pode marcar, como tem sido proposto, a partida para a transumância de primavera, mas que não é suficientemente explicada por ela. É geralmente uma oferenda para o bem do rebanho, como era a antiga Festa árabe do mês de radjab, o primeiro mês da primavera. Os outros detalhes do pesah acentuam esse caráter de Festa de nômades, come-se a vítima assada no fogo, sem que haja necessidade de utensílios de cozinha, ela é comida com pão sem fermento, o que é ainda hoje pão dos beduínos, e com ervas amargas, que não são legumes cultivados em uma horta, mas plantas do deserto que os beduínos sabem escolher para temperar sua alimentação frugal.
De acordo com Vaux (2003) esta Festa não é a oferenda dos “primogênitos” do rebanho, os textos mais detalhados sobre a escolha da vítima e sobre os ritos da Festa não estão escritos em lugar nenhum. Porém, Êx 34,19-20 inseriu a lei dos primogênitos entre a prescrição da Festa dos ázimos e sua conclusão natural no v.20b, como mostra a comparação com Êx 23,15, e Êx 13,1-2. 11-16, aproxima da lei dos primogênitos do pesah e dos ázimos. É uma ligação artificial, para a qual a décima praga serviu de intermediária na noite do pesah, YHWH feriu os primogênitos do Egito e poupou as casas marcadas pelo sangue do sacrifício pascal, é por isso, diz Êx 13,15, que se imolam os primogênitos dos animais e que se resgatam os primogênitos do homem. Mas, esta ligação é secundaria, nada a expressa no ritual pascal e a lei dos primogênitos é dada à parte no velho Código da Aliança (Êx 22,28-29) (VAUX, 2003, pg. 526).
Por isso, para compreender plenamente as páginas pascais do Êxodo, é necessário
“celebrá-las” na liturgia, como o fará sistematicamente o judaísmo. O pesah torna-se
então, uma Festa eminente eclesial a dois níveis. Antes de tudo a nível familiar, como o atesta Êx 12,3-4: “Ao dez deste mês cada um tomará para si um cordeiro por família (...).
pesah é sinal de unidade profunda da família, que se acha completa ao redor do cordeiro
em uma ceia de comunhão. A tenda familiar, portanto, é o primeiro lugar para a celebração e o chefe da tenda o pai é o presidente desta pequena assembleia litúrgica. Considerada uma Festa muito antiga, a Festa do pesah remonta à época em que os israelitas ainda eram seminômades, ela é até anterior ao Êxodo.