CHAPITRE I : ETAT DE L'ART DU VEHICULE ELECTRIQUE ET CHOIX D'UN
3. LES CONVERTISSEURS DE PUISSANCE
3.1. C ONVERTISSEURS « CLASSIQUES »
3.1.1. Onduleur de tension triphasé
2.5.1. Contextualização
Depois de Pio XII, João XXIII e do Concílio Vaticano II, o pontificado de Paulo VI é marcado por um esforço de reafirmação do poder eclesiástico de legitimação e guia da ordem social, reacendendo no mundo católico o fogo da utopia cristã.
É no interior da plena reassunção de um papel político da Igreja na concertação dos estados e da necessária compreensão das necessidades das diversas potências mundiais, que Paulo VI assume sobre a guerra posições fortes, sinceras, prudentes, oscilantes e até contraditórias. Esta linha de orientação torna-se clara a partir do discurso pronunciado na ONU a 4 de outubro de 1965, onde a condenação da guerra e de todos os seus horrores é acompanhada pelo reconhecimento de que todavia «as armas de defesa serão necessárias, infelizmente»171.
Para uma boa compreensão do seu pontificado devemos ter em conta o facto de que, sobretudo na primeira fase, a divisão do mundo em dois blocos e em dois campos ideológicos bem como a «guerra fria» que persistia entre eles conheceu momentos muito ásperos, condicionando assim o comportamento da Igreja.
Numerosos são os países e regiões do mundo que nestes anos estão envolvidos em conflitos temporários ou crónicos desde o Vietname ao Congo, do Médio Oriente, da Palestina e do Libano à Irlanda do Norte, da Nigéria à República dominicana, ao Salvador e
171
Veja-se o texto pronunciado em Francês in Insegnamenti di Paolo VI, 3, 1965. Tipografia poliglota Vaticana,Città del Vaticano 1979, 513.
56 às Honduras, a Chipre, à Índia, ao Pakistão e à América Latina. Mas aqueles para quem se volta particularmente a atenção do Papa são o Vietname e os conflitos árabo-Istaelitas, sobretudo no que diz respeito à guerra dos seis dias que eclodiu em 1967172.
É Paulo VI que em 1967, na encíclica Populorum progressio173, vai em frente de modo significativo, percorrendo a estrada aberta pelo seu predecessor, coligando estritamente a questão da paz com a necessidade de assegurar a todos, às massas do terceiro mundo, da América latina e da África, a justiça e o desenvolvimento económico, sublinhando que, «o desenvolvimento é o novo nome da paz». Na mesma encíclica anunciava a constituição de uma comissão pontifícia denominada Justiça e paz, com o fim de contribuir para promover no mundo o progresso dos países mais pobres e menos desenvolvidos174. No mesmo ano o Papa decidia também a fixação da celebração anual, a partir de 1 de janeiro de 1968, de uma jornada de oração e meditação sobre a paz175.
Nas frequentes intervenções, em discursos, alocuções, saudações, sobre a paz os tons de Paulo VI são por vezes fortes e dramáticos, como no já recordado discurso na ONU de 1965, «jamais plus les uns contre les autres, jamais plus jamais […] jamais plus la guerre!» ou como se havia pronunciado sexta feira santa dia 16 de abril de 1965, «as guerras […] tornam-se assim um insulto à história dos homens e ao progresso, à liberdade e maturidade do género humano»176 ou no discurso aos cardeais a 24 de junho de 1965, no qual adverte acerca «da perspetiva de uma guerra na qual sejam empregues aqueles terríveis instrumentos de destruição que a ciência e a técnica encontraram», de uma guerra que seria «uma eventualidade dramática, irreversível, fatal», «seria o fim não das dificuldades, mas da civilização»177; ou ainda no Angelus dominical de 28 de janeiro de 1973, no qual fala da «irracionalidade desastrosa da guerra», sob a base da própria lição dada pela guerra do Vietname178.
Frequentes são as referências à Pacem in terris de João XXIII, embora genéricas e nunca literais, para lá da citação de John Kennedy no já recordado discurso na ONU, num discurso sobre o conflito no Médio oriente de 7 de junho de 1967 está contida uma citação de
172 Entre os escritos que dizem respeito ao papa Paulo VI e o problema da paz cfr. L. BOGLIOLO, La Pace e
Paulo VI, Roma, Pontifícia Università Lateranense, Roma 1969.
173
AAS 59 (1967) 257-199. 174
Cfr Enchiridion delle encicliche, Vol. 7, Popolorum progressio, 715 e 651. 175
Cfr. Ensegnamenti di Paolo VI, 5/1967, 620-625, 642 e 652. Poderão ver-se as suas mensagens para a celebração do Dia Mundial da paz in Venticinque messaggi di Paolo VI e Giovanni Paolo II per la celebrazione
della Giornata mondiale della pace, 1 gennaio de 1968 - 1 gennaio 1992, Libreria Editricce Vaticana, Città del
Vaticano 1992; encontrando-se as de Paulo VI nas páginas 7-87 e as de João Paulo II nas páginas 88-262. 176 Ibidem, 3/1965, 1221. 177 Ibidem, 372. 178 Ibidem, 5/1967, 284-285.
57 um passo da Querela pacis (1517) de Erasmo de Rotterdão179. As referências são umas vezes pessimistas, como no discurso de janeiro de 1974, em que sublinha que «a história […] é feita mais de atos da guerra e de factos trágicos que perturbaram e ensanguentaram o mundo, do que daqueles silenciosos, pacíficos que tornaram o mundo bom, ordenado e feliz»180, outras vezes mostra pelo contrário confiança na humanidade e no seu progresso, como no discurso para a terceira jornada da paz no dia 1 de janeiro de 1970, quando afirma que «assim como a sociedade conseguiu abolir pelo menos em linha de princípio a escravatura, o analfabetismo, as epidemias, as castas sociais […] assim deve abolir as guerras»181.
2.5.2. A Guerra do Vietname
A condenação da guerra colidiu com uma situação específica muito complexa no caso do Vietname. A situação do Vietname era precipitada quando o governo pró-americano do Sul tinha refutado o referendo para a eventual reunificação do país previsto em 1956 pela conferência internacional de Genebra; dessa vez não era o governo pró-comunista do norte a atacar o governo do sul, como tinha acontecido na Coreia em 1950. No sul tinha começado a guerrilha dos vietcong e os americanos tinham iniciado maciços bombardeamentos sobre o norte só porque este apoiava os vietcong. Uma vasta parte da opinião pública e a área «progressista» católica pediam a cessação dos bombardeamentos americanos no norte. A Santa Sé tomou iniciativas reservadas aos dirigentes do Vietname do sul e ao presidente americano Johnson, seja para com os dirigentes do Vietname do norte, para que cessassem os bombardeamentos americanos e para que fossem celebrados tratados de paz entre as duas partes. Estas iniciativas eram condicionadas por uma atitude pró-americana da Igreja católica do Vietname do sul, e sobretudo da posição belicista dos bispos americanos especialmente do cardeal Spellman. Pesavam sobre a Santa Sé os temores do perigo representado pela existência de um governo comunista do norte nos confrontos de uma minoria católica do sul neste quadro se explicam seja o insucesso em 1965 da missão La Pira – Fanfani, sem o apoio da Santa Sé, seja entre 1964 e 1966, o mais geral desfalecimento da obra de mediação levada a cabo pela Santa Sé. A qual, dava a fundada impressão que no caso específico não conseguia distanciar-se dos interesses e da politica dos Estados Unidos.
O âmbito essencialmente diplomático sobre o qual Paulo VI se colocava na questão do Vietname expunha-o por outro lado a fortes críticas por parte de grupos católicos mais empenhados na luta pela paz. A adesão a esta luta, teria entre outras reentrado em 1968, nas motivações da forçada demissão do cardeal Lercaro. Ambíguas suavam as palavras de Paulo
179 Ibidem, 5/1967, 284-285. 180 Ibidem, 12/1974, 4. 181 Ibidem, 8/1970, 6.
58 VI, primeiro a 23 de junho de 1969 num discurso aos cardeais, depois em 24 de novembro do mesmo ano numa alocução ao clero e aos fiéis do Vietname, depois de terem começado em Paris as negociações, a propósito de uma paz que deveria realizar a liberdade e o respeito pelos direitos da pessoa humana «e as legítimas aspirações à independência e à autodeterminação das populações Vietnameitas»182, autodeterminação e independência de todo o país, ou de cada uma das duas partes em que o Vietname estava dividido?
2.5.3. Conflito Árabe-Israelita
Quanto ao conflito árabo-israelita, reaceso em 1967, no interior da desaprovação e da denúncia da guerra, a preocupação de Paulo VI parecia centrar-se nas condições dos refugiados palestinianos, por quem em 26 de junho de 1967, diante do consistório secreto de cardeais, auspiciava «o remédio de uma solução equitativa e generosa»183 mas também e sobretudo pela tutela de Jerusalém e dos lugares santos, especialmente depois de, vencida a guerra dos seis dias, Israel havia também procedido à anexação da parte jordana de Jerusalém, cidade já declarada desde 1950 capital do Estado Hebraico, em contraste com a resolução da ONU de 1949, que havia estabelecido a internacionalização da cidade sob a égide das Nações Unidas. Repetidos foram os apelos de Paulo VI para que se atribuísse a Jerusalém, como cidade santa, um estatuto especial garantido juridicamente pela ordem Internacional e se providenciasse à sistematização das populações refugiadas184.
A par da denúncia das guerras, do terrorismo, dos nacionalismos e dos racismos, de cada violência, tortura e repressão, retorna nos pronunciamentos de Paulo VI a legitimação da guerra defensiva. Por exemplo na audiência geral de 21 de outubro de 1970, a rejeição da guerra é acompanhada por um «ainda que esta possa ser infelizmente ainda hoje de tal maneira imposta pela suprema necessidade de defesa»185, sem que por outro lado seja especificado se a legitimidade se estende a todos os modos e meios de uma guerra defensiva. Encontram-se além de mais no Papa expressões que não só distinguem a ideia da paz do pacifismo, mas que acabam por exaltar excessivamente virtudes heroicas, «viris», como se a defesa da paz por parte da Igreja não devesse inquietar minimamente os Estados e os seus aparatos militares, talvez favorecer a deserção; ou em vez disso, quase que se quisesse salvaguardar pelo passado a legitimidade das guerras santas, das cruzadas religiosas ou de rebeliões diante das opressões da fé religiosa. Assim, na mensagem para a celebração da jornada da paz a 8 de dezembro de 1967, Paulo VI sublinhava que era desejável
182
Cfr. Ibidem, 7/1969, 447-459 , 451-452, 24 novembro, 1334-1337. 183
Ibidem, 5/1967, 313-329, alocução pronunciada em latim. 184
Ibidem, 328. 185
59 Que a exaltação do ideal da paz não [favoreça] a preguiça daqueles que temem dever dar a vida ao serviço do próprio país e dos próprios irmãos quando estes estão empenhados na defesa da justiça e da liberdade, mas procuram somente a fuga das responsabilidades, dos riscos necessários pelo cumprimento de grandes deveres e de empreendimentos generosos. Paz não é pacifismo, não esconde uma concessão vil e preguiçosa da vida, mas proclama os mais altos e universais valores da vida; a verdade, a justiça, a liberdade, o amor186
Assim na homilia de 1 de janeiro de 1971 numa paróquia romana, por ocasião da quarta jornada da paz, dizia que a paz «não é fraqueza, não é covardia, não é tolerância da injustiça, nem aquiescência passiva a tantas tristes condições, em que ainda hoje o mundo se encontra. A paz quer ser a afirmação viril e magnânima das energias do espírito. Quer ser a vitória do bem sobre o mal, pretende ser o suprimento do antigo sistema de vingança[…]187.
2.5.4. Outros Problemas
Enquanto que em certas intervenções de Paulo VI parece que a guerra é um mal que pode ser contrastado, superado ou reduzido, certamente com a ajuda de Deus, mas também da razão, da força autónoma dos homens, noutros isso parece ser pelo contrário a consequência de uma degeneração moral, produto de uma tendência moderna a uma «liceidade progressiva» que «pode degradar-se em licença». As «degenerações morais» são a «guerra, la poligamia, a violação da palavra dada ou dos tratados», um mal que postula a necessidade de uma «conversão» moral e religiosa, como havia dito na audiência de 7 de outubro188. E mais explicitamente nos anos sucessivos, sobretudo no último período do seu pontificado, Paulo VI, acentuava com dureza, verosimilmente com internas lacerações, a sua atitude negativa em relação a muitos assuntos do mundo moderno. No quadro desta atitude tornada nitidamente pessimista, Paulo VI sublinhava «os horrores da guerra» juntamente com os derivados dos «assaltos que hoje, em nome de uma mal entendida liberdade que ofende a Deus e avilta o homem, e quereriam perpetrar por uma sociedade que não quer reconhecer outra lei moral que a própria suficiência e as próprias afirmações: […] a limitação artificial dos nascimentos, o aborto, a eutanásia, […] todas aquelas formas, abertas ou veladas de manipulações do homem», como se exprimia a 23 de junho de 1975 numa alocução ao Sagrado colégio colocando, a guerra próxima de comportamentos éticos condenáveis189.
Como é notório na encíclica Populorum progressio, Paulo VI sublinhava veementemente os «crimes» do colonialismo e os graves problemas de pobreza, de
186 Ibidem, 5/1967, 622-623. 187 Ibidem, 9/1971, 3-4. 188 Ibidem, 8/1970, 1010. 189 Ibidem, 13/1975, 678-679.
60 desequilíbrio e de desigualdade das populações dos povos em via de desenvolvimento a respeito dos países mais ricos, condenava as «estruturas opressivas» mas, salvo o «caso de uma tirania evidente e promulgada que atente gravemente contra os direitos fundamentais da pessoa e prejudique de modo perigoso o bem comum do país» sustentava que «a insurreição revolucionária» é fonte de «nova injustiça»190. Nos sucessivos discursos pronunciados em agosto de 1968 em Bogotá no curso da sua viagem à Colombia, rejeitava com mais força o recurso à violência e à revolução, que começava a ser justificada e teorizada pela teologia da revolução e da libertação191
O binómio paz-guerra produzia oscilações e contradições não só no magistério pontifício, mas também nas teologias políticas. De facto, a elaboração teológica católica com Paulo VI, afrontou com amplitude e profundidade a ligação entre a paz e a guerra, mostrando no seu interior uma complexa pluralidade de pontos de vista e direções.