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: Ondes dans la matière (incidence de Brewster) 1

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Este trabalho se justifica como possibilidade de investigar, compreender como um grupo específico de estudantes se comporta. Para que isso aconteça é necessário que as interpretações subjetivas, dadas como certas, cedam espaço para os significados que de fato são observados e constatados. Nessa linha de raciocínio, Frankham e MacRae (2015, p. 70) destacam que:

Num tal contexto isso de certa forma não importa; o mais importante é começar. E neste ‘começo’ esperar, observar e escutar de forma que permita ser provocado, ser atraído em determinadas direções e receptivos às múltiplas possibilidades que se apresentarão a seguir. Nesta etapa inicial é importante tentar registrar, na medida do possível, tudo que se vê e ouve. Isso constitui uma experiência trabalhosa [...].

Esta orientação de Frankham e MacRae (2015) caracteriza bem o fazer pesquisa nos moldes etnográficos, porque evidencia a descrição dos fenômenos no seu acontecer natural. Etimologicamente, etnografia significa “descrição cultural”. É um tipo de pesquisa desenvolvida por antropólogos para estudar a cultura e a sociedade. A etnografia surge no final do século XIX, como uma abordagem investigativa interessada pelo estudo das desigualdades, comportamentos e exclusões sociais. É uma modalidade de pesquisa social interpretativista, que se caracteriza por uma observação direta, por um determinado tempo. Essa observação recai sobre um grupo de pessoas, podendo ser numa comunidade, numa vila, numa escola, numa universidade ou numa empresa.

Quem faz esse tipo de observação é o etnógrafo. O etnógrafo busca interpretar os sentidos das experiências sociais, quando adentra um campo de pesquisa, imergindo em situações cotidianas, porque “afinal, umas das razões principais para se fazer etnografia é trabalhar de modo a descortinar novas formas de interpretar coisas”. (FRANKHAN, MACRAE, 2015, p. 71). Bortoni- Ricardo (2006) compartilha desses princípios, pois, para ela, o etnógrafo tem um

papel central em desvelar os padrões comportamentais de uma determinada cultura. Para tanto, ele deve ter o hábito diário de participar da vida da comunidade que deseja pesquisar, observando os fatos, colhendo informações, elaborando questionamentos, que levem à compreensão almejada.

Fica evidente, assim, o caráter antropológico da etnografia, considerando que ela examina os comportamentos humanos de forma rotineira e natural, descrevendo de maneira precisa as ações dos participantes, com o intuito de documentar e compreender determinadas ações. A etnografia tem como um dos seus princípios descrever com precisão o que um grupo de pessoas faz. Por isso, o etnógrafo deve descrever e relatar o mais detalhadamente possível o que ocorre. Através de metáforas, analogias, diálogos, descrições e alusões, se espera que o pesquisador consiga compreender como as pessoas e as suas práticas funcionam num determinado contexto. (FRANKHAN, MACRAE, 2015). Quanto a isso, Geertz (2008) escreve que o etnógrafo realiza tentativas de construir a leitura de um “manuscrito estranho” desbotado, repleto de incoerências, elipses e comentários tendenciosos. A respeito disso, esse autor destaca:

O etnógrafo "inscreve" o discurso social: ele o anota. Ao fazê-lo, ele o transforma de acontecimento passado, que existe apenas em seu próprio momento de ocorrência, em um relato, que existe em sua inscrição e que pode ser consultado novamente. (GEERTZ, 2008, p. 14).

O exercício de inscrever, registar, mencionado por Geertz (2008), é tarefa primordial do etnógrafo. Todos os detalhes devem ser anotados por ele. Ao etnógrafo interessa registrar crenças, práticas, ações, hábitos e valores de um grupo social. Entretanto, para pesquisadores da área da educação, o foco deve recair sob o processo educativo. Por isso, existe uma diferença elementar entre fazer pesquisa etnográfica em geral e adaptá-la à área da educação. Wolcott (1998, apud ANDRÉ, 1995) cita como exemplo dessa diferença a longa permanência do pesquisador em campo, o contato com outras culturas e o uso

de amplas categorias na análise dos dados. Com base nisso, parece que se tem adaptado a etnografia à educação, permitindo dizer que se faz um estudo qualquer de cunho etnográfico e não etnográfico em seu sentido estrito.

Ao adaptá-la, o pesquisador deve imergir no local de pesquisa, mantendo relação com as pessoas que lá estão, intencionando registrar os eventos em seu acontecer natural. Isso tem possibilitado uma compreensão precisa de inúmeros contextos de pesquisa, sobretudo, os de aprendizagem de uma LE, porque tem lançado luz nos problemas, que, muitas vezes, passam despercebidos, em pesquisas que simulam a sala de aula, cuja observação é baseada em instrumentos pré-determinados. Por isso, tem se reconhecido a relevância e eficiência da pesquisa de cunho etnográfico no campo educacional.

A relevância dessa modalidade de pesquisa reside nos seus princípios. Quanto a isso, Cançado (1994) menciona o “êmico” e o “holístico”. Segundo essa pesquisadora, o princípio “êmico” requer que o pesquisador compreenda a sala de aula em termos de sua dinâmica diária. Para tanto, ele deve abandonar métodos de medição, conceitos previamente estabelecidos, tipologias e se concentrar nos eventos. Já o princípio “holístico”, marca o caráter integral da etnografia, porque o pesquisador deve considerar para a sua análise todos os aspectos sociais, pessoais e físicos, inerentes a um grupo observado.

Entretanto, no que concerne o princípio “êmico”, alguns

questionamentos têm emergido. A polêmica levantada em torno desse princípio diz respeito à neutralidade do pesquisador. Alguns estudiosos defendem a noção de que nenhuma pesquisa está imune à interferência das visões e pontos de vistas do pesquisador. Nessa perspectiva, a figura do pesquisador não deve ser compreendida como a de um narrador passivo, mas antes um analista que age também de acordo com a sua subjetividade. Cançado (1994) discorda desse ponto de vista e acredita que o etnógrafo deve evitar julgamentos em relação ao seu foco de pesquisa. Quanto a isso, entendo que a subjetividade cedo ou tarde acabará ganhando espaço na análise dos dados. Será inevitável proceder

comentários que não partam de uma visão pessoal, embora com base no que se observa, o que não invalida a credibilidade de uma pesquisa.

Apesar de reconhecer a relevância da reflexão em torno dessa polêmica, acredito ser mais pertinente discutir acerca das ações e instrumentos que um etnógrafo deve conhecer. Desse modo, o etnógrafo deve ter habilidades para lidar com técnicas de observação, gravação e transcrição de dados. A ele compete saber adentrar no contexto de pesquisa, sem ser invasivo. Arrisco dizer que a etnografia é um trabalho árduo de perseguir pessoas em busca de significados, de ações que desvelem um problema previamente identificado pelo pesquisador. Na sala de aula, fazer pesquisa nesses moldes não é tarefa simples. Muita cautela deve ser tomada, desde o cumprimento das formalidades para uma pesquisa com seres humanos, regulamentadas por conselhos de ética, à chegada ao contexto de pesquisa e à escolha das ações pelo pesquisador, sobre o que tratarei na seção a seguir.

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