III. — UN DÉVELOPPEMENT À MAÎTRISER
1. Obtenir la participation de la population
Antunes (2007, p. 25-34) demonstra que, quando usamos o termo gramática, podemos estar falando de, pelo menos, seis coisas distintas: um tipo de livro, uma disciplina escolar, regras que regem o funcionamento de uma língua ou norma
ano), a nota alcançada foi de 4,5, não atingindo a meta de 4,7; no Ensino Médio, a meta era de 4,3, mas a nota alcançada foi de 3,7. Dados disponíveis em: https://undime.org.br/noticia/09-09-2016-09-27-mec- divulga-resultados-do-ideb-2015. Acesso em 25/01/2017
específicas, uma perspectiva de estudo ou uma tendência histórica de abordagem. Portanto, é um termo polissêmico.
Se vista como um tipo de livro, a gramática é a materialização no papel de uma descrição do funcionamento da língua, que pode ser feito por meio de uma visão prescritiva ou descritiva. Por serem produtos da cultura humana, elas são passíveis de falhas e é fundamental que não se negue seu caráter político, pois adotar determinada gramática é adotar sua visão de língua. Muito usado nos ambientes escolares, o sentido de gramática como disciplina escolar é um dos termos que gera mais problemas. A comunidade extraescolar acaba absorvendo a ideia de que ensino de língua e ensino de gramática são a mesma coisa. Ora, assim como não existe língua sem gramática, o saber gramatical só tem lugar dentro das atividades comunicativas. Numa terceira acepção, gramática diz respeito a uma “perspectiva científica ou um método de investigação sobre as línguas” (ANTUNES, 2007, p. 31), como por exemplo, o estruturalismo, o funcionalismo, o gerativismo etc.
Expressando o conjunto de regras que regem o funcionamento da língua, podemos compreendê-la como todas as regras de uso da língua. É um conhecimento que vamos internalizando desde os primeiros anos de vida, mesmo sem ter noção de que o estamos fazendo. Nessa perspectiva, é impossível aprender uma língua sem saber sua gramática. Todavia, quando compreendemos gramática como um conjunto de normas que ditam o uso da norma culta. Nesse sentido, a gramática considera aceitável somente os usos considerados prestigiados que são estabelecidos por fatores extralinguísticos. É a gramática do certo contrapondo-se à do erro. Ao invés de usar o termo culta nesse contexto, a autora deveria ter usado o termo norma padrão, seguindo a proposta de Faraco (2008).
Antunes (2012, p. 17), ao retomar a temática sobre as concepções que se tem a respeito das funções e limites da gramática destaca que: (1) a gramática é apenas um dos vários elementos que constituem a língua; (2) sua função normatizadora, independente da variedade da língua de que tratemos; (3) constitui-se por diversas unidades e (4) que o estudo delas é possivelmente a parte menos importante no aprendizado da língua; e, por ser um componente da língua, vista enquanto conjunto de regras, a gramática é flexível porque por natureza as línguas também o são. A partir dessas considerações, a linguista define gramática
como o conjunto de regras que especificam os padrões (fonológicos, morfossintáticos e semânticos) de funcionamento de uma determinada língua. Nesse sentido, toda língua tem sua gramática ou, noutra perspectiva, toda gramática regula os modos de realização da língua a que pertence. (ANTUNES, 2012, p. 17)
Franchi (2006) também discute o conceito de gramática. Ele aponta a existência de três concepções de gramática: a normativa, a descritiva e a gramática em uma perspectiva diversa das duas anteriores.
Em se tratando de Gramática Normativa, o autor a define como “conjunto sistemático de normas para bem falar e escrever estabelecidas pelos especialistas, com base no uso da língua consagrado pelos bons escritores” (FRANCHI, 2006, p. 16). Nesse caso, quem sabe gramática é aquele que domina o que denominamos de norma-padrão da língua como veremos adiante. Considerando essa definição, nenhum falante do português brasileiro utiliza a língua de acordo com os preceitos da Gramática Normativa em situações mais monitoradas de sua fala. Isso significa que a Gramática Normativa “cria” uma variedade ideal da língua.
Quanto à Gramática Descritiva, ele a caracteriza como um “sistema de noções mediante as quais se descrevem os fatos de uma língua, permitindo associar a cada expressão dessa língua uma descrição estrutural e estabelecer suas regras de uso, de modo a separar o que é gramatical do que não é gramatical” (FRANCHI, p. 22). Embora seja uma noção distinta da Gramática Normativa, a Descritiva mantém os preconceitos linguísticos daquela. Ela não é tão neutra quanto parece, já que o estudioso da língua pode desconsiderar fenômenos linguísticos que ocorrem nas variedades da língua desprestigiadas socialmente. Além disso, a Gramática Descritiva pode acabar se tornando uma receita que prescreve as regras da gramática normativa no ensino. Essas duas concepções de gramática não dão conta da variedade de fenômenos linguísticos que caracterizam qualquer língua natural nem reflete a própria construção heterogênea do povo que a utiliza.
Como a linguagem é uma característica inerente ao ser humano, todos eles possuem uma gramática internalizada de suas línguas, dominando-a desde a infância. Então, como é possível se manter o preconceito de que os brasileiros não falam bem o português se eles dominam sua gramática?
Na visão de Gramática que se contrapõe às anteriores, o autor a conceitua como “o saber linguístico que o falante de uma língua desenvolve dentro de certos limites impostos pela sua própria dotação genética humana, em condições apropriadas de natureza social e antropológica” (FRANCHI, p. 25). Saber gramática está diretamente relacionado, nessa concepção, ao domínio do conjunto de princípios que regem a construção das expressões linguísticas. Nessa perspectiva de Gramática, a variação linguística é aceita e respeitada. Entende-se que, assim como a variedade padrão da língua, as outras variedades também apresentam suas regras organizacionais.
Franchi chama a atenção para o engano existente em se pensar que a gramática está dissociada da produção e compreensão de textos. Ele a define
como o conjunto de regras e princípios de construção e transformação das expressões de uma língua natural que as correlacionam com o seu sentido e possibilitam a interpretação. Antes de ser um livro de etiquetas sociais ou um manual descritivo, a gramática é, de início, esse saber linguístico que todo falante possui, em um elevado grau de domínio e perfeição. Em um segundo plano, a explicitação formal desse saber. (FRANCHI, 2006, p. 99).
Desse modo, podemos concluir que as regras a que se refere Franchi são construídas socialmente, portanto, fazem parte de todo um sistema sociocultural vivenciado e compartilhado pelos falantes com suas comunidades. Portanto, não podem ser vistas como algo fixo, mas mutável e sempre passível de revisões.