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Les obstacles à la réalisation des interviews et à la production d‘images

II. L’inégalité médiatique des handicap(é)s

2) La production de l’invisibilité médiatique : handicaps mentaux, psychiques et

2.1 Les obstacles à la réalisation des interviews et à la production d‘images

2.1 – – Concepções sobre Estado Autoritário – uma breve discussão

O teatro é a única arte (...) que usa a criatura humana como meio de expressão. Este caráter de ato político-social da representação teatral, ato que se realiza naquele momento e com a participação do público, não pode ser esquecido. (Dias Gomes)

Uma das mais evidentes características de um Estado Autoritário é o que se pode chamar de desmobilização social. De acordo com Ricardo Silva (2001), desmobilização social constitui-se uma estratégia em que se nega qualquer organização por parte das camadas mais populares, para que se tenha um controle total sobre o povo e suas atitudes. Ainda em relação a essa ideia, Silva destaca que “o sonho do autoritarismo desmobilizador é a passividade dos cidadãos, e a possibilidade, correlativa, de obrar para o bem

deles” (SILVA: 2001, p. 9). A partir das observações de Silva, nesse caso, vê-

se que um dos objetivos do Estado Autoritário é evitar qualquer mobilização social, especialmente das camadas mais populares, por isso que a formação e a informação oferecidas por tal Estado são alienadoras, em busca de obediência e de passividade sociais. O Autor destaca, ainda, que “A

restauração e a reprodução da ‘disciplina social’ são a razão de ser do Estado

autoritário” (SILVA: 2001, p. 8). Nesse sentido, o Estado se impõe como o único sujeito histórico capaz de moldar a sociedade, organizar a nação e de disciplinar o povo.

Buscando levar a sociedade a uma obediência passiva e a uma despolitização, o Estado Autoritário tem como uma das principais metas a subordinação dos poderes Judiciário e Legislativo ao poder Executivo, posicionamento que autoriza a repressão a toda e qualquer oposição política e ideológica ao governo em vigência. A instauração de um Estado altamente centralizado tem início na Constituição de 1934 e consolidação na de 1937.

Ademais, a partir desta Constituição, quem controla o Legislativo é o Executivo, a União, além de controlar, também, os estados federativos e os direitos do cidadão. Dessa maneira, ao atribuir ao Presidente da República o poder de intervir livremente nos estados e de expedir decretos-leis, a Constituição de 1937 consolidou as bases para a realização de um Estado Autoritário (SILVA, 2010). Ou seja, a vivência de um processo de total repressão durante a Ditadura Militar a partir de 1964 tem seus prolegômenos no Estado Novo de Getúlio Vargas, momento histórico preparatório para aqueles ‘anos de chumbo’.

Muito embora essa discussão possa parecer hoje ‘superada’, desde que nos anos de 1980 a expressão ‘Estado Autoritário’ serviu a uma série de discussões sociológicas, ela ainda é válida, principalmente para que a sociedade esteja sempre alerta e melhor compreenda a formação do Estado Brasileiro a partir dos anos da Era Vargas, especialmente, o Estado Novo, até os anos finais da década de 1970, quando a transição política garantiu, teoricamente, o estabelecimento de um ‘Estado Democrático’.

Marilena Chauí (2013), em seu livro Manifestações ideológicas do

autoritarismo brasileiro, destaca alguns traços gerais que provocaram a

formação daquele Estado: a ausência de uma burguesia nacional plenamente constituída; a ausência de uma classe operária madura, autônoma e organizada, preparada para propor e opor um projeto político que desbaratasse o das classes dominantes fragmentadas; a presença de uma classe média desatinada, ao oscilar entre uma oposição à classe dominante e um entrave à classe operária. Tudo isso gerou um vazio em relação à tomada de poder, espaço que será preenchido pelo Estado, o qual, nascido do vazio político, então, passa a assumir-se como o sujeito histórico do Brasil.

Frente a esse contexto, era necessário que o país se organizasse em um conjunto de representações e normas por meio do qual os sujeitos sociais e políticos se representassem a si mesmos e à coletividade, em busca de defesa dos direitos à cidadania (CHAUÍ: 2013). Era preciso mostrar resistência e demonstrar que nem todos eram alienados, que as percepções ideológicas de autoritarismo estavam sendo notadas. Para tanto, a contribuição de uma produção cultural voltada a essas questões era bem-vinda e funcional. E vários artistas se engajaram em causas de sua época, sobretudo os envolvidos com o

teatro – manifestação artística que, histórica e especialmente, tem demonstrado grande envolvimento político, em busca de conscientizar, de esclarecer seu público. A existência de um Estado Autoritário não foi suficiente para estagnar o florescimento artístico-cultural que acompanhou as questões políticas e sociais desde o final dos anos de 1950, a exemplo do Teatro de Arena, do Teatro Oficina, do Cinema Novo. A partir de então, os ‘donos do poder’ não sabiam como desfazer ou evitar toda a movimentação cultural que se espalhava pelo país e que só teria fim após o AI-5 (RIDENTI, 2000).

Importante mencionar-se que a produção artístico-cultural não pode ser vista de maneira salvacionista; mas a provocação que ela consegue promover é imprescindível a toda e qualquer sociedade. A arte nasceu para desacomodar instâncias; e em determinados momentos políticos, ela pode representar a mais funcional saída de toda uma sociedade. Relacionando arte e o momento político da década de 1960, Marcelo Ridenti acentua que “as artes não poderiam deixar de expressar a diversidade e as contradições da sociedade brasileira da época, incluindo, por exemplo, a reação e o sentimento social ante o Golpe de 1964” (RIDENTI: 2000, p. 73). Relacionar a produção artístico-cultural e o Estado Autoritário provocaria variadas pesquisas, contudo, o propósito deste trabalho é apenas evidenciar essa relação, para que se possam estabelecer alguns referenciais históricos e estéticos que interferiram na produção de O Pagador de Promessas e de O Santo Inquérito. Afinal, cada uma dessas peças dialoga diretamente com seu contexto histórico-político e estético, revelando uma das funções do teatro e de dramaturgos engajados ideologicamente, como Dias Gomes. Além disso, é preciso que se diga que o uso da arte para reprimir manifestações de autoritarismo por parte do Estado não é um gesto incomum.

O teatro com perspectivas alegóricas ocorre desde a Grécia antiga. Acerca desse caráter, Kathrin Rosenfield afirma que “O teatro grego não é lazer privado, nem liturgia, mas uma espécie de contemplação do fundamento

da religião, da política e da sociabilidade” (ROSENFIELD: 2002, p. 9). Nesse

sentido, as questões de cidadania e as referentes ao universo sociopolítico estavam diretamente relacionadas às questões estéticas. Os enredos estabeleciam ligação direta entre os mitos, a fundação e o desenvolvimento da civilização humana e as linhagens que daí resultavam. Dessa forma, tais

enredos punham em destaque valores e regras de sociabilidade, mimetizados nas figuras mitológicas, que são reescritas e reinterpretadas nas peças. Nas

palavras de Rosenfield, “Nessa reescritura, o passado remoto da lenda heroica

transforma-se em pano de fundo para uma reflexão sobre problemas atuais”

(ROSENFIELD: 2002, p. 9).

Em tal ambientação alegórica do teatro grego, percebe-se a imbricação

de três concepções acerca da alegoria: 1) a exposta por Lausberg – um

princípio de interpretação, quando se atribui um novo sentido ao discurso em

nome da modificação de uma situação; 2) por Benjamin – o discurso alegórico

contribui para que a História seja fixada, já que é nele que melhor se retém o passado; e, finalmente, a exposta por Jameson – o discurso artístico-cultural contribui para que se reconte/ressignifique a história do povo. É essa imbricação que compõe o estratagema tomado por Dias Gomes na criação, por

exemplo, da personagem Branca Dias – uma cristã-nova que viveu no Brasil

colonial –, para pôr em destaque situações problemáticas do tempo histórico em que o Autor produziu a peça: a Ditadura Militar. Assim, alegorizou-se na tragédia grega, visto que esta refletia sobre a organização social e sobre modos de governar a partir de lendas mitológicas, e Dias Gomes alegorizou em

O Santo Inquérito, ao discutir questões sociopolíticas da Ditadura a partir da

vida de uma cristã-nova que enfrentou o Poder Eclesiástico.

Tome-se como exemplo do teatro grego alegórico Prometeu

Acorrentado, de Ésquilo (525 a 456 a.C.). Nessa tragédia grega, Zeus, que

acabara de assumir o trono após ter vencido a Guerra dos Titãs, manda acorrentar Prometeu em uma rocha como punição por este ter dado aos humanos uma centelha de fogo. Opressor, Zeus se vinga de seu tio Prometeu de maneira cruel. Alegoria das relações de poder, a peça expõe aos olhos do espectador um embate entre um deus obstinado, firme, que é capaz de tudo para conseguir o que deseja, e um deus tirano, inflexível, injusto e ingrato, que esqueceu, inclusive, a ajuda de Prometeu para ter chegado aonde chegou.

PODER

(...) Ele roubou uma flor que era tua, o brilho do fogo, vital em todas as artes, e deu-a de presente aos mortais; é preciso que pague aos deuses a pena desse crime, para aprender a acatar o poder real de Zeus e renunciar o mau vezo de querer bem à Humanidade.

HEFESTO

(...) Eis o que te rendeu o vezo de querer bem à Humanidade. Tu, um deus, não te encolheste de medo à cólera dos deuses e entregaste, com violação da justiça, as suas prerrogativas aos mortais; em paga, montarás guarda a este penhasco desprezível, de pé, sem dormir, sem dobrar os joelhos. Debalde exalarás gemidos e ais sem fim, porque inexorável é o coração de Zeus; todo poder recente é implacável.

(ÉSQUILO: 2005, p. 19)

Embora Zeus não apareça fisicamente em nenhum momento na peça, a referência a sua presença é constante, e sua figura funciona como a de um déspota que age em silêncio e a distância. Nesse caso, ele se consubstancia, pois, como a representação de um Estado Autoritário e assume o papel de sujeito histórico que oprime aqueles que lhe tentam obstruir o caminho para a conquista do poder absoluto19.

Fora do âmbito divino, outra tragédia clássica grega em que se pode encontrar a concepção de um Estado Autoritário, desta vez representado por personagens humanas, é Antígona, de Sófocles (495 a 406 a. C.), em que Creonte ganha contornos de um tirano.

CREONTE

O que importa é que havia uma guerra e a guerra tem dois lados. Polinices escolheu o lado errado.