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Observation de type image

população da Catalunha, definida empiricamente entre seis projetos estatisticamente independentes de autonomia – pessoal, profissional, empresarial, comunicativo, corporal e sociopolítico – Manuel Castells conclui que quanto mais as pessoas eram autónomas em cada uma dessas seis dimensões, mais frequentemente e intensamente usavam as redes sociais. A relação diretamente proporcional entre a presença em rede e a elevação do grau de autonomia de cada pessoa ou movimento também pode ser associada, de forma inversamente proporcional, na relação com a alienação política. O autor afirma que “há, de facto, um círculo virtuoso entre as tecnologias da liberdade e a luta para liberar as mentes dos

sariamente individualismo, uma vez que o projeto do indivíduo pode ser dirigido para a ação coletiva e para os ideais partilhados  –  a exemplo da preservação ambiental e a criação de comunidades sobre temáticas diversas –, enquanto o individualismo restringiria o bem-estar do indivíduo como objetivo final de um projeto particular.

À luz dos movimentos em rede recentes, o conceito de autonomia toma con- tornos mais abrangentes, possibilitando uma relação tanto com atores individu- ais quanto coletivos. Tal ideia nasce na capacidade de um ator social se tornar o sujeito de uma ação em torno de projetos construídos conforme seus próprios valores e interesses, independentes das instituições em declínio no mundo con- temporâneo. É assim que as redes cumpririam o papel de ponte: na transição entre a individualização e a autonomia, permitindo “que actores individuais construam a sua autonomia, com pessoas com interesses semelhantes, nas redes que escolhem”, como fruto dessa cultura da liberdade que é a internet. “Foi deli- beradamente desenhada por cientistas e hackers como uma rede de comunicação descentralizada, capaz de resistir ao controlo de qualquer centro de comando” (Castells, 2013, p. 225).

A consolidação das redes sociais digitais como um espaço/meio de resistência para aquilo que o autor explica como “ativismo sociopolítico” teria ainda como base a dimensão do humano, funcionando como uma extensão das nossas rela- ções antes restritas aos ambientes não conectados. “(...) é uma rede auto-cons- truída com base numa conectividade perpétua. Mas esta não é uma sociedade puramente virtual. Existe uma ligação estreita entre as redes virtuais e as redes da vida em geral” (Castells, 2013, p. 226).

No sentido sugerido pelo sociólogo, as pessoas constroem redes para estarem umas com as outras, a partir de critérios que incluem aqueles que já conhecem ou aqueles que gostariam de conhecer, como se o mundo real fosse um mundo híbrido entre a interação online e offline – como trataram Rainie & Wellman (2012) na conceção das redes como novo sistema operativo social.

“As redes estão dentro do movimento, com outros movimentos pelo mundo, com a blogosfera, os media e a sociedade em geral” (Castells, 2013, p. 216). Isto sig- nifica dizer que a internet é vista como uma rede de redes, descentralizada, capaz de maximizar hipóteses de participação nas ações coletivas, ao mesmo tempo em que reduz a vulnerabilidade dos seus membros em relação às ameaças de repressão e aos próprios perigos internos de burocratização e manipulação nos movimentos. “Enquanto esses movimentos normalmente começam nas redes sociais da Internet, eles tornam-se um movimento pela ocupação do espaço urbano, seja

a ocupação das praças públicas ou a persistência das manifestações de rua” (Cas- tells, 2013, p. 217).

Essa lógica observa o espaço do movimento como aquele construído por uma interação do espaço de fluxos da internet e das redes de comunicação sem fios, lado a lado com o espaço físico e os edifícios simbólicos ocupados e mar- cados pela ação de protestos  –  o híbrido que constitui o tal espaço de auto- nomia. Sendo assim, o que entendemos como net-ativismo ficaria restrito aos movimentos que transitam entre a rede e a rua, excluindo as demais formas de ação e colaboração nas redes sociais digitais – a exemplo daquelas hackti- vistas – relegadas ao que o sociólogo define como “desafio sem uma base per- manente de autonomia no espaço de fluxos é equivalente a activismo desconti- nuado” (Castells, 2013, p. 217).

Embora reconheça que os valores, objetivos e estilo organizacional dos movi- mentos oriundos de uma cultura da autonomia não possam existir sem a internet, o significado de tal cultura seguiria associado a algo mais profundo: à adequação do papel das jovens gerações de um novo século enquanto agentes de mudança de uma sociedade em rede, contrastando com instituições políticas herdadas de uma estrutura social historicamente superada. Sendo assim, nos resta aqui inves- tigar quais os anseios dessa cultura da autonomia revelada por este sociólogo.

Se partirmos da ideia castelliana de que as pessoas se organizam nas redes sociais digitais como uma amplificação das redes reais da vida67, a fim de formar novas redes de indignação e esperança contra as instituições públicas/políticas em declínio, que novos meios de fazer política tais redes sugerem?

1.3.1. O ativismo em rede e a participação sem partido

Nos movimentos que se espalharam por diversas latitudes do norte da África e do Médio Oriente, originaram manifestações nos Estados Unidos, no Brasil, na Argentina e em diversos países da Europa ao longo dos últimos cinco anos, havia algo mais em comum além da crise da democracia (ou a ausência desta, nos paí- ses da revolução árabe) e a crise económica global68. Ao lado das manifestações agudas contra uma sociedade injusta e uma política de democracia questionável