A perspectiva mídia-educativa não comtempla apenas a inserção de tecnologias em sala de aula, em uma estrutura utilitarista, mas defende que as práticas pedagógicas sejam modificadas com o intuito de aproximar as escolas da sociedade midiática atual. Neste contexto, o professor Dr. Pier Cesare Rivoltella (2013) desenvolveu uma metodologia que problematiza a posição dos professores em tal contexto e, desta forma, pode contribuir com a inserção tecnológica em sala de aula. Chamada Episódios de Aprendizagem Situados – EAS, esta linha metodológica auxilia os professores a relacionarem o ambiente escolar e os meios de comunicação, de acordo com os preceitos da Mídia-Educação. No Brasil, Fantin oportunizou o acesso ao EAS com traduções e artigos sobre o tema (FANTIN, 2015) e com cursos e oficinas que fazem parte da pesquisa mais ampla (FANTIN, 2014), no contexto da aplicação de tal metodologia no cenário brasileiro.
Elaborada a partir dos preceitos da Neurodidática (RIVOLTELLA, 2012) a metodologia EAS entende a sala de aula como “arena simbólica, produção de conhecimentos, significações, aprendizagens, interações, negociações de conflitos e tensões. ” (FANTIN, 2015, p.444). Abordando temas como a experiência e o contexto no cotidiano escolar, a relação entre corpo e
cognição, além do papel das emoções na aprendizagem, a neurodidática também dialoga com duas outras ideias: Didática Enativa (ROSSI, 2011) e Teoria da Simplexidade (BERTHOZ, 2011).
A primeira, que entende o corpo, a mente e o mundo conectados, considera a sala de aula um sistema em que os sujeitos e o ambiente aprendem e se modificam no processo. Fantin (2015, p. 448) nos auxilia a entender esta concepção sistêmica sobre o ambiente escolar:
[...] a didática enativa permite pensar em métodos e técnicas que o professor pode utilizar para administrar a relação sistêmica entre professor-aluno-grupo, ambiente-artefato na sala de aula. Entender cada componente da sala de aula implica considerar que o espaço também é uma variável que produz efeitos sobre os outros elementos, e que cada elemento redefine continuamente os outros, pois esse é o sentido de sistema. E entender como esse sistema complexo é coordenado e mediado pelo professor é um dos pressupostos da didática enativa.
Por sua vez, a Teoria da Simplexidade pode ser considerada um exercício de decifrar o complexo, não o minimizando, mas traduzindo-o em elementos de mais fácil compreensão, pois a simplexidade pode ser entendida na relação do indivíduo com o mundo, em que se processa a complexidade:
Simplificar em um mundo complexo nunca é simples. Requer capacidade de inibir, selecionar, coligar, imaginar. [...] O fundamento de nossos pensamentos, do desenvolvimento de nossas funções cognitivas mais elevadas e também mais abstratas consiste no ato, e o cérebro se desenvolveu de modo a poder antecipar as consequências de uma ação, planejando as próprias percepções sobre o mundo, as próprias hipóteses e os próprios esquemas interpretativos. A originalidade dos organismos vivos é justamente aquela de ter encontrado soluções que resolvem o problema da complexidade com mecanismos que não são simples, mas simplexos (BERTHOZ 2011, p. xi apud FANTIN, 2015, p. 450).
É neste contexto de diálogo entre neurodidática, didática enativa e teoria da simplexidade que a metodologia EAS é desenvolvida.
Assim, Rivoltella (2013) elenca as três modalidades fundamentais de aprendizagem, conforme a neurociência: experiência, imitação e repetição. Relacionando-as à didática, ele aproxima tais modalidades da pedagogia de Freinet, com a chamada lição a posteriori, em que se incentiva os próprios estudantes a atuarem no desenvolvimento de suas aprendizagens. Desta forma, os alunos são estimulados a estudar e/ou pesquisar previamente a temática que está sendo ensinada, para depois produzirem e/ou sistematizarem o conteúdo. Neste sentido, é a partir de uma introdução inicial do professor e das dúvidas, questionamentos e hipóteses levantadas pelos estudantes que se encaminha o andamento das atividades.
A partir desta concepção de Freinet, é possível encontrar na atualidade a noção de Flipped Lesson, de Eric Mazur (1997), expressão também conhecida como “aula invertida” que se refere à mudança no formato pedagógico expositivo. Mazur (1997) propõem que os estudantes realizem em casa uma apreciação inicial do conteúdo (através de vídeos elaborados pelos professores, por exemplo) e em um segundo momento, em sala de aula, utilizem os conceitos aprendidos para realizar atividades, sobretudo de solução de problemas. Desta maneira, a exposição do conteúdo, antes realizada na escola, assume o espaço doméstico, enquanto a sistematização e o aprofundamento dos temas, antes realizados em ambiente doméstico, ganham o espaço escolar. A flipped lesson busca despertar o interesse dos estudantes, enfatizando a escola como um espaço de promoção e fomento de participação. As tecnologias da atualidade encontram nesta proposta uma aliada, na medida em que escola e mídias se aproximam no desenvolvimento das atividades.
Somando a isso, a ideia de microlearning também fundamenta a metodologia EAS (RIVOLTELLA, 2013), que se desenvolve em três momentos:
1) momento prévio, constituído de um quadro conceitual ou de uma situação-estímulo (vídeo, imagem, experiência, documento, depoimento socializado) que encaminha uma atividade preparatória aos alunos;
2) momento operativo, que envolve uma microatividade de produção em que se solicita ao aluno resolver um problema ou produzir algum conteúdo sobre a situação-estímulo; 3) momento resestruturador, que consiste numa síntese/debriefing sobre o que aconteceu nos momentos anteriores e num retorno sobre os processos ativados e os conceitos que emergiram de modo a sustentar a reflexão e ter consciência dos processos desenvolvidos e seus resultados, a fim de fixar aspectos que merecem ser destacados (FANTIN, 2015, p. 45)
Nesta estrutura, que deve ser desenvolvida em cada aula/encontro, tem-se o fomento das três modalidades básicas de aprendizagem: experiência, na medida em que são atribuídas aos alunos as tarefas de explorar, selecionar e solucionar problemas; imitação, na observação, nas situações- estímulo e nos momentos de reflexão; repetição ao rever as questões trabalhadas a partir de vieses diferentes.
As etapas do EAS também podem ser relacionadas à estrutura desenvolvida pela New Londond Group – NLG (COPE; KALANTZIS, 2000), que pensa as etapas didáticas conforme o design cultural. Nesta perspectiva, o primeiro momento EAS relaciona-se ao Designed, sendo considerado a tradição inerente às escolas, ou seja, a fase de transmissão de conteúdos do professor ao aluno. O segundo momento, refere-se ao Designing, ou seja, à ação de modificar, adaptar ou construir significados. Assim, o Redesigned relaciona-se à terceira etapa, pois configura-se como o reencontro de significado ou a ressignificação naquilo que foi elaborado. A tabela abaixo ilustra a relação entre as etapas EAS e os pressupostos da NLG, assim como com as cinco principais formas de aprendizagem (aquisição, pesquisa, prática, colaboração e discussão).
TABELA 1 – Relação entre Episódios de Aprendizagem Situados e New London Group
EAS Framework NLG Ações Didáticas Aprendizagem
Momento Preparatório Designed Fazer, experiência, conceitualizar, analisar
Por aquisição, por pesquisa
Momento Operatório Designing Analisar, aplicar Através da prática; por colaboração Momento Reestruturador Redesigned Discutir, publicar Através da discussão;
por colaboração Fonte: RIVOLTELLA, 2013, p. 125.
Verifica-se, portanto, que a metodologia dos Episódios de Aprendizagem Situados busca aproximar o ambiente escolar dos meios digitais, não apenas utilizando-os de maneira instrumental ou como um chamariz para tornar as aulas mais ilustradas tecnologicamente, mas pensando na construção cultural que emerge na realidade midiatizada. De acordo com Fantin:
No planejamento/construção/avaliação do EAS, a didática é entendida como montagem de
objetos culturais, o planejamento como design, e a avaliação, para além da escola de competências, é entendida na perspectiva das tarefas incorporadas, embedded task e dos
portfólios (2015, p. 457).
Desta maneira, a cidadania fomentada pela escola, inerente ao pensamento mídia-educativo, é promovida e fomentada pela metodologia EAS, que busca nas tecnologias uma possibilidade de
ampliar a participação dos estudantes na sociedade. E foi essa metodologia que inspirou nossas intervenções didáticas, no momento empírico da pesquisa.